A religião dos homens
“Tendo Jesus entrado no Templo, expulsou todos os que ali vendiam e comprovam; também derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a transformais em covil de salteadores” (Mt 21.12, 13).
O pecado transformou o ser-humano em um ser grotesco, um demônio com corpo, uma deformação maligna de um ser que o Senhor criou à sua própria imagem e semelhança. Lembremos que, focando a alma de um homem caído, não há diferenças fundamentais entre ela e um demônio. É apenas pela graça de Deus que o homem não exerce toda a capacidade para o mal que pode produzir. É essencial a esse “monstro” agir da forma que lhe agrade, sujeitando tudo e todos a seus próprios interesses. Apesar de ser capaz de reconhecer coisas certas e erradas, as manipula de tal forma a encontrar “brechas” nas quais possa acomodar seus desejos mesquinhos e ensimesmados. À medida que assim procede, vai se afastando cada vez mais daquilo que é santo e justo, sepultando a verdade sob os escombros de valores que vai paulatinamente destruindo para seu próprio infortúnio, como o casamento, a família, e ainda, todas as virtudes.
Essa fome insaciável pelo domínio das coisas e pelo predomínio de sua vontade o leva a se apoderar mesmo das coisas sagradas, remodelando-as segundo seus propósitos pecadores. Colocando isso de outra forma, até as coisas santas e práticas aprovadas pelo Senhor podem se transformar em ídolos para um ser-humano. Quando isso ocorre, via-de-regra, o pecador também estabelecerá o funcionamento, a “liturgia” do culto a tal ídolo, que sempre exaltará o homem, jamais o Senhor. Quanto a isso, a experiência dos judeus é particularmente elucidativa. É verdade que, após as agruras do exílio, a sua religião jamais admitiu ídolos. Não os vemos mais introduzidos no Templo, como era relativamente comum nos tempos do Antigo Testamento. Pelo contrário, sua ojeriza a isso provocou a eclosão de uma revolta contra o império selêucida de Antíoco Epifânio no período intertestamentário, exatamente por não mais aceitarem o sincretismo com o paganismo.
No entanto, o que vemos durante o ministério de Jesus é que o próprio Templo havia se tornado o ídolo nacional. Há uma apropriação do sagrado pelo pecador que o remodela segundo sua própria vontade. Uma vez que isso acontece, que o sagrado se torna ídolo humano, o afastamento de Deus é inevitável. A corrupção das coisas santas é o caminho da apostasia. Esse é o motivo das lágrimas de nosso Senhor, certa vez, ao avistar Jerusalém. Certamente, ser um homem caído significa a tentativa de ser um deus para si mesmo. É curioso que as religiões politeístas não falam de uma federação de deuses que agem concorde e coordenadamente, cada um cumprindo sua responsabilidade. Ao invés disso, destacam os ciúmes, as invejas, as traições que existem entre eles, exatamente porque cada um quer se afirmar sobre o outro. Deuses criados por homens refletem os seus próprios fabricantes. Deus criou o homem à sua imagem. Quando o ser-humano caiu passou a fazer o oposto: criar deuses segundo a sua imagem.
Nessa religião humana, o pecador pretende usurpar tudo que é devido ao verdadeiro Deus, direcionando-o a si mesmo. Por isso, uma das coisas que mais evidencia o pecado no coração humano é a tendência de desvirtuar as coisas de Deus para procurar tirar proveito ou lucro pessoal. É oportunismo puro, baixo, às vezes, travestido de piedade e consideração pelo próximo. O texto em epígrafe narra uma das expulsões que Jesus realizou no Templo de Jerusalém. Pelo que vemos no Evangelho de João, possivelmente houve ao menos duas. Não entendamos que, uma vez que nosso Senhor tenha acabado com a “farra” dos vendilhões e cambistas, eles simplesmente foram para suas casas e se arrependeram de seus pecados. Assim que Jesus virou as costas, eles levantaram as mesas, reuniram os animais, e reiniciaram o comércio religioso.
O Templo de Jerusalém foi contado entre as sete maravilhas do mundo antigo. O chamado “Templo de Herodes”, o maior deles, era algo impressionante, em tamanho comparado a um grande estádio de futebol de nossos dias. Herodes, cognominado “o Grande”, teve esse designativo devido à sua notável habilidade como arquiteto. Até mesmo os romanos utilizaram seus serviços em outras partes do império. À estrutura do Templo estavam anexadas a casa do rei e a fortaleza Antônia, compondo um edifício de proporções gigantescas. Como o Templo era lugar de sacrifício, ensino e oração, Jesus o frequentava com assiduidade quando subia a Jerusalém. No entanto, o que encontrava ali era a mais terrível mostra de desrespeito, algo que equivaleria à blasfêmia, expondo os intestinos da ordem sacerdotal da época, especialmente a corrupção e a ganância com ares de espiritualidade.
Um animal para ser sacrificado teria que obrigatoriamente ser antes vistoriado pelo sacerdote, pois animal velho, doente, defeituoso, isto é, que ninguém quereria, não podia ser oferecido a Deus. Vinha gente de grandes distâncias, não apenas da Judéia, pois, no Novo Testamento, havia judeus espalhados por todo império romano. Para um viajante trazer de casa um animal era extremamente difícil, preferindo sempre comprá-lo em Jerusalém. Destarte, os vendedores de animais se instalaram dentro do Templo, comercializando animais já vistoriados pelos sacerdotes. Estes, por “cederem” o lugar e por vistoriarem antecipadamente os animais, recebiam parte dos lucros. Como se não bastasse, foi permitido também aos cambistas, aqueles que cambiavam a moeda dos viajantes que chegavam de fora da Judéia para a moeda local, praticarem suas operações financeiras ali, tendo a mesma “participação” sacerdotal. Além disso, como o Templo era muito grande, alguns, ao invés de contorná-lo, cortavam caminho por dentro dele para transportar suas cargas e mercadorias (Mc 11.16). Mesmo que tal “feira livre” tivesse as melhores das intenções, o que não era o caso, privilegiava o interesse humano, tornando-se atitude arrogante e desrespeitosa para com Deus, provocando sua ira.
Cuidemos para não incorrermos no erro de praticarmos falsa espiritualidade cujo único objetivo é o ganho pessoal. Sejamos servos autênticos de Deus e que nosso compromisso seja, exclusivamente, a glória dele. Desfrutemos de tudo o que o Senhor tem nos dado na perspectiva correta, isto é, para honra e glória dele. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
Nenhum comentário:
Postar um comentário