“Toma o que é teu e vai-te; pois quero dar a este último tanto quanto a ti. Porventura, não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?” (Mt 20.14, 15).
Até mesmo para aquele que tateia, está clara, como a luz do dia, a corrupção que tem assolado todos os valores éticos e morais especialmente em nossos dias. Na verdade, tudo o que se chama “virtude” está em extinção. A costumeira cordialidade que deveria caracterizar os relacionamentos na sociedade deu lugar à aridez egoísta dos direitos pessoais. O texto transcrito acima faz parte da Parábola dos Trabalhadores na Vinha. Nela, nosso Senhor destaca o direito soberano de Deus de tratar as pessoas de forma diferente. É verdade que o Senhor não faz acepção de pessoas, isto é, não discrimina pessoas por causa de raça, sexo (macho e fêmea) ou grupo social.
Todavia, Deus nunca disse que trataria ou se comprometeu a tratar todos com a mesma proporção de misericórdia conforme medida pelos homens, dando as mesmas experiências, mesmos prazeres terrenais e bens. Há, acima de qualquer debate, servos do Senhor que tiveram acesso a coisas mais “grandiosas” do que outros: Moisés conversava com o Senhor face a face (Êx 33.11); Enoque (Gn 5.24) e Elias (2 Rs 2.11) foram arrebatados ao céu; Davi é chamado de o homem segundo o coração de Deus (At 13.22); Pedro, Tiago e João claramente foram distintos dentre os doze, tendo presenciado a transfiguração (Mt 17.1), a ressuscitação da filha de Jairo (Mc 5.37) e ficado mais próximos de Cristo no Getsêmani (Mt 26.37); além disso, ainda mais próximo estava o apóstolo João, reconhecido pelos doze como o “discípulo amado” de Jesus (Jo 13.23).
Os privilégios do reino são, ainda, relativos ao propósito do Senhor quanto à vida de cada um e aos dons espirituais que Ele concede. Voltando à parábola em questão, Jesus conta que “o reino dos céus é semelhante a um dono de casa que saiu de madrugada para assalariar trabalhadores para a sua vinha”. Naquela época, os trabalhadores eram jornaleiros, isto é, contratados para trabalhar pela jornada de um dia. Assim, os donos de terras saíam antes do raiar do dia, a fim de contratar os trabalhadores que lhe fossem suficientes.
Dessa forma procedeu o dono da vinha. Ajustou o preço individual de um denário (moeda romana) pela empreitada, o salário comum para um dia de serviço, equivalente a dracma (moeda grega). Contudo, passando novamente pela praça à hora terceira (9h da manhã, ou seja, 3 horas após o sol nascer às 6h), o dono da vinha notou que havia ali trabalhadores ainda esperando por serviço. Contratou-os, prometendo-lhes pagar o que fosse justo. Fez outras incursões pelo local à sexta (12h), nona (15h) e à undécima hora (17h). No final do dia, mandou chamar todos os trabalhadores para acertar o salário.
Entretanto, ao invés de fracionar o ordenado, pagando os que trabalharam menos conforme as horas que labutaram, pagou a todos, igualmente, um denário. A desproporção era, realmente, gritante, especialmente em relação àqueles que foram à hora undécima: trabalharam apenas uma única hora. Ora, os que trabalharam todo o dia se enfureceram e reclamaram. Nesse momento, também, torna-se nítida a proporção da bondade de Deus e da mesquinharia humana. O proprietário da vinha lembra os resmungões que eles receberam exatamente o que havia sido tratado. Os demais receberam o que não trabalharam, unicamente, devido à sua bondade. Mas a noção de suposto “direito”, pois, de fato, não o tinham, deu-lhes certa consciência de “justiça” naquilo que reclamavam.
Precisamos compreender que, quando nivelamos os tratamentos e os merecimentos sob uma bandeira de “igualdade” de direitos, oportunizamos, também, nosso egoísmo em nome da justiça. Certamente, não se trata, meramente, de facilitar as coisas para alguém que necessita, mas, usar de toda sabedoria, aquela que procede do alto, para sabermos agir com prudência, discernindo se devo, quando e como favorecer alguém que necessita. Em outras palavras, fazer com que virtudes como bondade e misericórdia deixem de ser conceituais e assumam contornos de atitudes.
É exatamente contra isso que age a sociedade atual. Os olhos dos homens se tornaram brancos. Estão voltados para dentro de si; choram por suas próprias causas; esqueceram-se do próximo. Os trabalhadores contratados no decorrer da jornada de trabalho não optaram por começar a jornada no final do dia. Permaneceram na praça pelo simples motivo de ninguém os ter contratado. Ficariam sem o sustento se alguém não lhes propusesse algum “bico”, visto que não ganhariam mais o salário integral, pensavam. Ao invés de nos alegrarmos com o benefício do próximo, esperamos e cobramos, muitas vezes, o que não é nosso merecimento, visando, sempre, tirar proveito das situações. Isso se torna quase irresistível quando encontramos mesmo que uma ponta “justa” para nos agarrar, em nome de nossos “direitos”, que são, na verdade, meros interesses.
Que Deus nos livre da hipocrisia e do falso merecimento; longe de nós o egoísmo “nobre” que chegamos a chamar “direito”. Aprendamos a valorizar e exercitar a bondade, ao invés de recriminar quem a pratica, sentindo-nos, de alguma forma, lesados. Certamente, o ser-humano não tem dificuldades em ser diferenciado no enaltecimento, mas, abomina ser tratado de forma desigual, se isso implica inferioridade à mente do homem pecador. Saibamos perceber que a inferioridade no tratamento é grandeza, pois os que se humilham serão exaltados e os últimos serão os primeiros. Ao invés de reivindicarmos mais misericórdia do Senhor aprendamos a ser eternamente agradecidos por aquilo que ele já nos deu: Jesus Cristo. Os grandes são os servos de todos. Assim, assumamos alegremente a condição de agradecidos. Nossa preocupação não deve ser qualquer igualdade financeira ou material, mas tudo o que signifique o avanço do reino, a glória de nosso Senhor e o benefício lícito de nosso próximo. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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