“e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor” (Ef 3.17).
Vamos nos ater à primeira parte desse verso. O apóstolo Paulo está orando pelos crentes efésios. Refere-se ao Pai, a quem ele dirige a sua oração, destacando nele o agente catalizador, aquele em quem todos se unem por filiação como uma grande e única família de crentes, dos que já estão na glória unidos aos que ainda vivem sobre esta terra. Sem que haja qualquer comunicação entre eles, todos estão eternamente unidos no mesmo corpo de Cristo que é a igreja. Paulo explicita o seu pedido ao Pai em favor dos efésios, uma oração que pode ser entendida como em favor de todos os crentes de todas as épocas, o que também nos inclui. Qual era o pedido? Que sejamos fortalecidos com poder em nossa alma, na medida da glória de Deus. Trata-se de proporção infinita e imensurável, que abre à nossa experiência transformações e experiências que nós jamais imaginaríamos.
Temos a capacidade, no Espírito, de realizar para Deus coisas proporcionais ao seu infinito poder que opera em nossa alma. Podemos ser inteiramente transformados. Nosso serviço a Deus, o que ele pode fazer em nós e através de nós, é acima de qualquer medida. Tudo isso já vimos. Agora o apóstolo fala de outra coisa. Mostra esse pedido, mas de outra maneira. O pedido pelo fortalecimento da alma dos efésios agora é expresso de outra maneira, de uma forma muito mais abençoadora. Ganha um colorido todo especial que evidencia ainda mais a glória de nossa filiação, a bênção de pertencermos à família de Deus. O apóstolo fala da habitação de Cristo em nosso coração. Eis o motivo pelo qual mostra ser ainda o mesmo pedido de fortalecimento.
A referência que faz Paulo do coração em nosso verso é a mesma que faz ao homem interior no verso anterior. Colocando isso de outra forma, o fortalecimento que se dá no homem interior ocorre no mesmo lugar que se dá a habitação de Cristo: o coração. O termo “coração” é uma linguagem figurada para falar do homem interior, da alma, do nosso espírito. Mas não parecem ser coisas distintas. Antes, o fortalecimento do homem interior se dá exatamente pela habitação de Cristo em nós. É o mesmo evento, visto de formas diferentes. Não poderia haver maior fortalecimento em nós do que a presença do próprio Cristo em nosso coração, através do seu Santo Espírito.
Reparemos, então: a medida da glória de Deus é o tamanho da força que opera em nós, poder e glória do próprio Cristo que habita em nós. Mas, não é por acaso que o apóstolo diz isso. Não sem motivo que ele faz uso dessa linguagem. É uma forma de tratamento familiar. Não há um Cristo para cada um de nós. É o mesmo Cristo que habita no coração de cada crente. A família de Deus residente no céu e na terra tem a presença do Senhor, como Pai. Aqui entramos um pouco na doutrina da economia divina, ou seja, como Pai, Filho e Espírito Santo se relacionam no único ser divino. Jesus manifesta o Pai. Filipe, certa vez, pediu a Jesus: “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta”. Nosso Senhor prontamente respondeu: “Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.8, 9). O Senhor já havia dito aos judeus, motivo pelo qual pegaram em pedras para o apedrejar: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30). Cristo veio a este mundo exatamente para revelar e manifestar o Pai.
Embora seja o Filho eterno de Deus, a Segunda Pessoa da Trindade e o Verbo Divino, olhar para Jesus era olhar para o Pai. Não há como separá-los. Só em Jesus se pode conhecer o Pai. Disse o Senhor: “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27). Significa dizer que toda manifestação de Deus nas Escrituras é o Filho quem se mostra. É só por ele que se conhece o Pai. Assim sendo, todas as aparições no Antigo Testamento, as teofanias, as referências ao Anjo do Senhor, eram manifestações de Cristo em seu estado pré-encarnado, da sua natureza divina. Apenas ele é quem revela o Pai.
Entretanto, há outro texto que se mostra importante para nós aqui. No evangelho de João, capítulo 14, verso 18, nosso Senhor afirmou: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros”. De fato, ele já voltou na perspectiva dessa afirmação, motivo pelo qual não estamos tristes por sua ausência. Conquanto Jesus ainda voltará para pôr ponto final ao pecado no mundo, entenda-se: para juízo, ele já voltou através do Espírito Santo. É o Espírito quem manifesta a santa presença de Cristo em nosso coração. Essa presença abundante do Salvador em nossa alma, à qual Paulo faz referência, é exatamente operada pelo Espírito Santo em nós. Lembremos, ainda, do que no disse nosso Senhor: “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14.18). A pergunta que devemos fazer é: quem pode deixar alguém órfão? Apenas o Pai! Contudo, quem é que estava dizendo que não os deixaria órfãos? O Filho! E quem o Filho enviaria para que os discípulos não ficassem órfãos? O Espírito Santo!
Essa é a habitação de Cristo em nosso coração. Depois de falar da família de Deus, a igreja militante e triunfante dos crentes de todas as épocas, Paulo faz referência ao grande lar de Deus com os homens, a Casa de Deus com seus filhos humanos, a habitação do Filho que manifesta o Pai pela presença do Santo Espírito de Deus em nós. Essa habitação de Deus é a composição real da presença do Pai que cuida, que zela, que protege, que nutre e alimenta a cada um de seus filhos. É a comunhão mística da família de Deus, onde estão reunidos crentes de todos os lugares do mundo, até mesmo os que já estão na glória, unidos em um mesmo lar onde Deus habita. Os corações de todos os salvos tornam-se um único coração, Casa de Deus, o lugar da habitação do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Reparemos na semelhança quanto ao conceito do Templo do Espírito. Somos todos um único Templo onde habita a Terceira Pessoa da Trindade, o Espírito de Cristo, o Consolador enviado pelo Filho, o mesmo Cristo que manifesta o Pai. É importante repararmos na glória dessa habitação: Cristo não é referido como hóspede. Não é alguém que está visitando a nossa alma! Trata-se de uma moradia definitiva e constante. Esse termo “habite” na língua grega expressa algo realizado plenamente, uma habitação concreta e definitiva. Cristo assume seu lugar de direito em nossa alma, de uma vez por todas. Nossa vida é integrada definitivamente à família de Deus pelo cuidado divino do Pai eterno.
Essa habitação não é uma simples presença. Por isso Paulo faz questão de se referir à súplica por poder para os efésios como a habitação de Cristo. Nem é mero poder em nós. É comunhão, relacionamento com Cristo! Alguém que faz de nosso coração morada e que cuida de nós como Pai não é para ser ignorado. É habitação definitiva com o amado de nossa alma. Se conhecemos verdadeiramente a Cristo, ele será nosso único amor, aquele a quem devotamos a nossa vida por completo. Sua presença em nós será prazer e alegria para o crente. A extensão da glória de Deus é a medida do poder de Deus que opera em e através de nós. A presença contínua de Cristo em nossa alma é a garantia de relacionamento eterno com ele, íntimo e profundo, no seio da família de Deus.
Que gloriosa presença essa da qual Deus nos faz alvo! Como você reagiria à presença daquele a quem você mais ama? O que você faria se tivesse diariamente acesso a alguém a quem você admira tanto a ponto de adorá-lo? É um contrassenso terrível e inexplicável para um crente não deslumbrar-se diariamente com o Cristo que habita sua vida, não ter momentos de comunhão, não querer desfrutar de sua presença pessoal! O senso da presença de Cristo em nós é um freio natural ao pecado. Imagine você pecando, olhando e vendo Cristo ao seu lado, em seu coração! Nosso prazer estará em Deus e nas coisas do Senhor, não no pecado. Nosso coração se encherá de alegria e adoração por aquele que está em nós, pelo cuidado paternal infalível daquele que não nos deixa jamais órfãos. Louvemos e adoremos ao único Deus verdadeiro, que habita o nosso coração. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus