A alegria da comunhão
“Enquanto comiam, tomou Jesus um pão, e, abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26:26-28).
O alimento é, em todas as culturas, símbolo da alegria. Reconhecido como aquilo de maior valor, é motivo para adoração em todos os povos, tanto ao Deus único e verdadeiro, idealizador e Criador do universo, mas também aos deuses engendrados pelos homens. É por isso que oferecer alimentos é parte da liturgia de muitas culturas ao redor do mundo. Essa visão é justificada, pois é o alimento que mantém e renova a vida. Aprouve unicamente ao Senhor criar e, a partir da queda, manter por suas inesgotáveis provisões.
Deus criou o universo para o homem, e junto com este, tudo para sua própria glória. No Éden, o alimento integrava apenas as suas delícias, as maravilhosas experiências pensadas pelo Criador para a satisfação do homem, sua imagem e semelhança. Vendo-se no homem, o Senhor se alegrava ao ver a perfeição e bem-aventurança eternas que ele mesmo concedia ao ser humano. A alegria do homem era a alegria de Deus e vice-versa. O Criador capacitou o ser humano com sentidos, habilidades sensoriais através das quais percebe a Criação. Dentre eles, está o paladar.
Originalmente o homem vivia a eternidade de Deus em Deus. Dizendo isso de outra forma, não havia necessidade de alimentar o corpo para a sobrevivência. A morte não existia. Ela entra no mundo de carona com o pecado. Os sabores foram pensados pelo Criador para satisfação de sua imagem e semelhança, para seu próprio prazer quando viesse por fim a se encarnar, assumindo seu devido lugar na Criação. Nada melhor do que ter Deus como um de nós, dirigindo todas as coisas para sua própria glória. O trabalho do homem não era para sua sobrevivência, mas para seu deleite, o seu fruto literalmente sua satisfação.
Uma vez tornado o corpo do homem mortal na queda, a degenerescência do eterno transformado em passageiro, o momento da eternidade no qual Adão desobedeceu esticado para que tudo nele passe e chegue ao fim, o alimento passa a ter função preservadora da existência caída, sem o qual o homem e tudo em que há alguma subsistência desaparecerão. Como consequência do pecado, a terra, de onde o homem foi tomado (Heb. terra é adamah, de onde vem o nome Adam), ventre de sua geração, mantém-se aliada do Criador, agora contrária ao homem, por isso produzindo ervas daninhas e pragas. O clima trará suas intempéries como forma de mostrar o desagrado de Deus quanto à humanidade em revolta contra o Criador.
A entrada da morte no mundo fez do alimento mais do que combustível, símbolo da própria sobrevivência do ser humano. De igual forma, a água passou a ser vital para manter o homem por todos os seus dias, mais necessária até do que o alimento. O Éden era uma espécie de ilha, onde um curso de água circular, que marcava seus limites, era tributário de vários rios que dele saiam, formando a figura de um sol. A presença abundante de água sugere que Adão também a consumia, não para sobrevivência, como já mostramos, mas também para deleite. Seu gosto peculiar atestava a pureza do lugar, símbolo do Espírito Criador de Deus, que pairava exatamente sobre as águas no ato criador. O Espírito Santo é simbolizado na água nas páginas bíblicas.
Pois bem, eis a razão pela qual Jesus é tipificado no maná e na água da rocha. Ele é o pão vivo que desceu do céu, o cumprimento do maná recebido no êxodo. Enquanto o alimento concedido ao povo no deserto foi usado por Yahweh para a manutenção da presente subsistência, o maná eterno chamado Jesus Cristo concede vida eterna na perfeição de Deus. De igual forma a água.
Embora haja verdades e termos semelhantes, é grande erro tomar o texto de João capítulo 6 para se referir à Ceia do Senhor. O contexto das palavras de Jesus ali é o êxodo, como já indicamos. O sacramento da Ceia nem mesmo havia sido instituído. Os católicos, ao aplicarem erradamente esse texto à Santa Ceia, chegam à chamada transubstanciação, heresia que prega o canibalismo ao afirmar a necessidade de realmente comer a carne e beber o sangue de Jesus. Definem-na da seguinte forma: os acidentes da substância permanecem, como o gosto, a forma, a cor, a densidade, mas a substância miraculosamente é transformada. Assim, a hóstia tem cheiro, aparência, formato e gosto de hóstia, mas é carne. O mesmo em relação ao vinho que, por ser o padre um sacerdote, só ele bebe, representando o povo.
É por isso que templos católicos possuem altar, diferente dos protestantes, pois, pela doutrina da transubstanciação, isto é, por acreditarem estar ali a carne e o sangue de Jesus, a cada missa o Salvador é novamente sacrificado. Entendamos assim que, quando nosso Senhor diz: “Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida” (Jo 6:55) tem a figura do maná e da água em mente. Como é que os hebreus no Antigo Testamento se apropriaram deles? Comendo e bebendo! Por isso, aplicando a figura a si, mostra a necessidade de simbolicamente comer sua carne e beber seu sangue. No texto epigrafado, tal ideia é corroborada pelo uso do pronome demonstrativo neutro: “isto”, sugerindo um símbolo, e não “este”, como se a afirmação fosse literal.
Ao propor a Ceia, Jesus está claramente substituindo com ela a Páscoa. Ambas são refeições pactuais, um meio de celebração de aliança. É por isso que Cristo afirma ser “a nova aliança em seu sangue”, ou seja, aquela que cumpre todos os contratos firmados por Deus com o homem desde a queda, constituindo-se em pacto de obras para o Salvador, dependendo inteiramente do seu cumprimento perfeito. É exatamente isso que Jesus anuncia na cruz ao dizer: “está consumado!”, antes de entregar seu espírito nas mãos do Pai.
A Ceia do Senhor, embora seja a celebração da vida, não se dá sem que primeiro a morte ocorra e seja vencida. Ela anuncia a ressurreição, já na afirmação de Jesus de que voltaria a celebrá-la em seu reino. No único pão partido está a participação na morte e na ressurreição de Jesus de todos os eleitos. Dessa forma, é símbolo de nossa união com Cristo, mas também da integração de todos os crentes na unidade do mesmo corpo. Eis o motivo de Jesus, depois de lavar os pés dos apóstolos, mas antes de celebrar propriamente a Ceia, comanda Judas a sair para entregá-lo. Ele não fazia parte daquele ambiente de filhos, ao redor da mesa.
Valorizemos devidamente a participação na Ceia com todo o nosso coração, vivendo a alegria da comunhão eterna com Jesus, nosso Salvador, a celebração da unidade eterna da Igreja. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus