“Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27:46).
Muitas vezes nos sentimos sozinhos. Quando isso acontece, na maioria dos casos, o problema está em nós mesmos. Por algum motivo, quer seja uma enfermidade, quer seja a perda de alguém querido, quer seja a mudança repentina da rotina profissional ou familiar, quer seja a impossibilidade de concretizar algo que muito queríamos, fechamo-nos em nós mesmos, encolhemos dentro de nosso próprio ser, buscamos propositalmente a solidão interior para evitar o contato com os outros. No entanto, paradoxalmente, esperamos que venham atrás de nós, que nos socorram em nossa solidão. Somos acometidos por uma espécie de vitimismo, como se os acontecimentos, de alguma forma, não tenham se modelado às nossas vontades e expectativas.
Isso ocorre não apenas como consequência de coisas essencialmente tristes, mas pode ser até mesmo resultante de algo em si mesmo bom e aprovado, mas que tenha me causado algum impacto. Às vezes, pode ser consequência de uma situação pretendida, almejada, como uma promoção, mas que não aquilatamos antecipadamente o que ela me traria quanto às mudanças em relação à rotina e perdas, neste caso, especialmente no que diz respeito à utilidade do tempo e relacionamentos.
A solidão nos assalta como um sentimento de alienação, de recolhimento no recôndito da alma, quando nos negamos viver para o exterior, insistindo em viver apenas o interior, esperando que alguém bata à porta de nosso espírito e nos retire dali. Embora realmente desejemos isso, não quer dizer que permitiremos que se dê de forma fácil. Muitas vezes, mostrar-nos-emos trancados, insistindo com a solidão pessoal. Quem pretender nos tirar desse calabouço da alma, vai ter que mostrar que realmente o quer. Exigirá esforço e dedicação.
É possível que haja realmente ocasiões de solidão não intencional, quando de fato estamos sozinhos. Alguém poderá estar em local distante de parentes e queridos, talvez em outros países, a trabalho de homens ou de Cristo, sem ter pessoas próximas com quem compartilhar alegrias e pesos. O advento das mídias tem servido para atenuar a solidão, possibilitando o contado, mesmo visual, com pessoas a grandes distâncias. No entanto, dificilmente isso satisfará o desejo pelo contato, mesmo um aperto de mão ou um abraço fraterno.
Se a solidão é autoimposta ou se é resultado de uma solidão espacial e física realmente, jamais poderia nos afastar do senso da presença daquele que já preencheu o nosso coração e habita em nós. Ainda que nos sintamos afastados de nossos semelhantes, jamais poderíamos nos perceber afastados de Deus! O curioso é que esse sentimento de apagamento que temos, consequência do vitimismo da solidão, não raro também nos faz nos esconder do Senhor.
Na verdade, é como se estivéssemos ao lado dele, mas calados e de costas. Queremos nos convencer que estamos com ele, mas, na verdade, o buscamos à distância. Do recôndito da alma, clamamos ao Senhor para que nos ouça, como se estivesse a quilômetros de nós. É como se, em função de nossa solidão autoimposta, Cristo estivesse do outro lado do abismo. Não é preciso gritar, pois ele está sempre conosco.
Esse sentimento de desconexão, de separação, jamais se aplicaria ao nosso relacionamento com Deus. O banimento de tudo e todos de nossa presença não corresponde à vida cristã. É possível que o pecador até mesmo se acostume com o autoexílio, um eremita recolhido à ermida de seu coração. É uma fuga para um solitário esconderijo. Jonas levou três dias e três noites no ventre de um grande peixe, nas profundezas das águas, para buscar o Senhor como deveria.
É verdade que precisamos nos esconder, nunca de Deus, sempre com Deus. O próprio Senhor é para nós lugar de refúgio. Jesus é para o crente o esconderijo do Altíssimo, lugar completamente retirado das ameaças dos homens, das tormentas e agonias deste mundo de pecado: “O que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente diz ao Senhor: Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu, em quem confio” (Sl 91.1,2).
A postura do servo de Deus é de confiança: “No Senhor me refugio. Como dizeis, pois, à minha alma: Foge, como pássaro, para o teu monte?” (Sl 11.1). No Senhor temos descanso para a nossa alma, companhia inalienável em todo momento. Aí está a questão! Se estamos com o Senhor, jamais estamos sozinhos. Depressivos sentimentos de solidão não podem ser alimentados pela alma suprida de Deus. É por isso que a vida do crente não pode ser marcada por exílios espirituais autoimpostos. Ele só procurará o ostracismo se sentir a solidão, algo que jamais ocorrerá se estiver em um relacionamento devido com Jesus.
A solidão é resultado da consciência de que algo que ocorreu ou está diante de nós é maior do que nós! A experiência de Davi era: “Desde os confins da terra clamo por ti, no abatimento do meu coração. Leva-me para a rocha que é alta demais para mim; pois tu me tens sido refúgio e torre forte contra o inimigo” (Sl 61.2,3). Há no cerne da solidão alguma medida de sentimento de frustração e fracasso, pois não fomos capazes de lidar com alguma circunstância da vida.
A dinâmica da existência inclui ganhos e perdas, e temos que saber lidar com tais situações. Exatamente sobre isso, Paulo diz: “Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.11-13).
Não é possível que alguém que desfrute da bênção da presença do Senhor venha a se afastar voluntariamente de seus irmãos, familiares e amigos. Nossa alma se supre no Senhor, não com qualquer outra coisa, mesmo a abundância de bens materiais. Apenas Jesus tem poder de preencher o vazio da experiência humana. Uma vez que entra em um coração, faz dele morada. Jesus foi abandonado na cruz por alguns momentos para que nós jamais fôssemos abandonados pelo Pai nem mesmo por um segundo. Lembre-se sempre disso! Tenha um excelente dia, desfrutando da companhia de Jesus