A beleza de Deus
“Adorai o Senhor na beleza da sua santidade; tremei diante dele, todas as terras” (Sl 96.9)
A estética é algo que marca a Criação de Deus. Especialmente os gregos deram muito valor a ela, nas formas de suas estátuas, na arquitetura de suas construções e templos. O belo era exaltado como uma das principais virtudes. Além da estética das formas, há a estética das palavras ditas, a retórica, e escritas. Conquanto os gregos também tenham explorado esse ramo da estética, a retórica era especialmente estimada, foram os hebreus que se destacaram grandemente por terem basicamente se radicado nele.
Havia a proibição de fazer imagens das coisas relativas ao Deus de Israel, pois a religião ordenada pelo Senhor não seria idolátrica. Além disso, essa interdição visava a preservação da concepção genuína do Único e Verdadeiro Deus, porque qualquer atribuição de formas a ele seria torná-lo criatura. Tudo o que ser humano conhece pertence ao mundo criado. Portanto, qualquer forma conhecida pelo homem que seja atribuída ao Senhor o transformaria em criatura.
Por causa disso, com raras exceções, como os querubins que compunham como uma única peça a tampa da arca da aliança chamada de propiciatório, não se conhece nenhuma escultura ordenada por Deus que deveria estar em posse do povo. Houve também, é verdade, um episódio um tanto específico, quando foi ordenada a feitura de uma serpente de bronze durante o êxodo, por causa de cobras peçonhentas que estavam picando e matando o povo.
Foi ordenada a sua confecção e sua colocação em lugar alto e de destaque no arraial a fim de que todo o que fosse picado e olhasse para a serpente de bronze obtivesse a cura sobrenatural. Jesus se identifica à serpente de bronze: “E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (Jo 3.14, 15). Ele seria levantado à vista de todos para a salvação daquele que olhasse para ele com fé. São exceções em toda a história de Israel e Judá.
Devido à seriedade do mandamento, o israelita nunca se desenvolveu na arte da escultura e da pintura, radicando-se na estética da palavra. Houve vários tipos de texto e de gêneros de propriedade dos hebreus. Além das narrativas descritivas, que simplesmente contam acontecimentos geralmente sem emitir juízo de valor, se aquilo que foi feito é certo ou errado, e das narrativas normativas, ditos na forma de ensinamentos, há as profecias e os escritos de sabedoria, estes geralmente utilizando um tipo de texto conhecido como “poesia hebraica”. Assim, o Livro dos Salmos, também Provérbios, Eclesiastes e Cantares, estão repletos de estruturas, conhecidas como “paralelismos”, típicas da poesia hebraica.
Não é por acaso que os Salmos estão entre os textos da Escritura mais queridos e apreciados pelo cristão. Isso se dá não apenas pelo seu conteúdo, pois muitos tratam do auxílio do Senhor, o consolo e o fortalecimento, mas também por sua forma. Os textos são belos por seu conteúdo e por sua forma, sua estética. É poesia! Este tipo de escrita evoca emoção e sentimentos, alinhando-se com os temas tratados e o coração do aflito, geralmente envolto em sofrimento, na expectativa do alívio.
No entanto, entendamos que além da estética da matéria e da palavra, há outra que apenas o verdadeiro convertido pode admirar: a estética do espírito, isto é, a estética que significa a habilidade da percepção do belo pelos olhos da alma. Todas as coisas contêm um “espírito”, algo que comunica ao coração: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1). O nascido de Deus, exatamente por estar vivo para o Criador, é habilitado a enxergar algo espiritual no físico e material, a presença daquele que fez todas as coisas.
Tudo existe em Deus e, por isso, o cristão autêntico pode experimentar o Senhor naquilo que ele criou. Uma pálida comparação talvez seja alguém que contempla uma pintura, perceptível ao “espírito” da obra, algo que vai além do quadro, um significado, uma experiência com o próprio artista que o pintou. O crente verdadeiro tem a habilidade de ter experiências espirituais com o que é físico e material, ao ser edificado com a percepção da glória do Senhor em tudo o que foi criado.
Porém, há ainda a estética espiritual. Certamente, hoje o homem quase nada pode admirar do mundo espiritual. Sabemos que há seres espirituais gloriosos: Arcanjo, anjos, serafins, querubins, e talvez outros. Há grande beleza neles e no lugar que habitam, realidades que estão completamente vedadas a nós, mas que possivelmente poderemos admirar, ao menos em parte, quando voltarmos à ordem perfeita da Criação. Querubins, que são seres espirituais relativos à Criação, estão hoje habitando o Éden.
Embora não tenhamos acesso à estética do mundo espiritual, temos acesso à mais gloriosa e abençoadora de todas as estéticas, a incomparável e maior de todas as estéticas espirituais: a beleza do ser de Deus! Este foi o objetivo do Senhor em ter criado o homem: poder dar a ele a experiência de contemplar a estética divina, a beleza do ser de Deus! Como fonte de toda virtude e glória, o sumo-bem, o Ser tripessoal resolveu na eternidade de sua única existência criar seres morais, capazes de compreensão, para poderem sorver e absorver a essência divina, como imagem e semelhança da própria divindade.
Essa absorção não é apropriação, mas experiência. Viver Deus na presença de Deus. O equivalente àquilo que diz o apóstolo neotestamentário quanto à consumação da obra de Jesus em seu retorno: “Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então, o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos” (1 Co 15.28). Voltaremos à unidade da vida com o Criador perdida na queda: Deus será tudo em todos.
Há beleza incomparável no Senhor, que só pode ser apropriada e experimentada por aqueles que se entregam completamente ao relacionamento com ele. É beleza santa, incontaminada, não deformada pela queda como é a beleza do mundo material que conhecemos, amaldiçoado pelo pecado. Trata-se de beleza espiritual ilimitada, muito além daquela que apreendemos na glória das coisas criadas, como já dissemos.
Apenas aqueles que chegam a tal grau de comunhão e conhecimento do Senhor entendem e vivem Deus como a maior de todas as bênçãos, a oportunidade em Cristo de nos quedarmos no Santo dos Santos para sorver a presença divina. Apenas esses passarão longas horas na presença do Senhor como o maior prazer de sua vida, não como imposição artificial de uma prática que não se deseja.
Ah! A beleza do ser de Deus! A maior de todas as visões, a mais sublime de todas as contemplações! Como trocar esses momentos por coisas desta terra? Entreguemo-nos completamente à fé, à vida com o Senhor, morando no esconderijo do Altíssimo, adorando o Senhor no Santo dos Santos. Tenha um contemplativo dia na beleza da santidade de Deus