“A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número” (At 9.31).
Lucas tem o costume de fazer atualizações da situação da igreja em seu segundo livro, Atos. Aqui temos uma delas, quando a igreja já havia alcançado praticamente todo o antigo território de Israel que, na época do Novo Testamento, compreendia exatamente a Judeia, Samaria e Galileia. É curioso aquilo que Lucas destaca com respeito à situação da igreja. Ele não ressalta aspectos como santidade ou serviço, que certamente eram experimentados pela igreja na ocasião, mas sim a “paz”. Ora, como a paz tem sido desprezada especialmente em época como a que vivemos! Aparentemente a perseguição por parte dos judeus não tinha arrefecido. No próprio capítulo 9 de Atos, logo no início, temos a referência à conversão de Saulo, que “respirava ameaças e morte” contra os discípulos. Portava cartas das sinagogas de Damasco que lhe autorizavam a prisão de cristãos. No texto imediatamente anterior ao do verso epigrafado, há o relato da perseguição contra Paulo já convertido em Damasco. Portanto, devemos entender que, embora as igrejas da Judeia, da Samaria e da Galileia, estivessem debaixo da ameaça constante de perseguições e prisões, havia paz.
A paz não é resultado da ausência de problemas ou da existência de condições favoráveis, mas da certeza da fé no Senhor e em seu propósito eterno. Possivelmente, por isso há a referência ao “conforto do Espírito Santo” no verso epigrafado. Curiosa é, igualmente, a ordem que Lucas utiliza para se referir àquelas igrejas: Judeia, Galileia e Samaria. Certamente, está em ordem de “afinidade”, podemos dizer. A Judeia se ligava diretamente à Galileia, por terem se estabelecido ali colônias de habitantes do reino de Judá perto do período intertestamentário. Embora fossem tidos como judeus de segundo escalão (Jo 1.46), os galileus conseguiam se relacionar com os judeus da Judeia. No entanto, no caso dos samaritanos, nem judeus, nem galileus, se aproximavam deles. Sabe-se que, historicamente, os samaritanos são herdeiros de um misto de gente que habitou aquela região após a queda do Reino do Norte. Embora tendo perdido a descendência abraâmica por terem se misturado, continuavam afirmando ser povo de Deus e herdeiros das mesmas promessas dos judeus, o que enfurecia aqueles que preservaram a linhagem. O ódio do judeu para com o samaritano assim se explica.
Contudo, Lucas afirma que havia paz nas igrejas da Judeia, Galileia e Samaria. Embora possamos nos referir a elas como igrejas locais, Lucas faz questão de usar o singular: “A igreja, na verdade, tinha paz...”. Propositalmente o autor não vê três igrejas distintas, mas apenas uma única igreja de Cristo. Portanto, está claro que a paz que se refere não é apenas com referência a causas exteriores, a perseguição dos judeus, mas também internas, mostrando que, a despeito de todas as diferenças de séculos de divisão e ódio, os cristãos iniciaram uma convivência pacífica entre povos que jamais estariam juntos. É a paz de Deus como evidência e resultado da verdadeira fé. A ordem correta seria Judeia, Samaria e Galileia, pois essa é a sequência da sua posição no mapa. A inversão proposital mostra as dificuldades enfrentadas para a paz, mas que foram finalmente vencidas. Embora não aceitos plenamente pelos judeus, os galileus já desfrutavam de contato com eles. Por isso, as barreiras para a comunhão eram menores e a experiência da paz foi alcançada com menores dificuldades. No entanto, com os samaritanos, pelas razões já explicadas, deu-se de forma muito mais difícil, porém, por fim, foi alcançada. Povos que se odiavam, agora, estavam unidos por causa de e em Cristo. Outra possiblidade para a inversão da ordem era a menor perseguição na Samaria, assim, ficada por último, devido ao fato de os judeus evitarem ao máximo passar por terra de samaritanos.
A paz é a vivência da mesma fé! É a própria unidade da igreja. É o ambiente da paz que resulta o que está na continuidade do verso: a edificação no temor do Senhor e o crescimento no conforto do Espírito. É o ambiente da paz que resulta o fortalecimento interno da igreja e sua expansão externa. Não se trata de alijar alguns relacionamentos pela preferência de outros. É exercer a mesma fé na comunhão com todos os crentes. Jesus, conforme Isaías, é o príncipe da paz. No canto dos anjos na ocasião do nascimento de Jesus, é o Messias que traz a paz de Deus àqueles a quem ele quer bem. Como expressão máxima da graça de Deus, Cristo é também seu resultado na saudação apostólica. A paz é, desde sempre, o fundamento da igreja de Deus.
Já no Antigo Testamento a capital do reino davídico foi estabelecida em Jerusalém. Essa cidade já é conhecida na época de Abraão com apenas parte do nome que assumiria mais tarde: Salém. Melquisedeque, cujo nome significa “rei de justiça” em hebraico, era maior do que o próprio Abraão, tendo recebido deste o dízimo. Quando Davi tomou a cidade das mãos dos jebuseus, já era chamada “Jerusalém”, ou seja, “fundamento da paz”. O filho que Davi queria que fosse seu sucessor era “Absalão”, isto é, “pai de paz”. Porém, aquele que lhe foi realmente sucessor no trono foi “Salomão”, o “pacífico”. Uma das “bem-aventuranças” afirmadas por Cristo no Sermão da Montanha foi: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5.9). Exatamente porque Cristo veio trazer a paz é que o crente encontra perfeita identificação com ele ao portar sua paz e distribuí-la. Assemelha-se ao próprio “Filho de Deus”.
A vivência da paz na vida pessoal, bem como, a experiência da paz na vida com os irmãos, não são acessórios da vida cristã, apêndices descartáveis, mas sua própria essência e maior evidência. Ter fé em Cristo é ter a paz de Cristo. O fundamento de nossa vida tem que ser a paz, bem como, o fundamento de toda igreja. Ao invés de olhar para o mundo, seus acontecimentos, seus problemas, seus atrativos, olhemos apenas para Cristo, e verdadeiramente desfrutaremos da paz de Deus, que excede todo entendimento. Tenhamos um excelente dia na presença de Deus