A fé enganosa
“Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor! Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres?” (Mt 7.22).
Aquilo que podemos chamar de “fé enganosa” é um dos maiores perigos para aquele que se diz crente. Há vários tipos de fé, mas apenas uma é, de fato, verdadeira. Há uma modalidade de fé sincera, porém temporária, não real, baseada em intenções autênticas do coração, mas que não são resultantes de uma experiência verdadeira com Cristo. São, na verdade, tão-somente boas intenções ou, até mesmo, o resultado do interesse por uma solução de um problema que se busca em Deus. Há estudiosos que acreditam que uma fé temporária pode durar toda uma vida. Existe também a fé intelectual que é o resultado da simples lógica de que alguém criou todas as coisas. Deus é a causa necessária para todo o universo.
Mesmo alguns ramos da filosofia afirmam a existência de um ou mais deuses. Certa vez, um famoso entrevistador defendeu a vida após a morte simplesmente por constatar que falta algo a um cadáver, concluindo necessariamente que é a alma que se ausentou dele. Hoje temos vertentes de estudos empíricos como o “Designer Inteligente” e o “Criacionismo científico” que procuram explorar exatamente a lógica da Criação. O intelecto humano é capaz de perceber provas racionais da existência de Deus, mas que jamais levarão à transformação de vida, ao recebimento da nova natureza.
Aqueles que não tem fé verdadeira procurarão na vida alguma prova de que é crente. Certamente, podemos dizer que isso é, até mesmo, necessário. Como já dizia um meio-irmão de Jesus: “a fé sem obras é morta”. No entanto, o crente verdadeiro jamais baseará sua fé nas obras, mas em sua própria experiência com Deus. O apóstolo Paulo, escrevendo aos romanos, afirma essa realidade: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16). É o que a Teologia convencionou chamar de “testemunho interior do Espírito”. Colocando isso de outra forma, a certeza de minha salvação não está baseada na cesta básica que entreguei ou no fato de ir ao culto dominicalmente, mas em minha comunhão diária com Cristo. Minha certeza está ligada a uma realidade interior, não exterior. Ninguém precisa me provar que Deus existe, se converso com ele todo o dia, a cada momento. A manifestação do poder de Deus em alguém, as obras que tal pessoa realiza, são elementos importantes da vida cristã, mas jamais servem como alicerce da fé verdadeira.
Mesmo a sabedoria popular compreendeu que “as aparências enganam”. No entanto, modernamente começou-se a entender o ditado como “as aparências sempre enganam”. Com isso, começou-se a desprezar completamente a necessidade das aparências, que elas são importantes. Colocando isso de outra forma, as coisas não apenas devem ser o que são, mas aparentar ser o que são. A corrupção da ideia que afirma o ditado tem como causa a introdução de novas ideologias que relativizam todas as coisas. Dessa forma, as coisas santas perderam sua aparência, bem como, as coisas malignas.
Perdeu-se o referencial. Posso estar dirigindo o louvor da igreja com o cabelo totalmente desfigurado, tingido de múltiplas cores, cheio de tatuagens e piercings, porque a aparência já não vale nada. Esquecemos do fato que uma maçã parece maçã, e uma pera parece pera. Um homem tem aparência de homem, e uma mulher, aparência de mulher, ainda que hoje queira artificial e impiamente fazer o contrário. Aplicando-se o princípio à vida cristã, o próprio Cristo afirmou que conheceríamos os falsos profetas pelos seus frutos, por aquilo que está presente em sua vida, o que envolve diretamente aquilo que ele parece ser. Por isso é que eles se disfarçam em pele de cordeiro.
O que precisamos entender é que a aparência não é tudo, mas ela é importante. Eu tenho que parecer crente, não apenas ser. A modalidade de “criptocrente” ainda não foi legitimada. Falta pouco. Alguém já se referiu à distinção entre fé e conhecimento humano como a opção entre Jerusalém ou Atenas, respectivamente. Nas Escrituras há uma afirmação análoga, mostrando que os judeus vivem em busca de sinais, e os gregos, de sabedoria. Estas duas coisas sempre atrairão a vontade e a curiosidade humanas. Falando-se do primeiro caso, o desejo pelo sobrenatural exerce grande fascínio entre os homens.
Destarte, muitas confusões são vistas. Talvez a mais comum delas seja uma espécie de pragmatismo espiritual. Em outras palavras, implica dizer que “tudo o que me faz bem (entendendo-se como aquilo que opera o que quero ou o que me agrada) é de Deus”. Assim, na busca pela satisfação das vontades humanas não apenas tudo é válido, mas tudo é reconhecido como “divino”. Significa dizer que se vê Deus em tudo o que é sobrenatural, se aquilo resultar na concretização do meu interesse, não importando o que seja. Por causa dessa “abertura ao sobrenatural” é que Cristo exorta contra os falsos profetas.
O texto epigrafado é a resposta dos que se desviam, consciente ou inconscientemente, assumindo o rumo da condenação. Note que a justificativa que buscam para serem incluídos no favor eterno de Deus é exatamente o exercício do sobrenatural: profetizavam, expeliam demônios e realizavam muitos milagres. Eles pareciam crentes por causa do sobrenatural. Perceba, também, que não há nenhuma indicação na passagem que nos sugira que Jesus estava falando ironicamente, ou seja, que eles eram enganadores, líderes religiosos que, como charlatães, fraudulosamente praticavam tais coisas. Quanto à profecia, é provável que se refira apenas ao ato, isto é, ao anúncio de oráculos como vindos da parte de Deus e que resultava no reconhecimento, por parte do povo, de que eram profetas.
Pode até ser que o Senhor tenha, de fato, falado através deles em alguma ocasião, como aconteceu com o profeta pagão Balaão. Quanto à expulsão de demônios e aos milagres são narrados em vários seguimentos religiosos. O próprio diabo também opera prodígios, como ocorreu no caso de Janes e Jambres, os mágicos do Egito que imitaram os primeiros sinais de Moisés. Todavia, o que nos cabe asseverar é que o exercício do sobrenatural não é evidência conclusiva de salvação, nem mesmo de fé verdadeira. Uma pessoa motivada por “sinais” pode alimentar uma fé temporária, não legítima, por toda a vida.
A evidência da fé verdadeira sempre será a qualidade da vida espiritual, vista em um comportamento que mostre o compromisso firme e profundo com Deus. É o que é crente e parece crente. É isso que devemos buscar. Jamais irradiaremos a luz de Cristo se não ficarem percebidas a essência e a enorme diferença que há entre o crente e o ímpio. Ao invés de nos omitir, mostraremos claramente a profunda transformação que o Espírito realiza na vida do eleito. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus (Rev. Jair de Almeida Junior).
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