A fé que agrada a Deus
“Porventura, procuro eu, agora, o favor dos homens ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1.10).
Depois de afirmar o único e verdadeiro evangelho diante da inconstância dos gálatas, Paulo faz questão de defender também a si mesmo, como apóstolo de Jesus Cristo. Um dos métodos mais eficientes para acabar com a autoridade de alguém é lançar alguma desconfiança sobre ele. É o que, basicamente, vemos na política brasileira. Quer derrubar alguém bem-quisto? Trabalhe para desacreditá-lo, lançando desconfianças contra ele. Nenhuma autoridade resiste ao descrédito e à desconfiança. Os métodos ímpios e diabólicos também aparecem dentro da igreja, utilizados especialmente por pessoas que se intrometeram nos assuntos de Deus, bem como, por crentes que se deixam influenciar por ímpios. Principalmente, neste verso dez, vemos Paulo reagindo a uma acusação que lhe faziam.
Os judaizantes se oportunizavam do evangelho para fazer prosélitos judeus, afirmando aos Cristãos recém-convertidos que precisavam primeiro guardar a Lei e os costumes judaicos. É como se dissessem que, antes de se tornarem cristãos, os gálatas precisavam se tornar judeus para que vivessem a autêntica verdade de Deus. Acusavam o apóstolo Paulo de ser uma espécie de “facilitador” para atrair mais seguidores. Para eles, Paulo era alguém que pregava uma religião desobrigada de esforço e obras, uma espécie de crença que não produz transformação ou frutos. Era assim que os judaizantes entendiam a pregação do evangelho da graça de Cristo: algo inerte, que não exigia o serviço a Deus.
Lembremos da plausibilidade de Tiago ter escrito sua carta para corrigir um mal entendimento quanto à doutrina paulina. Uma má compreensão não de Paulo, obviamente, mas de muitos judeus ligados ao cristianismo, que acreditavam que era possível crer, sem qualquer fruto ou transformação na vida. Tiago teria escrito sua carta exatamente para combater aquilo que estavam acusando Paulo de fazer: a pregação de um evangelho descomprometido, só de ouvir, sem atuação, sem efeito transformador. Daí Tiago afirmar que semelhante fé jamais poderá trazer salvação, jamais livrará do juízo. Tiago afirma a necessidade de uma justiça comportamental, não para méritos, não para acumular uma justiça pessoal, como pregavam os judaizantes. Se a Carta de Tiago fosse do conhecimento destes, seguramente serviu de “munição” para seus ataques contra Paulo e seu apostolado, bem como, para a reafirmação de que apenas o cristianismo praticado e pregado pelos apóstolos de Jerusalém era o verdadeiro.
Era exatamente o comportamento transformado, a presença de santidade e obras, que destacavam, que comprovavam a existência da fé verdadeira: “onde está a fé se nada produz? Eu mostrarei a minha fé por meio das obras que realizo, da justiça de Cristo em minha vida, em meu comportamento e atitudes”. Paulo combatia aqueles que descansavam em seus próprios esforços para obter justiça pessoal, ao invés de descansar na graça de Jesus. No entanto, seus oponentes, por sua vez, acusavam-no de pregar um evangelho sem obras, sem transformação, sem atitude. Por isso, a reação de Tiago! Não contra Paulo, pois Paulo não pregou jamais um evangelho contemplativo, mas contra aqueles que acreditavam que o evangelho da graça era a pregação da passividade.
Isso é algo muito sério! Acredito que essa batalha na qual Paulo e Tiago se envolveram como aliados é exatamente aquilo que mais ameaça a igreja em todos os tempos! Temos extrema dificuldade em achar o ponto de equilíbrio entre graça e obras. Como o pecado ainda está presente em nossa vida, podemos pecar sempre que nos inclinamos mais para um lado do que outro. O grande problema é que uma meia-verdade é uma mentira completa! Se simplesmente confio que sou salvo pela graça de Cristo, e desprezo a vida resultante disso, esse não é o evangelho de Cristo. É um evangelho mentiroso, outro evangelho! Mas, não há outro! Há apenas um evangelho de Cristo. Se, ao contrário, me esforço para fazer coisas para Deus, tanto serviço quanto a obediência em sua Palavra, passando a olhar mais para meus próprios esforços, o resultado será o agrado de mim mesmo, o orgulho. Esse não é o evangelho de Cristo, mas um outro evangelho! Como não há outro, é um falso evangelho.
Essa sempre foi a luta da igreja, a luta de cada crente contra tendências malignas que ainda assombram o seu coração: a falsa confiança na graça, ou, uma falsa confiança em si mesmo. Esse é um problema real! A acusação feita pelos judaizantes conta Paulo é verdadeira e real! Não que Paulo estivesse facilitando o evangelho a alguém, mas sim que realmente essa tendência existe! Ela é tão sutil, que os próprios acusadores de Paulo incorriam nela, mas se radicando no lado oposto àquilo que acusavam o apóstolo. Façamos um exercício pessoal. Arriscaria dizer que, em nossos dias prevalece o radicar-se na graça, em detrimento de obras.
É importante dizer que as obras não são um complemento à fé, como se fosse a parte humana na própria salvação do indivíduo. Nós, crentes, não somos chamados a completar a obra de Cristo por meio do estabelecimento de uma justiça pessoal. Certamente, nos radicamos na graça. Porém, o que temos que entender é que aqueles que verdadeiramente receberam a graça de Deus em Cristo vão mostrá-la por meio de uma vida transformada, o que inclui santidade e serviço. As obras sempre foram, sempre são e sempre serão a única evidência da verdadeira fé. Então, analise e pense: olhe para sua vida neste momento: o que você vê? Você repara uma vida verdadeiramente comprometida com Deus? Faça o teste proposto por Tiago: mostre a sua fé através de suas obras. Tente enxergá-la, apalpá-la, por meio de seus efeitos, de seus resultados.
Você tem uma vida transformada? Ela é visível àqueles que não creem? No seu ambiente de trabalho, na universidade, na sua família, pessoas não crentes também a veem com clareza? São capazes de perceber a enorme diferença que há em sua vida? Conseguem ver a santidade de Jesus em você? Você é como cidade toda acesa à noite, sobre uma montanha? Se você é crente, sua fé será plena. A vida cristã foi resumida à santidade entendida como moralidade! Descartou-se, eliminou-se por completo da agenda cristã a necessidade do serviço a Deus. A grande preocupação do crente atual, daqueles que ainda se preocupam com algo, é modelar o comportamento às Escrituras, isto é, apenas ética e moral. Sem dúvida é uma preocupação legítima. Porém, só será verdadeira se estimular igualmente ao serviço. A religião da graça torna-se evangelho egoísta e mentiroso se não incluir o serviço a Deus e ao próximo.
Então, não basta olhar para a própria vida e reconhecer alguns traços de Cristo no comportamento. Tenho que me perguntar: o que tenho feito para o reino? Que tipo de trabalho realizo como evidência de minha fé? É por isso que Tiago enfatiza o serviço, não apenas a santidade: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo” (Tg 1.27). Onde está a verdadeira religião? O que realmente manifesta a verdadeira fé? Assistir órfãos e viúvas: serviço; e guardar-se incontaminada do mundo: santidade. A verdadeira fé tem que produzir frutos de justiça na santidade e no serviço. Talvez Tiago coloque em primeiro lugar o serviço exatamente porque olhar para o outro é enorme dificuldade para o ser humano caído. Ele tende ao egoísmo, a olhar para si. Sua busca de Deus, muitas vezes, reflete seu egoísmo. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus