“Eis que o meu Servo procederá com prudência; será exaltado e elevado e será mui sublime” (Is 52.13).
Deus trabalha conosco de formas diversas e imprevisíveis. Por vezes, não entendemos os caminhos do Senhor. Não raro o Senhor nos surpreende com coisas completamente imprevistas, cujo resultado pode ser alegria ou tristeza. Não sabemos os propósitos do Senhor. Somos humilhados diante da soberania de Deus, que a tudo governa: "Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!" (Rm 11.33). Geralmente tomamos esse texto para enfatizar que devemos nos modelar passivamente aos propósitos de Deus, aceitando a adversidade, especialmente aquela que nos deixa atordoados e perplexos sem entender o que o Senhor quis com aquilo.
Porém, há também aquelas situações quando devemos aceitar ativamente, ocasiões quando surgem desafios que não nos parecem lógicos dentro de nossa maneira de pensar. É interessante que nos sentimos mais confortáveis no enfrentamento de coisas que pudemos antecipar em alguma medida, ou naquilo que parece mais lógico, mas sentimos algum desconforto quando temos que lidar com situações repentinas ou que talvez realidades que jamais imaginamos estar associadas a nós. Quando não entendemos algo há vertigem e insegurança, a sensação de avançar por caminho desconhecido. Certamente o que está à frente não conhecemos, pois nunca vivemos. Muito do nosso futuro nada mais é que a repetição de experiências que já tivemos ou que se assemelham bastante a vivências pretéritas. Todavia, se experimentar algo realmente novo, que nunca vivenciamos, talvez até mesmo algumas coisas ou práticas que jamais imaginamos para nós, sentimos um frio na barriga, a incerteza de quem está diante daquilo que lhe é inédito.
Embora não seja algo muito comum, há ocasiões em que o Senhor nos surpreende com desafios assustadores e específicos, que confrontam nossos temores e receios. A vida deixa cicatrizes que, às vezes, são mais do que memórias: medos. Os golpes que recebemos comumente podem resultar certa resistência, o que é positivo. Todavia, é igualmente possível que nos cause hematomas que nos deixarão inseguros e medrosos, verdadeiramente pusilânimes, o que se levantará contra a arrojo e a coragem típicas da vida cristã. Surrados por acontecimentos, nossa alma pode desenvolver medos e inseguranças injustificáveis que precisam ser enfrentados a fim de que não nos tornemos sábios teóricos. O Senhor sabe aquilo que precisamos experimentar para retomar o ímpeto e a ousadia necessários.
A sabedoria bíblica é essencialmente ativa, não contemplativa. Não raro, pensamos no sábio no modelo grego clássico, quando o ofício do filósofo era o ócio, ficar absorto por horas, estático, simplesmente pensando, filosofando. A sabedoria bíblica leva sempre à ação. É certo que não é meramente pragmática, mas calcada em reflexão e entendimento. No entanto, perece que, para muitos, a sabedoria bíblica é apenas a capacidade de compreensão, totalmente destituída da ação, ou que, no mínimo, algo visto como desnecessário. O sábio é aquele ousado em obedecer, em fazer a vontade do Senhor e andar em seus caminhos. Machucados pela vida, pode ser que nos tornemos acovardados, sem a ousadia que deve marcar nossa obediência no serviço ao Senhor. Desafios servem para fazer com que enfrentemos nossos medos e inseguranças. Assim, é um dos métodos de o Senhor trabalhar conosco.
O verso epigrafado é profecia sobre Jesus. Especificamente mostra como o propósito do Senhor se cumprirá em sua vida. A sabedoria prática, a prudência, será uma marca distintiva de sua vida. O plano de Deus para ele o levaria a um final glorioso. É interessante que a narrativa dos sofrimentos do Servo se inicia com o final. Isso é importante considerar. Trata-se de grande ensinamento: ao invés de fixarmos nossos olhos nos problemas, dificuldades, dores e sofrimentos da presente existência, devemos olhar para o final, para a glória eterna em Cristo. Apenas depois de anunciar a conclusão gloriosa da obra de Jesus que Isaías destacará todo o sofrimento pelo qual haverá de passar. Analogamente, diante de todos os desafios desta vida, devemos ter por certo que os propósitos do Senhor estão se cumprindo e se cumprirão em nossa vida. Haverá momentos de insegurança e de incertezas, quando não conseguimos divisar com clareza o caminho a seguir. No entanto, dando um passo por vez, seguimos adiante, exatamente como fez Cristo, mesmo quando caminhava em direção ao Calvário. São muitos os desafios, mas o final glorioso já está garantido. Como diz o apóstolo Paulo: Deus nos conduz em triunfo. Tenha um excelente dia na presença de Jesus