Não quero escrever este texto para tornar ninguém mais crítico e desconfiado das outras pessoas.
Também não quero colocar sobre ninguém a pecha de falso, fingido ou hipócrita. A vida já é suficientemente complexa para que transformemos cada gesto equivocado em prova de falsidade e cada contradição humana em evidência de mau caráter.
Todos nós temos incoerências. Todos estamos, de alguma maneira, tentando diminuir a distância entre aquilo que somos e aquilo que deveríamos ser.
Mas existe uma diferença entre ter contradições e construir um personagem.
Há pessoas que precisam se arrepender do pecado da dissimulação. Elas aprenderam a administrar aparências. Tornaram-se especialistas em apresentar uma versão de si mesmas que não corresponde à verdade no íntimo.
Dizem o que não pensam, demonstram o que não sentem, prometem o que não pretendem cumprir, elogiam, mas secretamente desprezam.
Essa gente abraça pessoas que ataca pelas costas e trabalha silenciosamente contra elas, enquanto preserva diante delas a aparência de amizade.
O problema é transformar a vida em um palco.
A palavra “hipócrita” tem uma história ligada ao teatro. O grego hypokritēs designava o ator, aquele que interpretava um papel.
Jesus confrontou duramente a hipocrisia porque ela cria uma ruptura entre o exterior e o interior, entre o discurso e a realidade.
Há pessoas cuja reputação foi cuidadosamente construída, enquanto o caráter foi silenciosamente abandonado.
A reputação está sempre fazendo a pergunta: “O que pensam de mim?” Nesse caso, o seu deus é a sua própria imagem.
E, ao alcançar um nível mais profundo de comprometimento com essa agenda, o personagem costuma sequestrar o ator, e a máscara usada para interpretar acaba se tornando uma identidade.