“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5:1).
Embora criado à imagem e semelhança de Deus, uma vez caído, o homem não mais se identificou com Deus. Foi exatamente isto que procurou: ser autônomo, distinto, um deus, um padrão em si mesmo. Ser um deus é ser único! Mesmo nos panteões imaginados pelos homens, não há dois deuses iguais. Têm sua identidade e características próprias. No entanto, uma vez que se distinga da fonte de todo bem e perfeição, o homem tornou-se a expressão do mal, assim como o próprio diabo. Este ser, criado em bondade e retidão, também preferiu o caminho alternativo, da diferença.
Adão passou não apenas a conhecer o bem e o mal, mas a determiná-los em seu próprio ser e vontade. Isto também é atributo divino que o homem tentou usurpar e viver. Deus é sua própria Lei. Significa dizer que ele não se submete a nada e ninguém. Ele é o padrão daquilo que faz, de sua própria existência. De igual forma, apenas o seu querer é que busca realizar. É o que se convencionou chamar na Teologia de vontade preceptiva e vontade decretiva de Deus.
A primeira é encontrada nas Escrituras, estabelecendo o critério moral, do bem, dos atos e pensamentos corretos. A segunda, constitui o propósito de tudo, a vontade de Deus quanto a todos e todas as coisas, predestinando a própria realidade. Percebemos que o homem se colocou como padrão de seu próprio comportamento e quer determinar o destino de todas as coisas relacionadas a si. Dessa forma, criado identificado com toda justiça e santidade, Adão preferiu o caminho da afirmação distinta de si, diferente de Deus, como um deus para si. Ao fazer assim, abandonou a justiça do Criador, tornando-se injusto e pecador, necessitado da verdadeira justiça.
O que Jesus vem fazer é exatamente conceder justiça ao ser humano pecador, a expressão de sua graça salvadora. Quando Jesus, como o profeta semelhante a Moisés, sobe ao monte para promulgar sua Lei, no que ficou conhecido como “Sermão da Montanha”, afirma que não veio revogar a Lei, mas cumpri-la. O termo grego traduzido por “revogar” tem como sentido básico a ideia de “destruir”. Quando pensamos na cena de alguém destruindo a Lei nos vem imediatamente à mente o episódio envolvendo Moisés e a apostasia do povo. Logo ao descer do Monte Sinai, onde recebeu as tábuas da Lei, Moisés encontrou o povo em paganismo e orgias, adorando o bezerro de ouro. Como resultado, quebrou as tábuas da Lei. Também na época Jesus o povo estava em apostasia. No entanto, ao invés de destruir a Lei, Jesus a cumpriu, expressão da graça incomparável do Senhor.
Quando falamos da justificação ressalta-se o cumprimento da Lei por nosso Senhor, exatamente para nos atribuir a justiça e a perfeição perdidas na queda. A Teologia vê dois aspectos da justiça de Cristo atribuídos a nós. São chamados de justiça ativa e justiça passiva. No primeiro caso, destaca-se exatamente o que temos dito sobre o cumprimento da Lei por Jesus. Ele ativamente cumpriu a Lei com o objetivo específico de nos compartir seus méritos, a fim de sermos considerados justos. No segundo caso, Jesus se entrega passivamente à morte, pagando a nossa dívida de sangue, morrendo em nosso lugar.
É importante entendermos o aspecto holístico da obra de Cristo. Geralmente pensamos na salvação centrada exclusivamente na cruz. Certamente, o episódio do Calvário é central à obra de Jesus para nos salvar. No entanto, estritamente falando, na cruz está a nossa redenção, a remissão de nossos pecados. Redenção ou remissão estão ligadas ao resgate, à libertação, quando fomos “comprados” por seu sangue. No entanto, ainda assim, se Jesus apenas morresse por nós continuaríamos perdidos. Embora a nossa dívida estivesse paga, permaneceríamos considerados essencialmente pecadores. Era necessário que, de alguma forma, nossa existência fosse vista não como a de transgressores que vivem em revolta contra o Criador. Para que não fôssemos mais tomados como inimigos de Deus por nossos próprios atos, Deus enviou Jesus também para cumprir a Lei em nosso lugar, transferindo-nos, assim, a sua justiça.
A justiça de Jesus aplicada a nós e o pagamento de nossa dívida nos devolvem a paz edênica. Viver com Jesus é respirar novamente os ares do paraíso, a paz que prescinde da morte e de todas as agruras desta terra. É olhar para o céu e ver Deus e sua glória na certeza de que tudo ocorre nele, por meio dele e para ele. Vivemos na segurança de sua soberania, dedicando nossa existência ao único Deus verdadeiro, não mais a nós memos. Tudo é pensado em função da glória do Senhor. Dizendo isso de outra maneira, o crente não apenas conhece o status da salvação, mas a vive, desfrutando da comunhão com Deus e de seu ser constantemente. Embora caído, o eleito está redimido, desfrutando os privilégios da redenção e da justificação, adotado filho de Deus. Isso é ter a paz de Deus anunciada no verso epigrafado.
A beleza da obra de Cristo é incomparável! Nossos pecados não foram simplesmente ignorados, nossa dívida não ficou “ativa”. Seu perdão não apenas esquece a dívida, mas a quita totalmente. Nossa vida não permanece injusta pela opção de Adão, concretizada em nossa existência diariamente por nossos próprios atos e pensamentos. Recebemos a justiça perfeita de Jesus. É assim que Deus realizou sua obra de salvação, anulando todos os efeitos da queda em nosso ser: concedeu-nos justiça e pagou nossa dívida. Louvado seja o Senhor por seus atos perfeitos e gloriosos!
Aprendamos a cultuar o Senhor diuturnamente por meio de tudo o que somos e fazemos, orientando tudo conscientemente para a glória dele. Entender a obra de Jesus para nos salvar é importantíssimo para que reconheçamos o valor e a beleza de tudo o que fez. É assim que somos eternamente agradecidos por seu grande amor para conosco, o que nos habilita a viver exclusivamente para a glória dele. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus