“Acautelai-vos dos cães; acautelai-vos dos maus obreiros; acautelai-vos da falsa circuncisão” (Fp 3.2).
Há no pecado uma força de não-conformação com o que é santo e justo. Certamente! Todo pecado é a usurpação do lugar de ser modelo e padrão do bem e do mal. Ser “lei” é atributo exclusivamente divino. A Lei que conhecemos nas Escrituras é um reflexo do próprio ser de Deus. Quando o homem assume o lugar de um “deus” para si mesmo, consequentemente torna-se sua própria “lei”. O pecador não tem critérios muito bem definidos de bem e mal. Estes conceitos são oscilantes e líquidos, adaptáveis segundo o interesse do próprio indivíduo. Contudo, algo que geralmente nos passa despercebido é que o pecado não é apenas centrípeto, é também centrífugo.
Colocando isso de outra forma, o pecador não é um sujeito que está interessado apenas em regrar com o seu pecado e com os seus interesses sua vida, mas também está inclinado a fazer isso com aqueles que estão ao seu redor. O pecado é rebelião! Dificilmente poderemos chamar assim a oposição de um só. Trata-se de uma revolução humana contra o Senhor. O pecador sempre procurará convencer os demais que aquilo que pensa ou faz é o melhor, isto é, o mais adequado, então o certo a se fazer.
Desde o início, o pecado inclui o conluio. Repare que logo que Eva comeu o fruto proibido, procurou seu marido para o convencer de também fazer o mesmo. O pecado sempre busca um tipo de solidariedade no mal. É necessário que outros assumam aquela mesma prática, pensamento ou critério como forma de legitimação na existência. Talvez não haja exemplo tão contundente disso em nossos dias como a homossexualidade. Há uma imposição não apenas para que todos aceitem, mas para que todos reconheçam nisso algo aprovado. Teorias das mais variadas, e até contraditórias entre si, surgem, tal qual metralhadora giratória, na tentativa desesperada de destruir qualquer oposição. Não é algo apenas relativo ao pecador. É necessário que seja aceito por outros.
Essa disposição de chamar o certo de errado e o errado de certo muitas vezes aproxima pecadores não-convertidos da igreja de Cristo. Geralmente, isso ocorre como resultado de uma falsa identificação inicial, geralmente causada por uma má compreensão do que é o verdadeiro amor. Para o mundo, não há lógica, critério ou limite para aquilo que é feito por amor. Ao ouvirem a pregação da verdade bíblica, algo nela lhes chama a atenção, algo que lhes interessa. Por isso, passam a frequentar uma igreja. No entanto, logo percebem que não era exatamente aquilo que pensavam. Muitos vão embora, mas há aqueles que ficam acreditando poder modelar o seu próprio cristianismo, estabelecer-se como padrão da verdade que procede de Deus.
A solidão causada por suas próprias ideias o levará naturalmente a tentar convencer e influenciar os irmãos da lisura e legitimidade de seu entendimento. Essa é mais uma razão para que o verdadeiro cristão saiba delimitar muito bem seus relacionamentos a fim de que não seja desviado pelas heresias e pelos pecados daqueles que estão ao seu redor. É verdade que não somos chamados para viver em mosteiros, porém, é igualmente verdade que não somos chamados à comunhão com as trevas.
A coisa fica ainda pior quando percebemos que os ímpios não estão apenas no mundo, mas também dentro das igrejas. Nosso país já tem sido marcado pelos chamados “evangélicos”. Esse termo, que não se encontra nas Escrituras, denota na sociedade quase todo tipo de “cristianismo” que não seja católico. Conquanto seja verdade que a Igreja de Cristo seja uma, constituída das várias denominações cristãs, torna-se verdadeiro desafio, mais do que isso, genuína responsabilidade, reconhecer irmãos e igrejas que estão ligados à verdade de fato. E isso não é algo relativo apenas à nossa época. Desde os primórdios da igreja, isto é, já a partir de seu estabelecimento, o zelo pela doutrina correta era uma das maiores preocupações dos apóstolos.
