“Naquela ocasião, tinham eles um preso muito conhecido, chamado Barrabás. Estando, pois, o povo reunido, perguntou-lhes Pilatos: A quem quereis que eu vos solte, a Barrabás ou a Jesus, chamado Cristo?” (Mt 27.16, 17).
Já houve tempo em que geralmente se tinha como altamente condenável a associação com ladrões, verdadeira vergonha. Mesmo a sabedoria popular afirma: “Diga-me com quem tu andas e direi quem tu és”. Aparentemente, não apenas as Escrituras estão caindo no esquecimento em nossa sociedade, mas também parâmetros comuns de comportamento, de ética e de moral. É nítido nas Escrituras que Pilatos não encontrou em Jesus nenhum motivo de morte. Por causa disso, procurava um meio de soltá-lo. No entanto, sabia que a liderança religiosa dos judeus havia inflamado o povo contra Cristo.
Portanto, tinha a plena consciência que havia uma enorme crise política em suas mãos. Se simplesmente soltasse Jesus possivelmente teria uma revolta popular, difícil de explicar a Roma. Por que escolheu defender um “mísero judeu” ao invés de deixar que os próprios judeus aplicassem, neste caso, as suas próprias leis? Dessa forma, sua estratégia para soltar Cristo consistia em duas coisas. Primeiramente, sentenciaria o prisioneiro a severa penalidade física. Jesus apanhou muito, acima da média, como forma de tentar fazer com que os judeus se contentassem em vê-lo apenas semimorto. A segunda parte de seu plano implicava oferecer sua soltura, de acordo com uma tradição assumida pelos romanos que visava agradar os judeus, soltando um preso condenado por ocasião da Páscoa.
Dessa forma, procurando garantir a soltura de Cristo, colocou como opção a ele o odioso Barrabás, alguém que realmente não atraía o favor do povo. No entanto, conhecemos o desfecho da história: foi exatamente Barrabás o escolhido. Por que isso aconteceu? O que levou o povo a escolher não apenas um bandido, mas alguém odioso, com comportamento diametralmente oposto àquilo que os próprios judeus defendiam como padrão de ética e moral? Podemos listar alguns motivos principais:
1) Ideologia. Jesus nasceu em época de latente expectativa messiânica. Perto de assumir seu ministério, João Batista, seu primo de segundo grau e arauto, já anunciava uma época de juízo iminente, pois o Messias estava chegando. No entanto, havia um pensamento, uma ideologia política, radicalmente contrária ao reino que o Cristo traria. O judeu, oprimido pelos romanos, queria a libertação do Estado Judeu. A Judeia era uma nação vassala de Roma, sob estrito controle do Império. Eis um caso quando as necessidades humanas formatam o Cristo que se busca, se prega e se crê. A escolha de Barrabás, por mais estranho que pareça, refletia a ideologia que pulsava no povo. Eles queriam a guerra contra os romanos. Certamente, por fim, ficou claro que o pacífico Jesus não se enquadrava nessa perspectiva. Mesmo sendo um ladrão, aos olhos deles, Barrabás era quem mais se harmonizava com o perfil de “libertador” que buscavam. Faz parte da legitimação necessária o desenvolvimento de alguma estrutura ideológica que torne possível a escolha de um ladrão. Isso explica por que um povo pode escolhê-lo.
