Fracos, porém não fracassados
“De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2 Co 12.9, 10).
Vivemos época pós-moderna, quando todos os conceitos e valores tradicionais foram não apenas questionados, mas desacreditados. Todos os pilares da sociedade ocidental eminentemente cristãos, pois ela é produto do cristianismo, foram colocados em xeque, uma vez que o próprio Deus foi deslocado do centro da verdade. A volatilidade humana foi colocada como estrado para as verdades basilares, resultando vertigem e insegurança.
Deus é verdade absoluta e inquestionável. Quando ele é retirado do centro da cosmovisão humana, no momento em que o homem assume a condição de ser ele próprio alicerce de sua existência, não há mais qualquer certeza ou verdade inquestionável. Entendemos assim que, quando os proponentes e defensores do pós-modernismo afirmam não existir verdade absoluta, que em si é sua única verdade absoluta que professam, estão simplesmente sendo coerentes com o sistema de valores e conceitos que esposam.
Há trinta anos, mesmo o católico nominal tinha certa religiosidade, na verdade, uma espécie de superstição que lhe dava alguma segurança, pois era aberto ao sobrenatural e à aceitação de princípios que não podiam ser confirmados pela razão. Ainda que não refletissem as verdades reais que encontramos nas Escrituras, eram suficientes para lhe trazer alguma estrutura para viver. Peter Berger eternizou o conceito conhecido como “estrutura de plausibilidade”, isto é, uma base epistemológica, de conceitos e valores, necessária e suficiente para estribar a existência de dada sociedade.
O que presenciamos em nossos dias é a afirmação da possibilidade de viver formatado pela falta de estrutura, um ser sem esqueleto, ainda que um exoesqueleto, como se fôssemos uma massa que assume formas diversas nos mais diferentes ambientes e circunstâncias que enfrentamos. Foi Zygmunt Bauman que descreveu a pós-modernidade como “modernidade líquida”.
Dessa forma, os atuais detentores da única verdade, qual seja, que paradoxalmente afirmam não haver verdade absoluta, sentenciam o cristianismo a “medievalismo”, não reconhecendo nele qualquer verdade. A crença não possui nenhuma verdade ou realidade, antes, está centrada em mitos e lendas, dizem. Afirmam que a fé cristã é um sistema de crenças e valores ultrapassado e danoso, que precisa ser substituído pela liberdade da constante mudança, o Das ein heideggeriano, o poder de se tornar aquilo que se quiser, em constante mutação. É o homem que se recria constantemente. Se em Gênesis a Palavra de Deus, o Logos divino, trouxe do nada toda existência, concebendo a realidade criada, materializando a vontade do único Criador, hoje o homem impõe a sua vontade para criar sua própria existência, desfigurada e sem qualquer padrão.
Dizendo isso de outra forma, o ser humano se arroga em criar sua própria realidade e traçar seu próprio destino. Aprenderá da pior forma, quando não haverá mais oportunidade de mudança e arrependimento, que se tornaram nulos em seus próprios raciocínios (Rm 1.21), e se insurgiram contra a própria realidade que é Deus. A vertigem e a insegurança resultantes desse sistema de pensamento solapam a segurança dos padrões e dos modelos, de saber-se estar certo ou reconhecer o erro para poder voltar ao certo, levando o ser humano a assumir para si atitudes e comportamentos contrários à própria essência de seu ser. Questiona-se a verdade biológica, homem e mulher, em favor da ideia psicológica de se acreditar ser o que se quiser, fazendo com que um alfabeto inteiro seja insuficiente para designar uma infinidade de siglas para uma imaginação praticamente ilimitada, mostrando claramente a busca frenética e desesperada de uma identidade que jamais será encontrada longe de Deus.
O afastamento constante e progressivo dos conceitos bíblicos ressalta o distanciamento do ser divino, uma jornada insólita para longe de Deus, um autoexílio autoimposto para o deserto de uma existência que se insiste em viver sozinho, quando a identidade é quebrada ao confundir individualidade com necessária diferença peculiar. Um dos maiores enganos do pós-modernismo na prática é conduzir cada ser humano a procurar unicidade responsabilizando-o por ser inédito, sua humanidade vista como a soma de opções diversas que produzirá ser único, diferente de todos, um ser distinto, pessoa que não se pareça com mais ninguém. Estão alheios ao fato que Deus, em todo seu poder e majestade, mesmo com padrões, conceitos e verdades absolutas, já o fez. Cada ser humano é único.
Dizendo isso de outra forma, a afirmação de que não existe verdade absoluta, da quebra de todos os padrões e modelos, na prática esconde e resulta a imposição da responsabilidade de se fazer único, exclusivo, por suas próprias escolhas e opções. Por isso é que vemos, cada vez mais, especialmente jovens, disformes e impossíveis de serem categorizados, talvez, com grande dificuldade, apenas descritos. O resultado óbvio disso será a mais aguda insegurança, se não no dia a dia, no enfrentamento de problemas sérios, grandes perdas e sofrimento. Frequentemente desabam, pela insegurança da própria falta de conhecimento de Deus e de si mesmos. Não há pertencimento ou identidade. Não se ligam a nada e a ninguém. Afundam na depressão da mais profunda solidão existencial.
Já o crente é aquele que deveria viver no ancoradouro seguro da fé nas verdades absolutas das Escrituras. Ele é aquele que pode dizer, como Davi: “O SENHOR é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo? O SENHOR é a fortaleza da minha vida; a quem temerei?” (Sl 27.1). As Escrituras estão recheadas de textos que afirmam o que deve ser o resultado prático da fé no Deus soberano. No entanto, para muitos, passagens como essas são como hinos e cânticos que cantamos apenas para sentir alguma emoção.
O texto epigrafado foi escrito por alguém que experimentou os maiores desafios e dificuldades, que podia levantar a túnica e afirmar: “trago no corpo as marcas de Jesus” (Gl 6.17), referência às muitas cicatrizes de pedradas e de açoites. Alguém que dizia que nas cidades sempre o aguardam cadeias e prisões. Ele o fazia pela certeza de que seu ministério se dava na plena expressão da vontade de Deus (Ef 1.1). Paulo não enfrentava as dificuldades da vida e todas as oposições ao seu ministério simplesmente por força de vontade ou pela inútil resistência meramente humana. Sabia de sua fraqueza. Por isso, vivia pelo poder de Deus. Era importante o reconhecimento de sua fraqueza para que se estribasse unicamente no poder do Espírito.
Aprendamos que ser fraco não é ser fracassado! De fato, todos somos frágeis e nossas forças irrisórias para viver a vontade de Deus nesta terra. No entanto, em Deus faremos proezas! (Sl 60.12). Para longe de nós esse vitimismo e fracasso que tem tomado conta da geração atual, pessoas acovardadas ou de falsa coragem, consequência de uma vida sem conteúdo e sem significado, sem Deus. Creiamos no Deus soberano que dirige todas as coisas. Para longe de nós o discurso que não conseguimos, que não sabemos, que é muito difícil, que não dará certo. Rechacemos completamente a pregação pós-moderna, a insegurança e a vertigem da existência, ancorando-nos firmemente em Jesus, nossa rocha inabalável. Cremos em Deus e em sua verdade absoluta. Realmente somos fracos, mas jamais fracassados. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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