AS VÁRIAS FACES DA MENTIRA
Por Hermes C. Fernandes
Em tempos de fake news, apegar-se à verdade tornou-se urgente.
Mas o que é a verdade?
Foi essa a pergunta feita por Pôncio Pilatos a Cristo.
Antes de ousar respondê-la, proponho outra questão, igualmente pertinente:
o que é a mentira?
Talvez, ao compreendê-la, consigamos reconhecer a verdade, ainda que por contraste. O que não for mentira, é verdade. Assim como o que não for trevas, só pode ser luz.
Todos rejeitam a mentira.
Mas nem todos estão dispostos a viver a verdade, pagando o preço que ela exige.
Como disse George Orwell:
“Em tempos de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário.”
E é.
Ser verdadeiro é insurgir-se contra um sistema sustentado por ilusões. E quem se levanta contra isso deve estar preparado para o custo da rebeldia.
Atribui-se a Joseph Goebbels a frase: “Uma mentira repetida mil vezes se torna verdade.”
Não por acaso, a mentira precisa ser massificada. Repetida. Compartilhada. Validada por múltiplas vozes.
A preguiça de alguns, somada à má-fé de outros, impede a checagem dos fatos. E, quando a mentira é desmentida, o estrago já foi feito.
Então vem o cinismo:
“Só repassei.”
Mas quem repassa também participa. Torna-se cúmplice.
Não foi isso que o apóstolo Paulo advertiu?
“Não sejais cúmplices das obras infrutuosas das trevas; antes, condenai-as.”
Não confunda verdade com verossimilhança.
Algo pode parecer verdadeiro sem ser.
É o “faz sentido, mas não é”.
É coerente, plausível, convincente… e ainda assim, falso.
A mentira raramente se apresenta como mentira.
Ela se disfarça.
Pode surgir como distorção, exagero, omissão, ironia, sarcasmo ou insinuação.
Pode habitar no tom, não apenas nas palavras.
Às vezes, estamos tão empenhados em confirmar nossas suspeitas que ignoramos o óbvio.
Não queremos a verdade. Queremos ter razão.
E, para isso, sacrificamos reputações sem hesitar.
Uma frase isolada não revela a intenção de um discurso.
Texto exige contexto.
Palavras exigem leitura.
E leitura exige honestidade.
Entre todos os artifícios da mentira, um dos mais perversos é usar a verdade para enganar.
Sim, isso é possível.
Quando a verdade é dita sem sinceridade, com intenção de ferir, manipular ou destruir, ela deixa de cumprir seu propósito.
Transforma-se em instrumento de maldade.
Por isso, Jesus Cristo enfatizava:
“Em verdade, em verdade vos digo…”
Não basta dizer a verdade.
É preciso dizê-la em verdade.
E mais: em amor.
Sem amor, até a verdade se torna violenta.
A verdade não foi dada para ferir, mas para libertar.
Qualquer “verdade” que oprime, humilha ou manipula já foi corrompida em sua essência.
A mentira não nasce da verdade.
Mas frequentemente se veste dela para enganar.
Como uma das bestas do Apocalipse, tem aparência de cordeiro, mas voz de dragão.
Até quando fala a verdade, mente — porque sua intenção é distorcida.
Se você usa uma verdade para chantagear, difamar ou obter vantagem, o que você possui não é a verdade, mas fragmentos manipulados dela.
A verdade não serve ao ego.
Serve à liberdade.
Outro recurso comum é usar verdades periféricas para esconder a verdade central.
Distrai-se com detalhes para ocultar o essencial.
Há também as pseudoverdades: começam corretas, mas conduzem a conclusões equivocadas.
Construções sofisticadas que desmoronam ao se remover seu fundamento.
Nem toda divergência é mentira.
Uma mesma verdade pode ser vista de ângulos diferentes, gerando percepções complementares.
Mas há versões que se anulam.
Se uma está correta, a outra não pode estar.
E quanto à omissão?
Nem toda omissão é mentira, mas algumas são.
Quando se esconde a verdade de quem tem o direito de conhecê-la, há engano.
Quando se preserva o que não diz respeito ao outro, há sabedoria.
Quando se aguarda o tempo certo para revelar, há maturidade.
Nem tudo precisa ser dito.
Mas tudo que for dito deve ser verdadeiro.
Se o Diabo é o pai da mentira, quem a adota torna-se seu padrasto.
E quem a propaga, seu herdeiro.
No fim, a questão não é apenas o que dizemos.
Mas a quem servimos ao dizer.
Porque a verdade liberta.
E tudo o que não liberta… ainda não é verdade.