Precisamos de água
“Ó Deus, tu és o meu Deus forte; eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida, exausta, sem água” (Sl 63.1).
Agostinho de Hipona, talvez o maior dos chamados “Pais da Igreja”, celebrado na igreja e no mundo, certa vez, ao falar sobre as virtudes fundamentais do ser humano, disse: “humildade, humildade e humildade”. Curiosamente, não falou do amor, tido como a característica predominante no ser de Deus, ou a santidade, como algo que aproxima o ser humano do próprio Deus. A humildade é a virtude fundamental pois atesta o verdadeiro conhecimento do Salvador e de si mesmo. Se alguém verdadeiramente conhece a Deus sabe que o homem nada pode, que é fraco, imperfeito e falho, mortal, pecador e merecedor do inferno. Apenas em Cristo há salvação.
Não há como depender de si mesmo ou viver por suas próprias forças. Nosso olhar para Deus é exatamente o que descreve o salmista: nós percebemos a sua grandeza, sua onipotência e, consequentemente, nossa fraqueza e inteira dependência dele. É possível que alguém possa se passar por verdadeiro crente, disfarçando suas palavras e atitudes, porém nunca conseguirá mascarar sua soberba e arrogância. Nada é mais incompatível à vida cristã do que o orgulho e a jactância. Como isso é possível a alguém que necessita ser salvo, que não tem poder para determinar absolutamente nada em sua vida?
Quando Davi escreve este salmo, estava no deserto da Judeia. Uma peculiaridade dos salmos é que eles são, geralmente, produto da experiência do seu autor. Davi não se sentou e pensou: sobre o que escreverei hoje? Ele resolve registrar a experiência que ele estava vivendo com Deus, ou, que acabara de passar. Os Salmos são teologia experimental, prática, o vivido do autor. Estando no deserto da Judeia, Davi percebe que sua situação geográfica era uma excelente ilustração de sua condição espiritual. Ele podia olhar para a areia e as rochas e compreender claramente uma existência improdutiva, a existência daquilo que é morto, que possui, nem mesmo, uma centelha de vida.
Certamente, aí está já uma preciosíssima lição. A metáfora estabelece uma comparação entre a água e Deus, nossa alma, o deserto. A vida de alguém sem Deus é como um absoluto ermo, árido, onde a vida não pode prevalecer. É unicamente quando o Senhor está presente na alma de um eleito é que, de fato, o homem experimenta vida. Do contrário, o morto de alma se regala e se exalta no meio da exuberância do pó, de algumas relvas resistentes ao calor, pequenos répteis. O crente é como árvore verdejante plantada junto a correntes de águas, que dá sempre o seu fruto.
Curioso que Davi compara a sua alma ao deserto. É provável que o contexto do salmo seja de profundo sofrimento e angústia para o rei, conforme vemos no verso 9: “Porém os que me procuram a vida para a destruir abismar-se-ão nas profundezas da terra”. Acredita-se que a situação específica que levou Davi a produzir o salmo seja sua fuga de seu filho Absalão, que pretendia matá-lo. Se ele escrevia refletindo essa situação, sua alma estava em processo de restauração. A aridez era a convicção do pecado, que olhava para Deus como única fonte de águas restauradoras.
Sabemos que a revolta empreendida por seu filho, cujo nome “pai da paz” era pura antítese daquilo que ele fazia contra seu pai, foi resultado de vários pecados de Davi, a começar de seu adultério com Bate-Seba, o assassinato do marido dela, e também de várias omissões: no trato do estupro de sua filha Tamar, irmã legítima de Absalão, meia-irmã de Amnon, o assassinato deste por aquele etc. Era momento preciosíssimo de reflexão, quando a alma se vê totalmente morta de si mesma e necessitada de Deus. Não haveria melhor figura do que um deserto para ilustrar tal condição.
No entanto, chama-nos a atenção que Davi não está entregando sua vida à amargura. Fugido de Jerusalém, onde suas concubinas (mulheres desposadas sem os direitos plenos de casamento) foram violadas por seu filho, aquele que Davi pretendia que fosse seu sucessor, sentia o ódio em ebulição no coração de seu próprio filho, figura daquilo que o povo de Deus fez com Cristo. Ele sabia que tudo isso acontecia como juízo de Deus em sua vida.
O crente precisa do sofrimento, mais do que da alegria. Momentos prazerosos não nos confrontam, pelo contrário, tendem a consolidar o estado que a nossa vida se encontra. Por amor, nosso Pai eterno permite que nossa alma viva o deserto, se arrependa verdadeiramente, considere todo mal que tem produzido, e perceba que apenas em Cristo há genuína vida. Ele é a água que concede vida, vida eterna e abundante. Embora amassado pelos seus pecados, consciente que estava colhendo aquilo que havia plantado, não havia revolta contra o Senhor, pelo contrário, a busca e a dependência de Deus.
Os sofrimentos sacodem a nossa vida, abalando as estruturas da alma. No entanto, se verdadeiramente conhecemos a Deus, ele será a nossa força: “Ó Deus, tu és o meu Deus forte”! Nossa fraqueza é contrastada com a onipotência divina. O Senhor que permite o sofrimento como precioso remédio para alma, como diz o ditado: “o que arde, cura; o que aperta, segura”, é também o que traz o alívio e concede as forças para passarmos pelas tribulações. A experiência de correção de Davi com Deus era: “Porque tu me tens sido auxílio; à sombra das tuas asas, eu canto jubiloso” (v. 7).
Ao invés de procurar ajuda nos homens e em suas ciências mortas, o rei fugido, cujo reino se resumia a um deserto, rei de lagartos e serpentes, firmava-se em Deus. Ali foi o lugar de preservação, de cura, de fortalecimento. Quando você é forçado a fugir para o deserto, busque ao Senhor. Ele é a água, a vida de sua alma, suas asas não apenas o acolherão, mas também farão sombra sob o sol escaldante. O melhor lugar do mundo sempre será aos pés de Jesus Cristo. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus (Rev. Jair de Almeida Junior).
Nenhum comentário:
Postar um comentário