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terça-feira, 11 de novembro de 2025

DISSIMULADORES

 Dissimuladores

“Ou cuidais que aqueles dezoito sobre os quais desabou a torre de Siloé e os matou eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém?” (Lc 13.4).
Talvez o maior problema da humanidade caída seja a falta de compreensão de sua real situação. Da mesma maneira que a pessoa que não sabe que está doente, ou minimiza os sintomas que sofre, não procura um médico, de igual forma, a ignorância quanto ao que significa ser um pecador faz com que o homem viva sem buscar e clamar desesperadamente àquele que o criou para que agora o salve.
Destarte, nunca experimentará aquilo que lhe era próprio. Biblicamente falando, há uma resposta para o enigma: “é melhor ter e perder ou nunca ter tido?” Certamente, quando experimentamos algo especial e perdemos, guardamos na alma o desejo de o viver novamente. Realmente Adão e Eva se beneficiaram das memórias do paraíso como algo que os impulsionava à fé e à fidelidade. Como o homem caído não tem qualquer lembrança do Éden, a não ser aquela saudade subjetiva de um coração vazio, consequente da ausência de Deus desde a queda, acostumou-se com a presente condição de morte como se fosse o seu normal.
Dessa maneira, além de ser incapaz de perceber aquilo que pode ter e ser no Criador, experimenta essa existência amaldiçoada vivendo-a como se fosse a plenitude e o auge de uma verdadeira vida. Desligado de Deus, tem seus maiores prazeres e alegrias em tudo o que é pecaminoso, assumindo a condição de um deus para si mesmo. Assim, está verdadeiramente satisfeito com uma existência na qual a falta e a perda, o sofrimento e a morte, são a regra. Paradoxalmente encontra satisfação naquilo que não pode satisfazê-lo. Além disso, não percebe que todos os reveses, na sua vida e na de outros, são a lembrança da condenação de todos os descendentes de Adão, a prova de que não está em sintonia com a vontade divina.
Com olhos espirituais de um novo homem segundo Cristo, o convertido é capaz de “ler” os acontecimentos de forma real e verdadeira, percebendo que todo sofrimento tem como causa básica e primária o fato de existirmos em um mundo de morte. Embora ainda seja influenciado pelo pecado, o genuíno salvo está atento a qualquer influência que possa desviá-lo do caminho. Para ele, todo sofrimento e tristeza são advertências para que esteja sempre firme e confiante no Senhor. O ser humano caído é evasivo e dissimulado, e isso, desde o início. A culpa é sempre do outro. Adão jogou a culpa do pecado no próprio Deus e na mulher, quando disse ao Senhor: “a mulher que tu me deste”. Eva, por sua vez, disse: “foi a serpente”. A serpente por sua vez, não pôde dizer: “foi a árvore...”. A natureza caída tem em si o germe do juízo. Sabe que está condenada. Consequentemente, evita, a todo custo a culpa.
No caso dos crentes, o reconhecimento da culpa é básico para o abandono do pecado. Por isso, é visto como uma virtude para pecadores. A tendência de evitar o erro também se manifesta na forma de atenuar o próprio pecado por meio de inúmeras explicações. No entanto, talvez não haja melhor estratégia humana para aliviar a consciência do que enxergar o pecado do outro sempre como pior do que o seu. O juízo que temos sobre as más obras dos outros parece sempre ser mais severo do que o olhar que temos quanto aos nossos próprios pecados. Talvez o motivo seja que acreditamos em nossas próprias desculpas e explicações, mas desconfiamos das “justificativas” alheias. A resposta à pergunta que Jesus faz no verso acima é dada por ele mesmo: “Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” (v. 5).
É interessante como tendemos a associar o sofrimento e a tragédia ao “maior” pecado. Certamente, há ocasiões nas quais o Senhor permite a desgraça para fazer com que seu povo repense suas atitudes e sua devoção. No entanto, devemos compreender que todos somos merecedores das piores calamidades, pois todos somos pecadores e dignos do juízo, se considerarmos tão-somente o que somos. O favor de Deus está sobre nós não por nossa própria causa, mas por causa de Cristo. O judeu, no melhor estilo dos “amigos de Jó”, estava acostumado a associar o infortúnio ao pecado, à reprovação de Deus. Ora, no caso de Jó era exatamente o revés. O sofrimento veio porque Jó era aprovado diante de Deus, não o contrário.
O desabamento da torre de Siloé foi um fato extremamente marcante para o judeu, pois ocorreu no meio da cidade de Jerusalém e tirou a vida de dezoito pessoas. Assim, na forma de pensar deles, estes dezoito foram alvos do juízo de Deus. No entanto, Jesus esclarece: estando a nação inteira em apostasia diante do Senhor, quem disse que os vitimados eram mais culpados? Todos deveriam refletir na sua própria condição espiritual e buscar o arrependimento.
Contudo, “culpar” os mortos pelo desabamento tem outro efeito que é bastante interessante para o coração impenitente: considerar-se aprovado. A desgraça bateu à porta do outro, não a minha. Portanto, é ele o culpado, não eu. Tal leitura permite ao pecador continuar em sua vida de afastamento de Deus, manipulando sua consciência. É exatamente contra isso que o nosso Senhor exorta. Ao invés de acharem que os dezoito eram “mais pecadores” do que eles, todos os judeus deveriam considerar o ocorrido e refletir, arrependendo-se de seus pecados.
Todo sofrimento, mesmo na vida do outro, deve levar-me à reflexão, à súplica ao Senhor que nossos olhos sejam sempre atentos para nós mesmos, para nosso procedimento, para a abrangência da santidade que é devida ao crente, à vida espiritual abundante que se abre em Cristo. Será que é necessário desabar algo sobre nós para que consideremos a condição de nossa vida? Se isso acontecer, talvez não haja ocasião para arrependimento posterior. O tempo para mudança é o agora. Urge a mudança! Nosso coração pecador apega-se facilmente a coisas do mundo, boas e ruins, que desviam a atenção do Senhor. É preciso refletir sempre no que tem sido nossa vida e tomar as decisões práticas necessárias para a correção. Aprendamos com o erro e o sofrimento alheio, para que nos arrependamos dos pecados sem precisar passar pelos mesmos sofrimentos. Alguém já disse: “inteligente é aquele que aprende com os próprios erros, mas sábio é o que aprende com os erros do outro”. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus

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