“Então, disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do Senhor, porque muitas são as suas misericórdias; mas, nas mãos dos homens, não caia eu” (2 Sm 24:14).
Certamente, não há como aprender verdadeiramente de Deus e de seu Cristo a não ser por meio das Escrituras, a Palavra inspirada e inerrante do Senhor. No entanto, é igualmente certo dizer que não se aprende do Senhor se não for por experiência, na prática. É importante compreender isso. Quer dizer que enquanto não experimentamos e vivemos aquilo que sabemos ainda não conhecemos verdadeiramente a verdade. Dizendo isso de outra maneira, a verdade bíblica não é conceitual, mas experencial, prática, a própria vida do convertido. O itinerário da verdade é sempre da Escritura para a prática, nunca o contrário, jamais da prática para a Escritura. Não é a prática que determina a Escritura, sempre o contrário.
Isso explica o porquê aprendemos tanto quando sofremos. Não há ocasião mais poderosa de aprendizado do que quando passamos por momentos de crise, qualquer que seja sua causa. O sofrimento é verdadeiramente pedagógico. Doenças, perdas, traições, carestia nos levam à mais profunda reflexão. Nossa fé é questionada, mas também nossos atos. Passamos a considerar de uma forma mais detida e intensa nossa vida, nossos atos passados, acertos e erros. Nessas reflexões somos levados a ponderar a respeito de situações mal resolvidas, males que causamos a pessoas próximas, problemas de consciência que se arrastam, às vezes, por anos. Conheço alguém que encontrou no sofrimento a ocasião perfeita para pedir perdão por algo que fez contra um irmão. Na verdade, fez o que era certo pelos meios errados: a aplicação de uma justiça sem misericórdia.
Esse é um dos maiores problemas para o crente: a aplicação da justiça na vida de outros, seu olhar de justiça. Não devemos nos iludir acreditando que simplesmente fazer o que é certo é realmente certo. O problema é enorme, real e verdadeiro. A grande questão é que o homem caído é um ser completamente destituído de justiça, incapaz de reconhecê-la em si mesmo, dependendo sempre de algum padrão exterior. No caso do crente, exclusivamente as Escrituras. Mesmo o crente não tem justiça, necessitado inteiramente da justiça de Jesus. Entendamos que Justiça e perfeição se tornam sinônimas em algum sentido, pois não pode existir justiça parcial ou incompleta. Uma vez que percebemos isso, fica fácil entender por que não temos justiça.
O homem caído, ainda que sinceramente procure aplicar a justiça, estará sempre em condição inadequada. É um ser destituído de justiça tentando aplicar justiça a alguém que errou. Nessa posição, exatamente por ser falto de justiça, estará sempre tentado a duas coisas: a exigir uma justiça do outro que ele mesmo não vive, uma espécie de tentativa de validar sua vida por meramente defender padrões corretos, ou, simplesmente deixar de exercer justiça, mesmo que por uma falsa misericórdia, pois a sua aplicação, de alguma forma, também o condenará. Certamente, será o crente aquele que enfrentará esse dilema, pois o ímpio dificilmente se importaria com critério de aplicação de qualquer justiça.
Entendamos, então, algo muito importante: é exatamente quando nos importamos com a justiça e santidade que tendemos a aplicar conceitos justos sem qualquer misericórdia, a exagerar, por assim dizer, sua aplicação. Aqui encontramos um dos maiores paradoxos da existência, a extrema incoerência do pecador: o Deus único e verdadeiro, dono, origem e padrão de toda justiça, é perfeitamente capaz de aplicar sua justiça permeada de misericórdia, enquanto o pecador redimido, que não possui justiça pessoal, tende a exigir o rigor da lei sem considerar que está tratando com um pecador incapaz daquele padrão. Deus sempre age com misericórdia para com os homens. A misericórdia só será suspensa quando Cristo voltar, para aqueles que não se beneficiaram da justiça do Salvador. Apenas o juízo final será sem misericórdia.
O texto epigrafado é muito sugestivo quanto a isso. Davi havia praticado o segundo pecado de grandes proporções que o vemos performar, registrado nas Escrituras. O primeiro foi seu adultério com Bate-Seba. O Segundo foi sua soberba por querer sentir o tamanho de seu poder militar, ordenando a contagem de seus exércitos. Curiosamente, algo que vemos unicamente neste episódio da vida de Davi, o Senhor lhe concede oportunidade para escolher o agente de sua correção. Em resposta a isso, afirma o rei: “Então, disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do Senhor, porque muitas são as suas misericórdias; mas, nas mãos dos homens, não caia eu” (2 Sm 24:14).
Lembremos que Davi já havia sido corrigido de seu primeiro grande pecado. O adultério com Bate-Seba lhe trouxe enorme sofrimento e perdas. Mesmo assim, é capaz de reconhecer a misericórdia do Senhor e esperar nele. Deus não pune seu povo, pois toda punição recaiu sobre Cristo no Calvário. Contudo, em sua sabedoria e perfeição sabe o que cada pecador precisa passar para chegar ao arrependimento e ao aprendizado. Percebamos algo muito importante. A correção do Senhor não foi suave. Morreram setenta mil em um único dia. Isso nos ajuda a prever que aquilo que fariam os homens seria muito pior ainda. A aplicação de justiça humana, na maioria das vezes, não passa de hipocrisia de enormes proporções.
Na verdade, talvez o grande problema do pecador redimido seja a tendência de confundir justiça com punição. Erradamente acreditamos que aquele que errou tem que necessariamente sofrer, como se reconhecêssemos que sempre será necessário um inferno mesmo para aqueles que ainda não morreram. Porém, enquanto nesta terra, o que será que devemos considerar acima de tudo: a punição ou o arrependimento? Sem dúvida que a segunda opção deve ser sempre nosso alvo. À mulher flagrada em adultério descrita no capítulo 8 de João Jesus não impôs qualquer sanção ou flagelo. Enquanto os homens hipocritamente queriam o sangue, Jesus simplesmente a perdoou e a dispensou, exortando-a ao arrependimento. À mulher samaritana, referida no mesmo Evangelho, no capítulo 4, alguém que já tinha tido cinco maridos e que naquele momento vivia um relacionamento alternativo com um homem, vemos Jesus a direcionar à fé ao invés de dirigir-lhe qualquer palavra de punição.
Comparando a atitude de Jesus com as mulheres adulteras com a soberba de Davi pode parecer que o Senhor foi muito duro com este e suave com aquelas. Ao invés disso, devemos compreender que todo pecado sempre trará as suas consequências e que apenas o Senhor sabe exatamente com quem precisa tratar com correções mais severas pela análise não apenas do ato praticado, mas da condição do coração do pecador. Em outras palavras, é o único que conclui o que é necessário para o arrependimento sincero. Quanto a nós, consideremos que, como crentes, lidamos com conceitos perfeitos para regrar imperfeitos, e lembremos que diante de tais princípios não há um justo sequer, nem ao menos um. Olhar para o cisco no olho de meu irmão impõe, primeiramente, reparar na trave que está diante dos meus próprios olhos.
Possivelmente consigamos enxergar nisto a justiça misericordiosa exigida de nós: aquela que não busca necessariamente punições ao faltoso, mas seu arrependimento. Portanto, cuidemos de nosso coração para fugirmos dos extremos perigosos: a justiça legalista, destituída de misericórdia, bem como, da complacência e permissividade que faz prosperar o pecado. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus