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sexta-feira, 7 de novembro de 2025

ATIVISMO

 O Ativismo Religioso que Cansa a Alma

Há um tipo de cristianismo que produz movimento, mas não vida. Ele enche a agenda, mas esvazia o coração. É o ativismo religioso, essa forma de fé frenética que transforma o serviço cristão em uma maratona cansativa e sem direção.
Por fora, parece zelo. Por dentro, é prisão.
Falo sobre isso com propriedade, porque vivi dentro desse sistema por anos. Foram seis anos e meio servindo numa igreja do Evangelho Quadrangular, mas com práticas cada vez mais próximas do neopentecostalismo. O pastor seguia fielmente os moldes da Igreja Universal do Reino de Deus. Quando cheguei lá, fui “pinçado” de imediato. Viram em mim um “potencial”, e logo fui colocado como diácono. Eu abracei aquele trabalho com sinceridade, acreditando que estava servindo a Deus com todas as minhas forças.
O problema é que quanto mais eu me dedicava, mais eu era sugado por aquele ativismo sem fim. Havia cultos todos os dias, campanhas, reuniões, jejuns, eventos, vigílias e tarefas que nunca acabavam. Sempre havia algo a ser feito, e quem parasse era visto como frio na fé.
Eu mesmo chegava à igreja duas horas antes do culto começar para preparar tudo. Durante o culto, ficava preocupado com as tarefas que precisava executar: cuidar das crianças, organizar o ambiente, supervisionar as ofertas, contar o dinheiro, contabilizar as pessoas presentes. Quando o culto terminava, ainda havia o trabalho de encerrar tudo, e quando eu percebia, já era tarde. O tempo de adorar a Deus tinha se perdido em meio às obrigações. Eu estava sempre no templo, mas raramente diante do Senhor.
E isso não acontecia só comigo. A maioria das pessoas mais “atuantes” na igreja vivia o mesmo ciclo. Não sobrava tempo para oração, reflexão ou comunhão verdadeira com Deus. A vida espiritual se resumia a manter o funcionamento da igreja. Era como se o culto a Deus tivesse se transformado em um grande sistema administrativo, onde o zelo pela estrutura havia substituído o amor pela presença do Senhor.
Minha esposa via tudo isso e discordava profundamente. Ela percebia o que eu ainda não via: que eu estava mais envolvido com as atividades da igreja do que com o Deus da igreja. Um dia, o pastor me chamou para conversar e disse: “Alex, cuidado, hein? Um dia sua esposa pode acabar com o seu ministério.” Essa frase me marcou, porque ali percebi que algo estava profundamente errado. A sugestão era clara: o ministério estava acima da minha família, e a obediência ao pastor estava acima do cuidado espiritual do lar.
Aquele foi um dos momentos em que comecei a abrir os olhos. Entendi que o ativismo religioso, quando usado como instrumento de controle, é uma das armas mais sutis e destrutivas dentro da igreja. Mantém as pessoas ocupadas o tempo todo para que nunca parem para pensar, nunca questionem e nunca percebam que estão sendo manipuladas.
Pouco antes de eu sair de lá, o pastor começou a demonstrar uma preocupação grande com as redes sociais. Era o início da popularização dos canais reformados no YouTube, e ele percebia que muita gente estava ouvindo mensagens diferentes daquelas pregadas na igreja. Lembro que ele chegou a fazer uma lista de pregadores e pastores que “não deveriam ser assistidos”. Nessa lista estavam nomes de homens sérios, comprometidos com a pregação do Evangelho puro e simples, como os que hoje conhecemos como grandes referências reformadas no Brasil.
A justificativa dele era de que esses pregadores estavam “desviando o povo” e “pregando contra a obra do Espírito”. Mas, na verdade, ele tinha medo de que as pessoas descobrissem que estavam sendo enganadas. Estava começando a perder o controle sobre as mentes e os corações.
A partir dali, percebi que a manipulação era profunda. O discurso era de “vacinar o povo contra o erro”, mas, na prática, o que se fazia era impedir o contato com a verdade. Havia um medo do pensamento livre, um medo de que as pessoas passassem a examinar as Escrituras e questionar os costumes da igreja. Isso já faz onze anos, e olhando hoje percebo que aquele tempo foi o início de uma mudança. O movimento reformado cresceu muito nas redes, e isso tem incomodado porque a luz da verdade sempre incomoda as trevas do engano.
Mas o que mais me entristece é ver que muitos continuam presos ao mesmo ciclo. Trabalham sem descanso, servem sem entendimento e vivem sem comunhão verdadeira com Deus. São pessoas sinceras, cheias de boa vontade, mas que se tornaram escravas de um sistema religioso que mede espiritualidade pela quantidade de atividades. Deixei grandes amigos lá que ainda tem as escamas nos olhos e não foram despertados para a verdade que liberta, oro para que Deus tire as amarras que os prendem neste ativismo que escraviza e destrói a alma.
No fundo, esse tipo de ativismo é alimentado pelo orgulho humano. As pessoas querem sentir-se úteis, importantes, necessárias. Querem sentir que estão “fazendo algo grande para Deus”, quando, na verdade, estão tentando preencher um vazio que só a graça pode preencher. E os líderes que percebem isso acabam se aproveitando, transformando esse desejo em instrumento de controle.
O resultado é um povo exausto, ansioso e espiritualmente raso. Crentes que conhecem a rotina da igreja, mas não conhecem o Cristo das Escrituras. Gente que participa de tudo, mas não cresce em nada. Vivem para a igreja, mas não vivem para o Senhor da igreja.
Foi a graça de Deus que me libertou disso. No tempo certo, o Senhor me tirou de lá e me conduziu a uma igreja fiel à Sua Palavra, onde aprendi o que significa realmente descansar em Cristo. Hoje entendo que o verdadeiro serviço cristão nasce do descanso, não da agitação. Servimos porque fomos aceitos, não para sermos aceitos.
Aprendi também que o zelo sem discernimento não é virtude, é engano. E que Deus não precisa da nossa correria, mas da nossa obediência. Ele não está impressionado com a quantidade de eventos, mas com corações quebrantados.
O evangelho da graça não é um chamado ao ativismo, mas à comunhão. Não é um convite para fazer mais, mas para crer melhor. É no descanso de Cristo que encontramos força para servir, e é na quietude da alma que experimentamos o poder de Deus.
Por isso, meu apelo é simples: se o seu serviço a Deus tem te afastado de Deus, algo está errado. Se o ministério te faz negligenciar a família, o repouso e a comunhão, talvez seja hora de parar e ouvir a voz do Senhor novamente.
Que o Espírito Santo nos ensine a diferença entre servir por amor e servir por medo, entre viver pela graça e viver pelo cansaço, entre o evangelho que liberta e a religião que escraviza.
Que Deus nos Ajude!

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