Cristo, a nossa alegria
“Abraão, vosso pai, alegrou-se por ver o meu dia, viu-o e regozijou-se” (Jo 8.56).
É preciso entender que não há alegria real fora de Cristo. É a diferença entre a visão de uma planície verdejante, povoada de animais belos e exuberantes, e aquela de um vale desolado de ossos secos, com cheiro de podridão e aparência de morte. Houve um deslocamento da existência quando o homem se afastou de Deus, passando a existir para si mesmo. Ele cria seu próprio universo. Se as digitais evitam a plena coincidência física mesmo entre gêmeos univitelinos, a personalidade impede qualquer identificação
perfeita entre duas almas. Dessa forma, a maneira de enxergar todas as coisas,
preferências, desejos de realização, fraquezas e tendências pecaminosas, fazem de cada ser humano um indivíduo sem igual. Como consequência, cada sujeito projeta seu próprio universo, seus lugares de alegria, seus medos e receios, seus apegos. O mundo físico é apenas o palco onde ocorrem as performances dos universos pessoais, um “infinito” de
O homem abandonou o mundo de Deus para viver, como um deus, o seu próprio universo. Se acomodou a essa existência por não poder realmente vislumbrar aquela
perdida desde a queda, tendo, tão-somente, um tipo de lembrança seminal por ser filho de Adão, desfocada e quase que totalmente apagada. É uma besta-fera que vive acostumada à sua própria jaula, suspirando ocasionalmente por algo que, de alguma forma, tem certa
noção de que verdadeiramente exista. A insistência do homem de viver à parte de Deus o
afasta da experiência da verdadeira e genuína alegria. De certa forma, ela se confunde com a própria realidade da existência, a vida autêntica que não conhece perda, sofrimento ou morte. O pecador chama de alegria aquelas situações que, ocorridas ou ainda ansiadas, confirmam no fenômeno suas maiores expectativas e ansiedades. São meras experiências confinadas a poucos momentos de satisfação na alma. É por isso que precisam ser constantemente repetidas, ainda que não com o mesmo objeto, para que, como uma linha pontilhada, possa considerá-la como um traço ininterrupto ou contínuo. Não há outra coisa que possa fazer o homem caído, desassistido da graça de Deus.
Contudo, falando-se do eleito já regerado, alguém já refeito pelas próprias mãos do Deus Espírito em sua conversão, tem uma natureza santa e perfeita que diariamente
cresce na habilidade de acessá-la, sem jamais alcançar a sua plenitude neste mundo.
Porém, quanto mais crescer no acesso de sua vivência, mais poderá perceber nitidamente a verdadeira, única e real alegria em Cristo. É por isso que Abraão pôde olhar para o dia
de Cristo e se alegrar. Como representante de uma antiga ordem, quando a vida com Deus ainda era parcial por não contarem com a plenitude do Espírito, sua vivência espiritual já era capaz de lhe dar o maravilhoso antegozo da concretização das promessas naquele que viria. Todos os nascidos de Deus são capazes de antecipar algo da alegria eterna para o hoje, vivendo agora por fé. Quando aquele que afirma crer em Cristo tem suas maiores experiências de alegria com as coisas terrenais, com certeza, algo está errado em sua fé.
Desde que o homem caiu, Cristo passou a estar em evidência para o eleito.
Entendamos que, antes da queda, Adão e Eva conheciam a Deus apenas como Criador.
Viam a sua glória estampada em tudo o que foi criado. Exaltavam o poder que deu origem a todo o universo, celebrando a vida que era, até então, a perfeita harmonia com o Criador.
