Valores do Reino
“Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes?” (Mt 6.25).
A ansiedade é causada por não podermos controlar nosso futuro. Na verdade, jamais qualquer criatura pôde determinar o que lhe aconteceria nos dias que ainda não haviam raiado. Isso é um atributo divino. Apenas o Senhor é aquele que determina a própria existência em seu ser e em sua vontade. Lembremos que, antes da queda, o ser humano não tinha qualquer apreensão quanto ao seu futuro, pois estava em harmonia com Deus. Isso é vida!
O desejo que tem o homem caído de antecipar seu futuro é, na verdade, a tentativa de garantir a possibilidade de interferência, de poder mexer em algo, para que não haja ocasiões nas quais sua vontade seja severamente contrariada. Isso é o que está no centro do sofrimento humano. Se aprendermos a dobrar nossa vontade e simplesmente assimilar os acontecimentos verdadeiramente querendo a vontade de Deus, então, o sofrimento é enormemente diminuído, não havendo ocasião para depressão ou amargura. A perfeita vontade do Criador era o que determinava e dirigia a vida do homem perfeito.
Como o pecado ainda não havia entrado no mundo, não havia morte, ou mesmo, qualquer dor ou sofrimento que trouxesse a mínima preocupação a Adão. Contudo, quando o pecado encontrou no homem uma porta de entrada, este morreu física e espiritualmente. O que chamamos de “vida” nesta terra é “morte esticada”. A ocasião da morte física do homem foi estendida resultando o tempo no qual todos existimos, algo que passa, destacado da eternidade, e que termina sempre na morte. Todos estamos morrendo a cada segundo.
O único objetivo de Deus ter esticado a morte e dar uma subsistência ao ser humano caído, foi oportunizar um “tempo” no qual lhe pudesse providenciar salvação. O único objetivo da existência de um mundo caído é a redenção de cada um dos eleitos. Como vivemos um “estado de morte”, para o ímpio os dias são obscuros e preocupantes. Para o crente, cada amanhecer é o descortinar de novas experiências com o Senhor, oportunidades de servir a Deus e adorá-lo com a própria vida.
Diferente dos não-crentes, o salvo tem uma vida consistente e consolidada, sem medos e fragilidades exageradas, pois confia plenamente naquele que dirige cada acontecimento. Se o caminho for difícil, apegar-se-á ainda mais a Cristo como único roteiro para a verdadeira vida. O arrazoado de nosso Senhor no verso epigrafado mostra o dano a que a ansiedade conduz. Embora o que esteja ensinando prioritariamente é que Deus cuida da sua criação, especialmente de seus filhos, há um princípio muito importante, além deste, a ser destacado na fala de Jesus. É certo que o Deus que deu a vida e fez o corpo providenciará o alimento, bem como, as roupas para a sua manutenção física.
É por isso que não devemos andar ansiosos, como se a nossa vida pudesse ser determinada por nós mesmos. Todavia, o que Cristo diz a seguir estabelece um princípio de valor: a vida é mais do que o alimento e o corpo mais do que as vestes. Tal afirmação estabelece-se como uma assertiva absoluta e irremovível, que serve não apenas para explicar o compromisso do Criador com a manutenção da Criação e do seu povo, como também para pautar nossos próprios atos. Fica implícito que a ansiedade surge exatamente quando não observamos, na prática, esta verdade.
A questão que se levanta, portanto, é a valorização exacerbada do alimento e das vestes, acima da própria vida e do corpo, respectivamente. Quando penso em tal raciocínio, uma avaliação simples e clara como a luz do dia, percebo também a sua atualidade para todas as épocas. Especialmente em nossos dias materialistas e capitalistas, as pessoas vivem freneticamente à busca do acúmulo de riquezas. Não há limites, uma vez que investimentos é que não faltam.
No entanto, despreza-se a própria vida, vê-se os dias passar sem volta, enquanto gasta-se praticamente todo o tempo sem desfrutar da existência. Casais não usufruem a vida conjugal; tornam-se estranhos um para o outro com o passar do tempo pela falta de contato. Pais veem seus filhos crescerem à distância e perdem algo que jamais poderão recuperar. Crentes chegam à velhice sem nunca experimentarem comunhão profunda com Deus, por não dedicarem tempo à comunhão. De igual forma age-se com relação ao corpo. Para que seja possível exibir “boas roupas”, exagera-se na dedicação ao trabalho. Destarte, o corpo é submetido ao prejuízo e ao dano. A saúde se esvai rapidamente, para aqueles que se entregam sem limites e sem reservas a trabalhos visando o acúmulo de bens materiais. Logo que a juventude passa, acaba também todo vigor. Não raro, aquilo que foi acumulado não poderá ser usufruído.
O ensinamento de Jesus, portanto, não destaca apenas a jurisdição divina, isto é, que é Deus quem, exclusivamente, acima de tudo e de todos, tem a responsabilidade de cuidar de nós. Assevera ainda o que se espera de nós, a saber: evitar cometer o grande erro de valorizarmos mais o secundário do que o principal. Contudo, alguém dirá: “Jesus não está falando de riqueza ou de bens materiais, mas de ansiedade quanto à própria sobrevivência, tentando garantir a posse do consumo básico.” Porém, a pergunta que precisamos fazer é: se não devemos nos preocupar com aquilo que é vital, sem o que não é possível viver, quanto mais em relação ao que é supérfluo e excedente?
A manutenção de nossa vida é responsabilidade de Deus, ainda que seja através das habilidades e saúde que ele nos dá para o trabalho. Confiemos no zelo do Pai celestial. Quanto àquilo que excede ao básico, não desperdicemos a nossa vida para acumular coisas que não têm valor eterno, nem percamos a saúde para isso. Aprendamos a viver com o fruto do nosso trabalho não exagerado. Isso nos dará tempo e saúde para usufruir das melhores coisas que o Senhor preparou para a nossa vida. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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