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quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

MILAGRE



Creio piamente na historicidade dos milagres narrados na Bíblia, tanto no Antigo, quanto no Novo Testamento. Mas se não tivermos cuidado na ênfase dada a eles, corremos o risco de perder de vista o seu propósito. 


O que deveria nos chamar a atenção não são as paredes de água que se formaram no episódio conhecido como “A Abertura do Mar Vermelho”, mas a libertação de um povo que por séculos viveu sob o domínio dos egípcios. Foi por eles que Deus moveu céu e terra. Ainda que tal milagre não houvesse ocorrido historicamente, o simples fato de uma multidão de escravos ter deixado o Egito rumando à Terra Prometida já se constituiria num extraordinário acontecimento.


Veja por exemplo a virgindade de Maria e a miraculosa concepção de Jesus. Como cristão, creio no dogma. Porém, este não pode ofuscar o mais importante acontecimento da história humana: Deus se humanizou, veio ao encontro de nossas dores para nos libertar de toda opressão. Se a concepção virginal fosse a ênfase, Paulo certamente a mencionaria. Como profetizou Isaías, aquele seria tão somente um sinal. Ora, o sinal não pode roubar a cena do fato em si. 


Os dogmas podem ser rebatidos pelos que não creem. É um direito que lhes assiste. Ninguém é obrigado a crer. Não fosse a atuação do Espírito em nós, tampouco creríamos. Eu, particularmente, não me sinto ofendido quando um dogma bíblico é questionado. Mas quem ousa questionar a ética contida no Sermão da Montanha, por exemplo? Até o mais cético dos homens tem que admitir o teor revolucionário da mensagem de Jesus. 


Cada milagre realizado por Jesus era motivado unicamente por amor, e tinha como objetivo anunciar a chegada do reino de Deus. Todavia, ele jamais se preocupou em chamar a atenção para seus milagres, pois sabia que caso o fizesse, eles poderiam ofuscar seus ensinamentos.


Os poderosos não se preocupam com os dogmas cristãos. Para eles, tudo não passa de fantasia, e como tal, ajuda a manter as pessoas sob controle. A única coisa que poderia preocupar os poderosos é a mensagem subversiva do reino de Deus, com sua ênfase na justiça, na libertação dos oprimidos, na transformação individual e coletiva. Isso sim é perigoso. O resto serve para entreter. 


Toda vez que divulgamos as intervenções miraculosas de Deus na história, devemos revelar a conexão entre elas e o propósito divino de promover uma sociedade justa, sem preconceitos, ódio, egoísmo e corrupção. Sem isso, serão apenas espetáculos pirotécnicos para fazer arrepiar a espinha de quem os assiste.

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