Total de visualizações de página

domingo, 1 de março de 2026

AMAR

 Eles aprenderam cedo que amor não é disputa de força.

É coordenação.
Ela sabe fazer sozinha. Sempre soube. Carrega o próprio peso, amarra os próprios nós, levanta quando cai. Ele sabe disso. E justamente por saber, não tenta salvar. Apenas se aproxima.
O cuidado dele não vem da urgência, vem do cotidiano. Está nos gestos pequenos, quase invisíveis.
No jeito de se abaixar para ajustar o sapato. No copo d’água deixado perto. No silêncio respeitado. No toque que pergunta antes de tocar.
Ela aceita porque não se sente diminuída.
Ele oferece porque não quer controlar.
Entre os dois, o cuidado vira linguagem.
Amar assim é delicado. É entender que independência não exclui afeto. Que força também cansa. Que dividir não é fraqueza, é intimidade. Ele cuida sem invadir. Ela recebe sem se perder.
Não há discursos. Há presença.
Não há promessas altas. Há constância.
Eles se escolhem nos detalhes. Nos dias comuns. Na repetição que não desgasta, mas constrói. O amor deles não faz cena. Ele acontece enquanto a vida segue.
Enquanto os sapatos são amarrados. Enquanto o mundo espera.
E talvez seja isso o mais bonito: ninguém ali precisa provar nada.
Eles só cuidam.
E isso, todos os dias, basta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário