O rei Acabe queria saber se deveria ir à guerra contra Ramote-Gileade.
Para tomar a decisão, reuniu cerca de quatrocentos profetas e perguntou:
“Irei à peleja contra Ramote-Gileade ou deixarei de ir?”
A resposta parecia praticamente unânime:
“Sube, porque o Senhor a entregará nas mãos do rei.”
— 1 Reis 22:6
Entre aqueles profetas estava Zedequias, filho de Quenaana.
Ele chegou a fabricar chifres de ferro e fez uma declaração impressionante:
“Assim diz o Senhor: Com estes ferirás os sírios, até de todo os consumir.”
— 1 Reis 22:11
Tudo parecia confirmado.
Muitos profetas.
A mesma mensagem.
Uma profecia encenada diante dos reis.
Mas Josafá fez uma pergunta:
“Não há aqui ainda algum profeta do Senhor, ao qual possamos consultar?”
— 1 Reis 22:7
Acabe respondeu que havia um homem:
Micaías, filho de Inlá.
Mas o rei imediatamente revelou o que pensava sobre ele:
“Eu o odeio, porque nunca profetiza de mim o que é bom, mas somente o que é mau.”
— 1 Reis 22:8
Mandaram buscar Micaías.
E antes mesmo que ele chegasse diante do rei, o mensageiro tentou influenciá-lo.
Disse que todos os outros profetas estavam anunciando coisas boas ao rei e sugeriu que Micaías fizesse o mesmo.
A resposta de Micaías foi simples:
“Vive o Senhor, que o que o Senhor me disser, isso falarei.”
— 1 Reis 22:14
Quando finalmente apresentou sua mensagem, Micaías descreveu Israel espalhado pelos montes:
“Como ovelhas que não têm pastor.”
— 1 Reis 22:17
A mensagem indicava que a batalha não terminaria como Acabe esperava.
Então Micaías contou uma visão e afirmou que os profetas de Acabe estavam sendo enganados por um espírito de mentira.
Foi nesse momento que Zedequias perdeu a paciência.
Ele se aproximou de Micaías e lhe deu uma bofetada no rosto.
Depois perguntou:
“Por onde passou de mim o Espírito do Senhor para falar a ti?”
— 1 Reis 22:24
Perceba a tensão dessa pergunta.
Zedequias estava convencido de que Deus falava por meio dele.
Micaías também afirmava estar transmitindo aquilo que havia recebido do Senhor.
Os dois não poderiam estar certos.
E havia cerca de quatrocentas vozes apoiando o lado de Zedequias.
Micaías estava praticamente sozinho.
Acabe decidiu não ouvi-lo.
Mandou prendê-lo e ordenou que recebesse apenas pão e água em quantidade reduzida até que o rei voltasse da guerra.
Micaías respondeu:
“Se voltares em paz, o Senhor não falou por mim.”
— 1 Reis 22:28
Acabe foi para a batalha.
E tentou tomar uma precaução:
Entrou no combate disfarçado.
Mas um homem disparou uma flecha “ao acaso”.
A flecha encontrou justamente uma abertura entre as peças da armadura de Acabe.
O rei foi gravemente ferido.
Naquela tarde, morreu.
— 1 Reis 22:34–37
A palavra de Micaías havia se cumprido.
Essa história nos deixa uma advertência extremamente atual.
A quantidade de pessoas repetindo uma mensagem não determina se ela é verdadeira.
Mas existe também o perigo de concluir o contrário:
Estar sozinho também não significa automaticamente estar certo.
Micaías não estava certo porque era minoria.
Estava certo porque sua mensagem realmente vinha de Deus.
Essa diferença é fundamental.
Hoje também podemos encontrar centenas de pessoas dizendo a mesma coisa.
Pregadores.
Vídeos.
Publicações.
Frases compartilhadas milhares de vezes.
E ainda assim precisamos perguntar:
Isso realmente corresponde às Escrituras?
Também existe outro detalhe desconfortável nessa história.
Acabe não rejeitava Micaías porque havia demonstrado que ele era um falso profeta.
Ele simplesmente não gostava daquilo que Micaías dizia.
“Eu o odeio, porque nunca profetiza de mim o que é bom.”
Às vezes não procuramos necessariamente a verdade.
Procuramos alguém que confirme aquilo que já decidimos acreditar.
E quando encontramos uma mensagem que nos confronta, nossa primeira reação pode ser rejeitar o mensageiro.
Por isso, uma pergunta importante não é apenas:
“Essa palavra me agradou?”
Mas:
“Essa palavra é verdadeira?”
Porque uma mentira confortável continua sendo mentira.
E uma verdade desconfortável continua sendo verdade, mesmo quando quase ninguém quer ouvi-la.