Contudo, a partir da queda, o ser humano passou a conhecer Deus também como
Salvador. O homem já não se relacionava com Deus diretamente, sendo necessários um mediador e uma mediação. O mediador é Jesus Cristo, em quem toda a revelação de Deus está, através de quem se dá todo o conhecimento de Deus. A mediação é a Escritura, único meio de se conhecer o Senhor, única revelação chancelada pelo Senhor para que se possa realmente conhecê-lo. O relacionamento e o conhecimento de Deus tornaram-se mediatos. No propósito eterno de Deus, aprouve ao Filho assumir todo papel revelador. É ele quem se revela ao mundo, comunicando assim, nele, o conhecimento de toda Trindade. É por isso que ele é chamado o Logos divino pelo mesmo apóstolo João, no
capítulo inicial de seu evangelho, pois todo conhecimento que necessitamos saber a
respeito de Deus está contido exclusivamente nele. Quem o vê, vê ao Pai, e o Espírito é um outro Consolador exatamente como ele.
As palavras de Jesus no texto epigrafado são proferidas em um dos mais sérios e
tensos debates que nosso Senhor teve com os líderes judeus, especialmente com os escribas e fariseus. Na sequência imediata, o povo pega em pedras para matar Jesus, ainda nas dependências do Templo, porque Jesus não apenas se colocou acima de Abraão, mas também afirmou sua própria divindade: “antes que Abraão existisse, Eu Sou”. Esse patriarca é uma das figuras mais importantes das Escrituras e, por conseguinte, da história de Israel. Pai de judeus e de, segundo creem, também dos mulçumanos, o seu túmulo é até hoje, não apenas guardado, mas disputado por estes povos que, por isso mesmo, tornaram-se rivais. Abraão foi o escolhido para que, de sua descendência, o povo de Deus fosse formado e, deste, o próprio Cristo nascesse.
Ao referir-se a Abraão, nosso Senhor destacava a aliança feita com aquele
patriarca e a supremacia daquele momento, quando o Verbo encarnado de Deus dialogava
com os escribas e fariseus: era o cumprimento das maiores aspirações de Abraão, a concretização na história da Pessoa e da obra de Cristo. Na verdade, os judeus até poderiam aceitar que o Cristo fosse maior que Abraão. Porém, o que não “desceria” pela
garganta deles, provocando sério “engasgo” era a forma como Jesus anunciou tal superioridade. Isso se dava por causa de duas questões predominantes. A primeira era relativa à identidade do Cristo: era ele realmente Jesus? A segunda, completamente
intragável para um judeu, foi a identificação que Jesus fez de si mesmo com o próprio Deus, quando atribuiu para si o nome divino. No entanto, Cristo não estava ali para se
gloriar diante dos homens – não era essa sua intenção –, nem para crescer em
popularidade, uma vez que claramente vemos sua orientação contrária a isso em outros lugares.
Todavia, era a sua mensagem. Ele era o Messias prometido e o próprio Deus encarnado e não podia esconder isso. O teor de sua pregação e o resultado de sua obra
eram aquilo de mais importante para a humanidade, mais importante até do que Moisés e a antiga aliança. Nosso Senhor deixa claro que o primeiro patriarca, pela fé, anteviu o seu dia e se alegrou. O momento da conclusão do propósito de Deus e da vinda do reino era o que mais queriam os crentes do Antigo Testamento. Nós que vivemos muito mais perto do tempo da consumação final precisamos nos analisar e considerar se também nos
alegramos com o reino e sua consumação vindoura. A bênção de viver a vida com Deus
como um cidadão do reino dos céus não se compara mesmo às maiores alegrias da vida nas esferas física e material. Portanto, dediquemo-nos a Deus e alegremo-nos com o dia de Cristo. Abraão se alegrou com a vinda de Cristo e tudo o que isso significava. Nós
vivemos já essa realidade, aguardando, tão-somente, sua plenitude no último dia.
Vivamos nessa perspectiva! Abraão se alegrou com a promessa. Nós vivemos a
consumação! Qual deveria ser o tamanho de nossa alegria? O crente deveria mostrar,
constantemente, a exuberância de sua fé em Cristo, em poder para obedecer até nos tempos difíceis. Nossa alegria é uma certeza, que produz paz, segurança e firmeza.
Tenha um maravilhosos e abençoado dia na presença de Jesus (Rev. Jair de Almeida Junior).
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