2) A banalização do mal. Assusta perceber um processo acentuado de “banalização do mal”. Hanna Arendt criou esse conceito para se referir à chamada “solução final” criada pelos nazistas, que implicava a necessidade de aniquilação dos judeus nos campos de concentração. Como seres humanos foram capazes de tal monstruosidade? Certamente esvaziando o terror das coisas por meio de adaptações e novas interpretações. No entanto, nada se compara ao que foi feito com o próprio Cristo, inocente, santo e eterno Filho de Deus, autor da vida. Assassiná-lo foi o maior e incomparável ato de maldade jamais feito na história. Devemos compreender que, além das banalizações de mal episódicas, como aconteceu na Segunda Grande Guerra e o Terceiro Reich, há também tendências contínuas do apagamento de qualquer fronteira entre o certo e o errado, entre o bem e o mal. Embora seja uma banalização “diluída” em proporções mundiais e em função do tempo, leva a prática de males que vão se acumulando, gerando sofrimento e, não raro, morte. Os legalistas judeus não deram a menor importância à crueldade que estavam fazendo. A banalização geral do mal pode ser percebida, por exemplo, na amoralidade que tem se estabelecido na sociedade como forma de “liberdade”. “Imoralidade”, por contrariar a “moralidade”, ainda a afirma. Mas a “amoralidade” busca a extinção de qualquer norma ou padrão de comportamento, tornando tudo tão fluído que se torna impossível julgar o certo e o errado. Dessa forma, mesmo um bandido condenado recebe não apenas a atenção, mas a confiança de muitos. É verdade que a desconfiança generalizada em “libertadores”, em “messias políticos”, acaba por nivelar bons e maus perante os olhos do povo. No entanto, o claro exemplo da escolha de Barrabás mostrou o sacrifício da virtude, do certo, de tudo o que se defende como aprovado, a verdade encarnada que é o próprio Cristo. Em certas ocasiões, mesmo os maiores males e os piores ímpios são justificados e “canonizados”, respectivamente, por questão de interesse, ideologia, falta de apego real ao bem. É parte integrante e central de movimentos anticristãos espalhados pelo mundo a erradicação da ética e da moral cristãs, pois são reconhecidas como amarras que impedem a liberdade do ser. Quando um povo não reconhece mais Deus, a família e a igreja, como verdades inquestionáveis e instituições não só importantes, mas insubstituíveis e vitais, o relativismo ético, a amoralidade, esta entendida como a falta de todo e qualquer padrão moral, a banalização do mal, serão o resultado. Isso explica por que um povo pode escolher um ladrão.
3) Hipocrisia. Judá, que é a Judeia do Novo Testamento, já vivia completa apostasia. Nosso Senhor, certa vez, chorou ao avistar Jerusalém. Ele conseguia ver três momentos aplicados àquela cidade. Percebia claramente como viviam no presente, uma religião desgastada e remodelada pelos interesses de uma liderança que transformou a religião em seu meio de vida e de riqueza. Seus líderes viviam boa vida e essa era a prioridade “ministerial” de cada um deles. A Lei escrita era manipulada ao bel prazer deles por meio de uma tradição oral amorfa, líquida, que tomava a forma da interpretação dos maiorais que buscavam, acima de tudo, o benefício pessoal. Dessa forma, o judaísmo do Novo Testamento realmente defendia os princípios bíblicos de ética e moral, até mesmo, de forma enfática, mas apenas na aparência. Por isso Cristo os chama de “sepulcros caiados”, isto é, brancos por fora e cheios de podridão, e os acusa de limpar o exterior do prato e do copo e deixar o interior sujo (Mt 23.25-27). Também chama o povo de “geração má e adúltera” à procura de sinais (Mt 16.4). O hipócrita utiliza todos os conceitos em função de seus próprios interesses. Portanto, não defende os princípios, as normas aprovadas, as virtudes, mas apenas seu benefício pessoal. Trata-se de abordagem utilitarista de conceitos aprovados, modelando-os segundo o lucro que se busca. Certamente, isso pode levar um povo a escolher um ladrão.
4) Frustração. Todo povo tem seus ideais, ainda que seja apenas a sobrevivência. No entanto, há situações específicas nas quais são criadas expectativas altíssimas, como se grandes coisas, mudanças importantes, pudessem ocorrer em pouco tempo. O povo, refletindo a perspectiva de cada indivíduo que o compõe, é imediatista. Não está disposto a esperar. Dessa forma, com o tempo, suas expectativas vão se transformando, assumindo, não raro, o formato de questionamentos e acusações. Barrabás foi escolhido porque Jesus não atendeu às expectativas dos judeus de sua época. Eles queriam um Messias político, como vimos, que os libertasse dos romanos. Ora, Jesus afirmou que seu reino não era deste mundo. Não veio como um herói militar, como um general, que os lideraria militarmente contra o Império que os subjugava. Uma semana antes de escolherem o bandido, o povo havia recebido a Jesus reconhecendo que ele era o Cristo. Estenderam mantos e folhas de palmeira pelo caminho e gritavam a plenos pulmões frases messiânicas: “Bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 21.7-11). No entanto, depois, ao vê-lo surrado e preso, o povo logo percebeu que não seria aquele que levaria a cabo o anseio popular. O Cristo prometido não era o Cristo pretendido! Frustração, não raro, se torna, acusação, inimizade e revolta. Um povo assim escolhe um ladrão.
