Total de visualizações de página

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

DÚVIDA

 Dúvida

“E deste modo, pecando contra os irmãos, golpeando-lhes a consciência fraca, é contra Cristo que pecais” (1Co 8.12).
Certamente, a fórmula para a implantação do erro como se fosse o certo em uma sociedade, uma transformação social, é a insistência. Abordagens mais agressivas de militância só se mostram eficazes depois que aquilo pelo que se luta já está plantado, próximo do estágio da eclosão do fruto. A promoção daquilo que é claramente reconhecido como errado sempre gera uma primeira reação de repulsa. No entanto, seus promotores logo contornam a situação, com recursos já premeditados. Assim foi, por exemplo, com a questão homossexual. Os primeiros personagens gays introduzidos em novelas causaram grande reprovação, o que levou os diretores a os tirarem logo de cena por alguma trama já prevista no enredo.
Contudo, vieram outros, e mais outros, até que a ideia foi se tornando mais comum e popular na mente do telespectador, a ponto de hoje terem ampla promoção por praticamente toda a mídia, sem qualquer manifestação coletiva contrária. Sem dúvida, já há toda uma geração nascida debaixo dessa tendência, que cimenta e consolida cada vez mais a ideia. Atualmente a questão é apresentada não apenas como correta, mas acima de qualquer discussão. Todo questionamento é taxado como coisa horrenda e reprovada. O amor foi completamente desfigurado, transformado em paixão carnal destituída de qualquer limite. Isso jamais aconteceria há trinta ou quarenta anos! A sociedade ocidental é alvo contínuo de uma lavagem cerebral, manipulação de massas, mostrando-se completamente passiva, deixando-se modelar, gado de corte.
Vivemos uma época tremenda! Questões que, até há pouco, não seriam nem sequer nomeadas, são agora promovidas com a maior naturalidade. A criatividade humana tem vestido questões polêmicas com novas estampas, velhos pecados travestidos de novidades. Além disso, há questões modernas que são assumidas sem qualquer debate pela igreja, como o descarte de embriões fertilizados em laboratório, abortos da ciência, casais que amaram mais a experiência da paternidade e da maternidade do que aqueles que efetivamente buscaram gerar.
Percebe-se também aqui a desfiguração do amor. Evidentemente, há também falta de textos para outras questões atuais, como a doação de órgãos e a engenharia genética, sendo necessária a formulação de um entendimento baseado no ensinamento mais abrangente das Escrituras. Além disso, o renascimento do paganismo tem trazido de volta assuntos e práticas que o cristianismo primitivo teve certamente que lidar, mas que assumiram novos contornos. Pior ainda quando há seguimentos evangélicos que não só já os admitem, mas estimulam práticas que nunca foram aceitas na igreja cristã.
O resultado é grande confusão. Na guerra que o diabo trava contra a igreja, utiliza também estratégias bélicas. Uma das mais eficientes é: “dividir e conquistar”. Para dividir um povo, divide-se sua vontade, apresentando várias ideias com roupagem de verdade. Procura-se criar muitas verdades entre si conflitantes, como se isso fosse possível, para tornar a sociedade uma colcha de retalhos identitária, cada um com sua verdade, sem qualquer coesão suficiente para lutar pelas coisas realmente importantes e verdadeiras. É assim que, diante de uma sociedade totalmente fragmentada, sem força, introduz-se mesmo as práticas mais hediondas. Confusão já é uma vitória do diabo, pois manifesta um povo dividido quanto a ideias e ideais, conceitos e anseios, especialmente quanto àquilo que reprova. O resultado é a aceitação de tudo, o mais completo relativismo. Onde não há coesão e concordância quanto às coisas acertadas, predomina o erro.
O crente hodierno, em meio a esse turbilhão de desinformação, tem que tratar com duas questões: o que fazer quando não há qualquer texto claro sobre um determinado assunto, de forma especial temas que tradicionalmente o cristianismo tem se posicionado contrariamente? A segunda questão é: como saber lidar com questões que aparentemente são reminiscências de comportamentos que precisam ser superados, de tendência ascética e um tanto legalista, que são tolerados apenas para os imaturos na fé? Um princípio fundamental para todo posicionamento que tomamos é: “Não removas os marcos antigos que puseram teus pais” (Pv 22.28).
Esse provérbio, que tem como sentido básico o respeito ao limite das terras herdadas, traz também o ensinamento do respeito ao modo de vida de nossos antepassados cristãos. A Bíblia não muda, mesmo diante dos clamores de alguns hereges que labutam por sua ressignificação. O mesmo comportamento que tiveram os crentes do passado, seu modelo de vida piedoso, o combate não apenas ao mal, mas também à sua aparência, devem ser continuados por nós. Certamente, quando historicamente um comportamento específico foi condenado por uma interpretação não explícita no texto, torna-se extremamente complicado para o crente o praticar. Ainda que não se constitua claramente pecado nas Escrituras, dificilmente alguém temente a Deus chegará à sua prática sem peso na consciência ou culpa. Exigiria uma considerável parcela de ousada maturidade, soberba disfarçada, alcançar uma segurança que beiraria a perfeição.
Certamente, está contrariando, se não a Palavra (no caso de não haver texto claro), a vida de santos e piedosos homens de Deus que preferiram renunciar a coisas questionáveis por reconhecer nelas algo que não cheirava bem, odor de carne pecaminosa. Como identificar se minha interpretação não é tendenciosa? Geralmente é! O ser humano sempre está inclinado a “ler” preceitos e compreender situações de acordo com seus interesses, gostos ou intenções. Certo mesmo é que tudo o que é duvidoso deveria ser abandonado. Melhor privar-se de algo do que ser achado em oposição contra Deus.
Outro princípio importante: nada faça contra a sua consciência. Isso é defraudar a alma. O ensinamento que subjaz ao verso epigrafado é este: o cuidado com a própria consciência. É verdade que ali o apóstolo Paulo está a enfatizar o mal que alguém pode causar à consciência alheia. Todavia, entendamos isso de forma mais detida. Ninguém tem acesso à consciência do outro. O acesso à consciência é limitado ao Santo Espírito de Deus e a própria pessoa. Nem mesmo o diabo o pode.
O que adverte o apóstolo é contra o perigo de termos atitudes e palavras que levem os imaturos a agirem contra a própria consciência deles, assumindo e praticando coisas que são condenadas no fórum de suas almas. O melhor é amar o irmão e zelar pela sua saúde espiritual do que insistir com minha própria vontade. O cristianismo não é uma religião de satisfação pessoal, mas de privação e negação, de serviço a Deus e ao próximo. A felicidade que cabe a nós desfrutar não é aquela em linha com os desejos de nossos corações, mas a que espelha o agrado de Deus, assumindo o perfil de vida de nosso Senhor Jesus Cristo. A alegria de Deus é a nossa alegria.
Todavia, nos casos em que as Escrituras não são claras sobre o assunto, ainda pesa sobre os nossos ombros a dúvida. É provável que esta seja a grande (e única!) resposta: na estrada de nossa vida, “na dúvida, não ultrapasse”. Diante do pecado escancarado, não pairam dúvidas sobre como o crente deve proceder. No entanto, diante de questões não claras nas Escrituras, tenho que ter atitude preventiva, que não fira a minha consciência, nem a consciência do próximo, que não me leve a desagradar a Cristo. Renunciar tudo o que é suspeito, tudo o que questionável, tudo o que o entendimento sobre Cristo na Palavra mostre que ele não faria, é essencial à santidade e à pureza de coração. Tenha um excelente dia na presença de Jesus

Nenhum comentário:

Postar um comentário