Refletindo na vida
“Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração” (Ec 7.2).
O desejo pela morte, simplesmente para colocar um ponto final à história pessoal, certamente é algo mórbido e não aprovado. A fuga da existência não levará a nada melhor do que aquilo que se experimenta nesta terra. Ainda que os dias de alguém tenham sido coroados das melhores coisas que o ser humano possa experimentar, permanece o vazio na alma, um olhar para tudo e todos que se desvanecem ao seu redor. Quando o homem percebe que as coisas estão passando, então, finalmente entende a realidade da essência de todo pecador.
A soma dos dias tem como resultado a subtração da existência. Para aqueles que consideram “vida” uma proporção estabelecida de tempo, um dia a mais é também um dia a menos. É por isso que, se é o caso de alguém ter uma vida relativamente tranquila, o seu prolongamento parece ser a coisa mais certa a se buscar. É a ênfase no hoje devido à incerteza e à insegurança do amanhã.
No entanto, do ponto de vista do crente, esta existência é, na verdade, uma subsistência amaldiçoada pelo pecado. Sabe que o melhor é o que está por vir. A morte é o momento em que a vida finalmente “fecha para balanço”. Certamente é mais do que isso, pois a figura empresarial levaria a conclusões, tão-somente, quanto ao desempenho de uma pessoa, se sua vida foi proveitosa ou não, ainda que do ponto de vista divino. A morte, na verdade, é juízo de Deus. O Senhor, soberano que é, coloca um ponto final na história de pecados de um ser humano, tomando seus feitos, suas obras, para serem todos comparados à santidade e à perfeição originais. Todos os que se igualarem a esses padrões perfeitos e santos serão aprovados.
No caso do crente, ele tem a justiça consumada de Cristo, que não apenas pagou a sua dívida, mas também lhe concedeu sua própria justiça, alcançada no cumprimento absoluto de toda Lei. É por isso que, para todos os que estão em Jesus, sua vida encontra o selo de qualidade divino, mostrando pleno acordo com as exigências de Deus. Eles têm a vida eterna.
Todavia, o que o sábio Salomão nos exorta, é que nós devemos regularmente “fazer o balanço” do que tem sido nossos dias antes que chegue o juízo divino. Por isso, é melhor a casa onde há luto do que onde há banquete. O homem caído evita a todo custo a ideia da morte, preferindo pensar unicamente naquilo que chama de “vida”, como vimos, essa existência miserável. Contudo, diante da morte, todos somos impulsionados a considerar como temos vivido os nossos dias. A morte é amiga do crente, mas ao contrário das amizades queridas que temos, traz lágrimas na sua chegada e alegria em sua irrevogável estadia, à medida que convivemos com ela sob a ótica das verdades eternas. Pode chegar anunciando sua vinda, através de sinais inconfundíveis de que está muito perto, ou como uma espécie de amigo inoportuno, que nos surpreende com sua chegada não anunciada.
Como lamentar que nós, ou queridos nossos, sejam recebidos por Cristo na glória eterna? Lágrimas são derramadas devido à partida, mas é literalmente um “a Deus”. Foram recolhidos ao lar eterno, para onde também estamos indo, lugar de vida eterna para todos os eleitos. Todos os que são de Cristo deixaram provas de sua passagem por onde quer que tenham estado. Há neles o selo do Espírito, que é também o selo do Cordeiro, a presença divina que os usava como instrumentos, valendo-se de suas palavras e obras. É assim que notamos queridos que nos precederam no caminho, que realmente se enquadram na descrição do Autor aos Hebreus: eram homens dos quais o mundo não era digno.
Aí vai o exemplo de alguém que conheci. Pecadores? Sim. Mas muito diferentes do mundo. Como um homem de Deus, o pecado não é uma opção de vida, mas um acidente de percurso, devido à inevitável falibilidade na qual ainda vivemos. Servo que pregou a Cristo com palavras e obras. Que fazia de sua casa uma igreja, convidando vizinhos e pessoas que evangelizava para participarem de estudos bíblicos; que se dispunha para a obra missionária, trabalhando ativamente nos campos, na medida do possível; que acompanhava, mesmo à distância, aqueles que necessitavam, através de cartas e estudos impressos; que até mesmo acolheu em sua casa pessoas convertidas, que por terem passado envolto em densas trevas, necessitavam de acompanhamento mais direto; que, apesar de todo esse envolvimento com a obra, cuidava dos pais com zelo e dedicação, preocupando-se sempre com a saúde e o sustento deles. Conheci alguém assim.
Diante da morte, somos tentados a produzir “idealizações”, uma espécie de memória seletiva do falecido, filtrando as coisas más e exagerando feitos e realizações. Sei que esse irmão era um pecador. Mas, se o Autor aos Hebreus pôde se referir a crentes do Antigo Testamento, certamente, igualmente pecadores, em uma época quando o Espírito Santo era dado por medida, quanto mais deveríamos reconhecer homens de Deus que vivem no mesmo formato, na época da plenitude do Espírito! Entendamos que, em meio à nossa fraqueza e pecados, Deus faz a sua obra. Ele verdadeiramente nos transforma em instrumentos da sua vontade. Há muitos servos de Deus verdadeiramente fiéis, cujas obras feitas nas sombras da humildade, jamais produziram a fama vista naqueles que se beneficiam dos holofotes eclesiásticos.
Contudo, ainda que nos bastidores do grande espetáculo midiático que tem se tornado a igreja, transformaram incontáveis vidas pelo contado pessoal, dedicando tempo diretamente às pessoas. Mesmo silenciados e congelados no tempo, que transforma vidas em memória, continuam a pregar por meio do exemplo que deixaram.
Aprendamos a refletir em nossa existência nesta terra e considerar o que temos feito com o nosso tempo. Deveríamos empregá-lo exclusivamente para a glória de Deus em tudo o que fazemos. Consideremos, também, as preciosas amizades no Corpo de Cristo. Soterrado por tantos afazeres, não vi o tempo passar. Ele passou “escondido” e vi tardiamente que perdi a oportunidade da comunhão com alguém querido e precioso que se foi. Enorme prejuízo para mim. Valorizemos os relacionamentos com os irmãos na fé como aquilo de mais precioso que temos na vida, a verdadeira família, eterna, de Deus. Um tributo ao Senhor pela vida de um amigo mais chegado que um irmão. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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