5) Manipulação: é muito importante entender que massas são facilmente manipuladas. Basta saber o que elas querem. Sempre há interesses na sociedade, por pessoas ímpias, contrários ao reino de Deus. Portanto, há vozes que estarão constantemente instigando, desconfiando, apontando erros (se são reais ou não, não importa). O objetivo é instigar a desconfiança, levar o povo à frustração de suas intenções, com o claro objetivo de atacar todo aquele que não se ligar aos interesses que pretendem. Cristo passou a ser visto por eles como a incorporação de todos os seus infortúnios. Vão usar de todos os meios, tornando-o culpado de tudo o que sofrem. A frustração sempre anda à procura de alguém para acusar. Sobre ele serão lançados todos os mau-sucessos de todas as demandas, não apenas aquela vista como a maior e mais importante, mas a culpa sobre todo insucesso sofrido, ou seja, a soma de todas as frustrações. Sempre será necessário encontrar um culpado. Assim, por não responder exatamente àquilo que queriam, Jesus se tornou culpado, na mente deles, por continuarem sob o jugo romano e tudo o que isso implicava. Algo semelhante ocorreu com Moisés, quando os filhos de Corá se levantaram com alguns principais do povo contra ele (Nm 16). Sempre haverá acusadores oportunistas que apontarão o dedo contra quem serve ao Senhor. Isso ocorreu com o próprio Cristo. Jesus não foi levado à morte devido à acusação de ser um herege, como a liderança judaica constantemente o via, mas por inveja. Os líderes religiosos se beneficiavam materialmente do povo e perceberam que estavam perdendo sua ascendência, prestígio e dominação. Podiam até suportar as supostas blasfêmias, mas nunca perder o status, o poder e o dinheiro. Aproveitaram a ocasião para incitar o povo contra Cristo. Um povo que escolhe o ladrão certamente está sendo manipulado pelo interesse de alguns.
6) Falta de conhecimento real de Cristo e da Escritura. Essa afirmação é auto elucidativa. Jamais, em nenhuma hipótese, um verdadeiro crente estará associado a um ladrão condenado. Certamente, os que dizem ser crentes e se associam com ladrões tentarão por todos os meios ressignificações, reinterpretações, releituras, para encontrar um caminho de legitimação, torcendo a revelação do Cristo e de sua Palavra. O conhecimento de Deus e das Escrituras não é informacional, não apenas intelectual, mas de alma. É a experiência verdadeira com o Senhor. Ninguém conseguirá corromper a verdade e realmente comparecer diante do Deus verdadeiro. Os que adulteram as Escrituras mostram que conhecem o escrito, mas não o seu conteúdo. Falam sobre alguém que realmente nunca encontraram. Os judeus foram capazes de escolher Barrabás porque não conheciam verdadeiramente a Cristo. É importante considerar que não existe bom ladrão, apenas ímpios e salvos. O caso do ladrão da cruz, que inicialmente também acusava a Cristo, mas depois foi alcançado pela graça, a conversão o fez deixar de ser ladrão. Se tivesse a oportunidade de descer da cruz não voltaria à sua vida de crimes. Portanto, um povo que escolhe o ladrão é porque não conhece genuinamente o Messias, mesmo sua Palavra.
7) Interesse. Já indicamos como o interesse acaba por modelar os conceitos de muitos. No entanto, entendamos que o interesse coletivo oportuniza pessoas mal-intencionadas a alcançar seus próprios objetivos por meio da manipulação das massas, como já indicamos. Não há bem ou mal, certo ou errado, apenas o interesse. Todas as coisas são condicionadas dentro de um propósito pessoal para alcançar o melhor benefício individual, ainda que ligado à coletividade como seu meio. Pode ser que um povo se deixe manipular para não ser responsável pelas consequências. No entanto, a culpa consequente da responsabilidade que se atribui a alguém não livra o próprio povo do sofrimento que certamente virá. A morte de Cristo foi a consumação da apostasia de Jerusalém e da Judeia, o que selou na história o trágico destino que os aguardava nas mãos dos romanos: o povo seria desfeito e diluído nas nações.
Tenhamos cuidado com nossas decisões e posicionamentos. Jamais se associe a alguém que frontalmente fere as Escrituras, que prega conceitos diametralmente opostos à Palavra de Deus, verdadeira amoralidade. Aqueles que o fazem hoje estão tipificados na multidão que optou pelo ladrão pelos motivos supracitados. Que Deus nos livre das más escolhas, dos enganos, bem como, de suas consequências. Tenha um excelente dia na presença do Senhor