“As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade” (Lm 3:22,23)
Nós vivemos muito mais por e para nós mesmos do que por e para Deus. Isso fica muito nítido quando as coisas saem completamente do nosso suposto controle, quando exatamente aquilo que não queremos e que imploramos para que não aconteça, acontece. Percebemos que não se trata de nossa vontade, que nada podemos determinar, que a única opção é viver o que está diante de nós. Essa inevitabilidade muitas vezes nos parece cruel, como imposições de um deus despótico e carrasco. Procuramos explicação para tanto sofrimento e achamos que não existe.
Na verdade, não queremos enxergar a explicação mais básica e elementar: o pecado entrou no mundo. Isso realmente explica tudo. Somos pecadores e vivemos em um mundo amaldiçoado por Deus, onde absolutamente todas as coisas estão impregnadas com o pecado. A morte, a dor e o sofrimento, portanto, caracterizam absolutamente todas as coisas. Nós é que procuramos viver como se essa não fosse a realidade. Eis o motivo pelo qual nos chocamos quando nos deparamos com alguns fatos que evidenciam dor e sofrimento, que podem ser conosco ou com pessoas próximas.
Deus não criou o pecado. Ele veio de fora do mundo, trazendo junto de si a morte. A existência dada a Adão e Eva no início era apenas vida, o que exclui a ideia de morte. Adão não podia prever o futuro, nem havia esse anseio, pois sabia que tudo o que estava adiante na linha do tempo era apenas a mais pura felicidade. O desejo humano de antecipar as coisas que se darão manifesta a fragilidade, o medo daquilo que lhe aguarda, o desejo de intervir nos acontecimentos do porvir, ou, em último caso, se preparar para eles.
Para o cristão genuíno, o verdadeiro convertido, há um caminho diferente: confiar, descansar nas misericórdias do Senhor. Confiar difere enormemente da intenção de determinar seu próprio futuro. Quando dizemos que confiamos em Deus significa confiar em sua vontade, isto é, nas suas decisões. Não se trata de algo pensado na história, decisões de momento, mas de um propósito eterno estabelecido antes da fundação do mundo. São decretos irrevogáveis, verdades absolutas, a própria realidade predeterminada das coisas. Não há como se levantar contra eles, apenas aceitá-los e vive-los.
Nos decretos do Senhor há uma vontade permissiva, que explica como o pecado entrou no mundo. Como resultado da soberania de Deus e da responsabilidade humana, o Deus trino decidiu deixar que Adão caísse e o mundo de Deus se tornasse um mundo de pecadores, governado por seres malignos, físicos e espirituais. Tal governo ocorre, porém, dentro de limites estritos, não podendo homens e demônios fazerem absolutamente nada que o Senhor não permita. Não há como ir de encontro à vontade de Deus.
No entanto, o Senhor não abandonou os seus à sua própria sorte, largados à deriva em um mar em fúria. Deu a eles uma porção diária, inesgotável, de sua misericórdia. As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos. Jeremias disse isso quanto à realidade do exílio. A única coisa que lhes dava esperança diante de tudo o que significava o desterro era as misericórdias do Senhor. Devemos não apenas crer, mas experimentar e viver essa realidade. Significa descansar verdadeiramente no propósito do Senhor. Nós não o conhecemos, mas cremos na sabedoria, na perfeição, no amor, nas promessas do único Deus verdadeiro. Quando olhamos para cruz entendemos não apenas a gravidade do pecado, mas também até onde Deus se dispôs a ir para cancelar os nossos pecados.
Devemos viver o aspecto prático das misericórdias do Senhor que nos habilita a antecipar a vida futura o máximo que conseguirmos para o agora, olhar muito mais para o céu do que para a terra. Fixar nossos olhos no plano horizontal é ver apenas dor, morte e sofrimento, vertigem e instabilidade. Porém, orientar nossa visão verticalmente é ter o brilho da glória nos olhos, perceber felicidade eterna, segurança e paz para viver. Não se trata de “Seicho No Ie” evangélica, uma espécie de mentalizar pensamentos positivos, nem mesmo, a ignorância dos fatos, a tentativa de viver como se a realidade fosse outra, mas o real enfrentamento de todas as situações, por piores que sejam, na perspectiva da soberania de Deus e de suas misericórdias que se renovam a cada manhã.
Devemos olhar para a obra consumada de Cristo, ansiando a consumação de seu reino. Vivamos as misericórdias do Senhor que acabaram de se renovar em nossa vida nesta manhã. Creia e descanse. Tenha um abençoado dia na companhia de Jesus