A questão não era, apenas, plantar novas igrejas, mas fazer com que elas permanecessem cristãs. À medida que o evangelho ia se espalhando, “novos entendimentos”, interpretações livres e descomprometidas com a própria Escritura e com Cristo, surgiam e se disseminavam por, praticamente, todas as igrejas. Pessoas bem e mal-intencionadas propagavam ideias contrárias àquilo que os apóstolos ensinavam, fazendo com que o trabalho deles se tornasse muito mais árduo. Em época quando não havia meios de comunicação, qualquer correção teria que ser in loco, exigindo deslocamentos a grandes distâncias e o despendimento de tempo precioso que poderia ser usado para a implantação de novas igrejas.
Paulo conhecia de perto o dano que falsos mestres e falsos ensinos causavam a uma igreja. É por isso que adverte aos crentes quanto a este risco que paira constantemente sobre o povo de Deus. “Acautelai-vos” é uma severa exortação ao cuidado, termo que denota e pressupõe em si mesmo grande perigo. Note-se que tal exortação acontece de forma tríplice e no modo imperativo. É como se dissesse: tenham constantemente muito cuidado! A forma com que se refere àqueles que tentavam impregnar a igreja com seus ensinos falaciosos também deve ser considerada. “Cães”, no entendimento do apóstolo, não eram os melhores amigos dos homens. Ao contrário da prática gentílica que tinha nos canídeos animais domésticos, para o judeu era animal imundo.
O israelita não tinha cães de estimação e não os usavam no pastoreio, como se tornou comum em várias culturas. Portanto, ao chamar os falsos mestres de “cães”, denota a reprovação que paira sobre eles e o necessário afastamento que a igreja deve manter deles. “Maus obreiros” indica aqueles que trabalham para o mal, não aqueles que não fazem o seu serviço direito. A “falsa circuncisão” é a única designação que nos dá uma pista sobre quem Paulo está falando. Relaciona os falsos mestres aos chamados “judaizantes”, que se oportunizavam do avanço do evangelho para fazer dos recém-convertidos pessoas ligadas ao judaísmo. Diziam que para que um gentio se tornasse cristão precisava, primeiro, ser judeu, adotar as leis e a circuncisão.
Em nossos dias é inegável que também temos os nossos falsos mestres e falsos ensinos. Um meio que eles têm utilizado frequentemente é a exposição da mídia, ou seja, especialmente por meio de televisões e internet. Crentes acomodados, muitas vezes, preferem ficar em casa assistindo cultos onde muita coisa é dita, mas, em boa parte de tais ocasiões, não há a exposição verdadeira das Escrituras. Por isso, a advertência de Paulo também está sobre nós. De forma especial, nessa época em que vivemos, devido à pandemia circulam nas mídias todo tipo de ensinamentos, desde a fiel exposição das Escrituras até as heresias mais execráveis. Assim, temos a responsabilidade de voltar sempre à Palavra para perceber se aquilo que cremos continua a ser o que está registrado nas Santas Letras.
Sejamos responsáveis, tanto individual quanto coletivamente. Em outras palavras, nosso zelo deve ser não apenas quanto ao ensinamento que aceitamos e interiorizamos no coração, mas, também, quanto àquele que a igreja à qual pertencemos tem assimilado. Façamos a nossa parte como filhos de Deus em um mundo que se mostra cada vez mais pagão e afastado de Cristo. Que o Senhor nos ajude a ser fiéis não apenas naquilo que fazemos, mas no objeto de nossa fé. Assimilemos apenas as Escrituras e bebamos da única fonte de águas cristalinas, não turvada por raciocínios humanos. Recuperemos o prazer pela Palavra de Deus, radicando-nos nela diuturnamente. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus