“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28).
Fé é confiança. Geralmente pensamos a fé meramente como se fosse a crença em uma existência. Dessa forma, se acredito que Deus existe, então exerço fé. É verdade que esse é um de seus aspectos. No entanto, pode ser um mero exercício intelectual de acreditar que há um Deus. Os filósofos gregos tinham cosmovisão teísta. Acreditavam na existência de vários deuses. Sócrates chega mesmo a declarar que havia um "deus" sobre todos. Na verdade, os panteões: grego, nórdico, eslavo, mesmo aqueles que eram afirmados nas várias culturas ameríndias, sempre destacavam um deus mais poderoso que exercia algum domínio, geralmente associado ao sol, ou ao trovão, ou ao relâmpago. O homem sempre creu em deuses por não conseguir explicar a existência. Realmente não conseguiu e jamais conseguirá, sempre que procurá-la à parte do Deus das Escrituras. Assim, Deus ou deuses se tornaram a causa absoluta de todas as coisas.
Em nossos dias deifica-se a matéria, o conhecimento ou, de forma mais escancarada, o próprio homem. A ideia de deuses, ou, no caso da chamada civilização ocidental, de um Deus, é recorrente. No entanto, há algo que distingue a fé verdadeira, um elemento constituinte e destacado: a confiança. Aquele que crê verdadeiramente confia. Certamente, a real confiança vem do conhecimento genuíno de Deus. Significa, portanto, relacionamento com Jesus. Apenas o Filho revela o Pai. Assim, tão-somente conhecendo o Cristo é que conheceremos verdadeiramente o Deus trino. Só se conhece um ser pessoal por relacionamento. Dessa maneira, ao nos aproximarmos de Deus pela fé, perceberemos quem ele é: majestoso, glorioso, incomparável, origem de todas as coisas, quem empresta existência à sua Criação, quem se humilhou para não apenas nascer como homem, mas morrer na vexatória e terrível morte de cruz.
A grandeza do único Senhor faz com que percebamos com clareza aquilo que somos: pecadores, por natureza condenados, frágeis, falhos, mortais, soberbos e orgulhosos. O abismo entre o Ser magnífico e único do Senhor e a nossa carcaça animada é de tal ordem que nos entregamos completamente a ele, agradecidos por seu grande amor. Quando conhecemos verdadeiramente a Deus renunciamos por completo a nossa vontade, nosso suposto conhecimento das coisas e da existência, para descansar unicamente nele. Percebemos sua sabedoria infinita, seu poder irresistível. Por isso, não há como não confiar nele, se verdadeiramente o conhecemos. Notemos, dessa forma, que fé não é apenas crer na existência de Deus, mas realmente nos relacionar com ele, o que leva infalivelmente à confiança. Essa é a grande comprovação de uma fé legítima, não apenas intelectual, em Deus.
Todavia, o que é confiar no Senhor? Geralmente confundimos enormemente isso. Pensamos que Deus está para nos amparar, para nos abençoar, para nos salvar. Tudo isso é verdade, desde que entendamos corretamente o que significam esses conceitos. O amparo, a bênção e a salvação que o Senhor realiza, derrama e opera em nós, não consideram principalmente nossa vontade. No entanto, pensamos que sim! Acreditamos que o Senhor vai agir sempre priorizando aquilo que quero e busco, ou que supostamente necessito. Se não é assim, por que então orar? Precisamos entender que oração alguma move Deus a fazer alguma coisa. A oração não é “combustível” para Deus, muito menos, serve de meio para o ativar. Ao invés de ser um instrumento para mudar a vontade de Deus ou movê-la, a oração é o meio de modelar nossa vontade à dele, não apenas a aceitando, mas querendo-a. A bênção da oração está em nos colocar maleáveis nas mãos de Deus, como barro molhado, para que ele nos modele da forma que desejar. Isso é confiança!
Se acreditamos que o Senhor fará o que pedimos, supostamente assumimos o controle dos atos de Deus e nossa confiança está em nós, em nossas vontades, avaliações e compreensão da existência. É impressionante como isso está em nós, comprovando nossa condição de caídos! Esperamos comandar Deus a fazer o que queremos! Nossa arrogância se torna manifesta e patente por determinarmos o que é “bem” e “mal” com base não em conceitos verdadeiros, mas baseados nos benefícios que receberemos, pela realização de nossa vontade. Nosso linguajar nos denuncia! Se alguém está para fazer algo importante, verdadeiramente relevante, quer seja uma necessidade real ou algo que se quer muito, uma excelente oportunidade, a pergunta que geralmente se faz é: “Foi tudo bem?” “Correu tudo bem?” A resposta pode ser: “não deu certo”. Reparemos que chamamos de “bem” a realização do que queremos, e “mal” ou “errado” aquilo que não corresponde àquilo que queríamos.
Precisamos entender que mesmo quando as coisas foram “mal” aos nossos olhos, sempre foram “bem” aos olhos de Deus. Foi o seu propósito que se realizou. Aquele que confia no Senhor, confia em seu propósito. Somos chamados segundo o propósito de Deus. Compreende e vive o que diz o apóstolo Paulo no texto epigrafado. Tudo é orientado pelo Senhor para o bem daqueles que verdadeiramente o obedecem, se submetem docilmente à vontade dele, que o servem, ou seja, o amam. Não podemos nos acostumar com a visão de Deus, com aquilo que ele nos fez em Cristo e faz constantemente por meio das obras de sua Providência. Talvez seja mais próprio dizer: acostumarmo-nos com nossa condição de salvos e nossa posição de filhos de Deus.
Renove sua confiança inabalável no Senhor! Descanse nele! Aquilo que pode ter sido um problema, perda ou dor em sua vida certamente tem o objetivo benéfico de te fazer o conhecer melhor. Uma dificuldade pode ter sido a forma de te livrar de um sofrimento maior, como o incômodo de um carro quebrado ou um pneu furado que você nunca soube que te livrou de um acidente ou um assalto. De igual forma, a doação de algo que você insistiu demasiadamente com o Senhor, ocasiões quando confundimos perseverança com teimosia, pode ser para você grande dano. Não importa se você recebeu o “sim” ou o “não” de Deus: apenas confie! Deus vai adiante de nós e conosco. Entregue-se totalmente à fé. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus