“Às margens dos rios da Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião” (Sl 137.1).
As dimensões de nossas maiores frustrações são as mesmas de nossas maiores alegrias. A maior distância a que se pode chegar pelo caminho da dor nesta terra é a mesma que se consegue percorrer nas sendas da felicidade. É assim que se percebe o tamanho do sofrimento que os habitantes de Judá experimentavam no exílio. A privação de seu maior bem, a aliança com o Senhor, era e exata extensão de sua dor. A adequada vivência da comunhão com Cristo estrutura e modela a existência do homem. Pode-se dizer, é uma estrutura de alegria. Imagine sua vida com Deus como um organograma, no qual se organizam todas as coisas aprovadas.
Dessa forma, tudo o que dá satisfação e prazer ao ser humano são experiências interligadas, tendo a felicidade com Deus como hiper estrutura que as arranjam adequadamente. Não são ocasiões separadas de felicidade, pontuais, individuais, mas algo vivenciado na perspectiva da felicidade maior, que se encaixa como parte dela. Somos aqueles que compreendem que tudo é de Deus, tudo é para Deus, e tudo ocorre providenciado por Deus, pois tudo é para a sua glória (Rm 11.36).
Por isso, toda experiência recebida como boa para o homem não pode ser algo exclusivo da esfera humana, mas experimentado à luz de Deus, de sua glória e de sua Providência. Colocando isso de outra forma, como crentes, não nos alegraremos meramente pela dádiva recebida, mas por aquele que nos conferiu o benefício. Sempre nos alegraremos em Deus, não apenas em nós mesmos. O que dá conteúdo eterno, celestial, às experiências que temos nesta terra é exatamente a exultação diante do Senhor, fruto de nossa gratidão por reconhecer seu grande amor, expresso em sua bondade e misericórdia para conosco. Ele organiza todas as coisas em nossa existência de modo que o glorifique.
Toda alegria humana é pecaminosa, se experimentada à parte de Deus. Aquilo em que me alegro como algo separado de Deus, feito para mim, para meu prazer e satisfação, é pecaminoso. Colocando isso de outra forma, tudo o que não posso, por não ser devido, ou não quero, porque estou centrando em mim mesmo, oferecer à glória do Senhor é eminentemente maligno. Temos que ter muito cuidado para não tentar legitimar algo que queremos, ou uma prática que já se nos tornou vício, oferecendo-os à Deus. Isso seria blasfemo. Como dissemos, é apenas o Senhor que dá conteúdo à alma, preenchendo completamente o vazio do coração humano.
Nessa “substância espiritual”, o preenchimento da alma, a habitação do Santo Espírito, se fixam todas as experiências humanas, dando sentido à vida. A existência de um homem sem Cristo é um amontoado de coisas soltas, um montão de experiências que não se conectam, que não se organizam, não se explicam. Não há sentido geral para as coisas, resumindo-se tudo à mera e momentânea experiência.
O que narra o verso epigrafado é exatamente a perda da estrutura da vida, do conteúdo, do sentido. Já me peguei pensando exatamente isto: se tirar Deus de minha vida, o que sobra? Qual é o sentido para a vida? O que estou fazendo nesta terra? Tudo perde o seu significado. Se alguém tivesse a capacidade de privar o crente da vida com o Senhor, isso seria “a antessala do inferno”.
No Antigo Testamento, tal poderia ser feito parcialmente, devido à dependência que tinha o adorador do Templo de Jerusalém. No entanto, uma das maiores bênçãos que temos no Novo Testamento é a completa impossibilidade de alguém conseguir nos afastar de Cristo. A adoração não está mais restrita a lugares: “Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores” (Jo 4.23). O Livro de Apocalipse mostra a ordem para que o santuário, o altar e os que nele adoram, sejam medidos. A ideia de “medir” implica “preservação”. Não é mais possível que alguém nos impeça de adorar a Deus! Não é mais possível conduzir o povo para o exílio! É certo que a responsabilidade pelo cativeiro no Antigo Testamento era do próprio povo, que se afastou do Senhor.
O cerne da aliança era a habitação dos israelitas em um lugar escolhido. Se eles não queriam mais a comunhão com o verdadeiro e único Deus, então não fazia mais sentido preservá-los na Terra Prometida. Vejam, portanto, que o cativeiro físico é consequência do exílio espiritual que o povo já vivia ainda quando estava em Canaã. Quem busca o exílio é o próprio povo! Este perigo continua sobre nós: o grande risco de praticarmos a religião verdadeira, mas longe de Cristo. Todavia, para aqueles que são fiéis, ainda que seus corpos sejam levados para o cativeiro, sua alma sempre estará livre para adorar.
Vivemos época na qual claramente percebemos nuvens negras no horizonte. A tempestade já começa a lançar suas sombras sobre nós. O mundo já se tornou pós-cristão e se transforma cada vez mais em anticristão. Os momentos de culto público, com portas abertas, estão com seus dias contados. Imagine-se privado dos momentos de adoração! Esse é o lamento do povo, dos israelitas exilados de Sião, sentados nos barrancos dos grandes rios da Babilônia, alimentando suas águas com as copiosas lágrimas que desciam como enxurrada de suas faces.
Não se permita o exílio! Não menospreze a dor e a privação do cativeiro espiritual! Não viva afastado de Deus! Priorize o Reino de Deus e a sua justiça! Viva o preenchimento do Espírito Santo em seu coração, que organiza toda sua vida em função da glória de Deus. O Senhor nunca busca se afastar de nós! Somos nós que buscamos manter distância dele para alcançar coisas que queremos, praticar pecados que nos apegamos. O pior dos exílios é o da alma! Se estivermos firmes com o Senhor, ainda que sejamos levados cativos, ninguém poderá nos tirar a grande bênção da adoração e da comunhão com ele. Tenha um excelente dia na presença de Deus