Vivendo em nosso ambiente natural
“Porquanto se, depois de terem escapado das corrupções do mundo pelo pleno conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, ficam de novo envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior que o primeiro. Porque melhor lhes fora não terem conhecido o caminho da justiça, do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado. Deste modo sobreveio-lhes o que diz este provérbio verdadeiro: Volta o cão ao seu vômito, e a porca lavada volta a revolver-se no lamaçal” (2Pe 2.20-22).
Aparentemente, há um tipo de cultura estabelecida no povo de Deus de que aquele que permanece na igreja é necessariamente um crente. Bom seria se assim fosse! Isso evitaria muitos pecados, problemas e sofrimentos. Contudo, é comum haver pessoas não-crentes nas igrejas. Algumas vezes, até mesmo, causa-nos assombro perceber que há na sociedade pessoas ligadas a crimes hediondos que não só respeitam, como protegem igrejas, em ambientes hostis. Geralmente são pessoas que ficaram, de alguma forma, impressionadas com o sagrado na vida de alguém, por terem convivido com um verdadeiro crente na família ou em um ambiente de trabalho. Tal apreciação pelo sagrado também pode ser resultante de algum conhecimento das Escrituras ou de mera religiosidade popular.
De qualquer forma, é perfeitamente possível alguém ter, até mesmo, apreciável conhecimento das Escrituras sem nunca ter sido convertido. O que podemos dizer da Teologia Liberal “clássica”, tão conhecedora dos meandros da revelação bíblica, mas tão racionalista e árida, homens que não aceitam a divindade de Cristo, nem mesmo sua ressurreição física e literal? É verdade que uma conversão real só pode se dar pelo contato com a Palavra de Deus, mas não são todos aqueles que ouvem as Escrituras, até mesmo, por tempo prolongado, que serão necessariamente alcançados pelo Santo Espírito de Deus. Não podemos tomar o todo pelo particular. Se digo que alguém vai à praia para se banhar, não implica que todos os que estão na areia vão necessariamente entrar na água. Para muitos, a Bíblia não passa de um belo livro, talvez o melhor de todos, mas nada mais.
Por outro lado, seria possível alguém perder a salvação? Graças a Deus, e unicamente a ele, não! Sempre que as Escrituras indicam a apostasia, referem-se à fé temporária. O ser humano é capaz de produzir fé, é verdade, mas não a verdadeira. Ele é capaz de tornar o sobrenatural palpável o suficiente para alcançar aquilo que deseja. Outras vezes, sente-se como que encantado pela verdade, mas não convencido ou convertido por ela.
Muitos há dentro das igrejas que têm apenas uma fé temporária, que não causa transformação de vida, que não o estimula à santidade, que não o leva a compartilhar o tesouro que recebeu exatamente com esse objetivo: Cristo. Essa é a preocupação de Tiago quando afirma em sua epístola que a fé sem obras é morta. Tal tipo de crença não produz obras dignas de uma conversão sincera e verdadeira! De igual forma, não gera vida! Não produz vida nem naquele que a realiza, nem naqueles que estão ao seu redor. Tal fé não pode salvá-lo, diz o meio-irmão de Jesus (Tg 2.14).
Por isso, devemos compreender: não estranhemos o fato de pessoas conhecidas como crentes, às vezes, até mesmo, que foram poderosamente usadas pelo Senhor, apostatarem da fé e se entregarem regaladamente ao mundo. Além desses, há um número impossível de ser mensurado de apóstatas que preferiram ficar nas igrejas. Esses são do pior tipo, pois quererão modelar a igreja à vontade deles, à própria impiedade. Entendamos que o caminho da vida cristã deve ser sempre para frente, um avanço.
Pedro descreve o percurso de volta ao pecado feito por muitos que começam a experimentar as grandezas de Cristo. Aqueles que conheceram a verdade e voltaram para o mundo estão em estado pior do que o que tinham antes de sua ilusória conversão. Implica o desprezo por Deus e por sua vontade, bem como, o reconhecimento de que a impiedade defendida e oferecida pelo mundo é superior àquilo que o Senhor oferece em sua Palavra.
Além disso, a realidade dessa pessoa que passou por esse processo, mostra que foi solidificada em seu coração uma vida anticristã. Teve contato com a vida eterna que Deus oferece aos pecadores, ouviu falar dela, esteve no meio do povo que a vive, foi respingado de bênçãos eternas e atemporais recebidas por outros, mas nunca jamais se apropriou delas. Realmente procura caminhar com o Senhor por algum momento, até que percebe que aquela vida não é o que ele realmente quer. Na verdade, repara que nunca fez, de fato, sentido à sua alma. Ele conclui que verdadeiramente prefere o mundo.
Isso quer dizer que em seu coração assimilou a negação da verdade bíblica. Colocando isso de outra forma, o reino de Deus passa a não ser mais uma opção. A dureza de seu coração agora é muito maior do que antes de ter tido contato com as coisas sagradas. É o conhecimento de quem já experimentou algo e sabe que não gostou. A utilização do provérbio que vemos no texto epigrafado também é sugestiva. Não denota apenas a sujeira do mundo, preferida por aqueles que abandonaram a igreja e a Palavra de Deus, mas demonstra que deixaram a verdade de Deus para voltarem àquilo que lhes é próprio. Comer o próprio vômito é algo comum aos cães; preferir a lama ao invés da limpeza está na natureza dos porcos. Destarte, quando Pedro utiliza o adágio para ilustrar o abandono da verdade por parte daqueles que deixaram a igreja e voltaram para o mundo, é como se dissesse: regressaram para o devido lugar deles, para aquilo que lhes é natural.
Portanto, é muito importante não apenas nos simpatizarmos com a verdade da Palavra. Achá-la bonita e profunda nada significará se não a assimilarmos e praticarmos. Tal fé não pode salvar-nos. A Palavra de Deus nos foi revelada com o único objetivo de ser colocada em prática por parte daqueles que a ouvem. O contato superficial com as Escrituras expõe o indivíduo ao constante convite para retornar ao mundo. Não o transforma a ponto de erradicar, de uma vez por todas, o desejo pelo vazio das trevas. A sociedade em que vivemos está sempre a nos pressionar para deixar de lado Deus e sua Palavra para viver a “liberdade” do mundo, isto é, voltar à escravidão do pecado.
Deixemos de lado a apatia e o desânimo. Apeguemo-nos às Escrituras! Conheceremos mais e profundamente o Senhor. Nossa vida estará firmemente estabelecida e jamais ouviremos os convites da impiedade. Renunciemos completamente o mundo e as coisas que há no mundo, mortos para o pecado e vivos para Deus. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus NATURAL
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