Filhos e escravos
“Como filhos da obediência, não vos amoldeis às paixões que tínheis anteriormente na
vossa ignorância; pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos
santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento” (1Pe 1.14, 15).
A palavra “obediência” jamais soará agradável a um homem caído. Certamente,
seu modus operandi. Todo comportamento humano está baseado nisso, no prazer em
fazer aquilo que bem entende, em detrimento de qualquer norma ou lei. É por isso que
todo descendente de Adão é um escravo. Essa é sua condição. Ele não consegue deixar
de obedecer às suas próprias vontades pecaminosas. No caso do crente, ele foi comprado
por Deus no sangue de Cristo, redimido, para se tornar seu escravo. No entanto, ser
escravo de Cristo é ter a capacidade de vencer os próprios desejos pecaminosos, de
reconhecer as escolhas aprovadas, ser guardado por ele, como sua propriedade, por toda
a eternidade. Sabemos que nosso status não é apenas de “escravo”, pois também fomos
adotados. Somos filhos de Deus em Cristo. Tanto o filho quanto o escravo estão na mesma
condição de total obediência ao pai e ao senhor, respectivamente. A grande diferença é
que o filho busca voluntariamente agradar o pai pela obediência, cumprindo suas
responsabilidades e obrigações. Nesse sentido, a vontade do pai é recebida e assimilada
como a própria vontade do filho. No caso do escravo, embora possa também obedecer
voluntariamente, o faz sempre na condição daquele que está obrigado a fazer a vontade
de outro.
Como o salvo ainda é um pecador, experimenta a realidade desses dois status em
sua vida. Como filho, deve prazerosa e concordemente espelhar a mesma vontade do pai,
agindo de forma harmônica, não divergente. No entanto, sempre que a tentação surgir e
estimular a desobediência, momento em que o pecado se mostra uma opção, deve estar
sobre ele a obrigação da obediência, como o escravo que não pode fazer o que quer, mas
sim a vontade de seu senhor. Dessa maneira, entendamos que o crente deveria agir mais
como filho do que como escravo. Colocando isso de outra forma, significa dizer que nossa
vontade deve naturalmente se inclinar e assimilar a vontade de nosso Pai eterno, ao invés
de nos forçarmos à obediência ao Senhor. Todavia, se for o caso de termos o desejo pelo
pecado, ajamos como escravos, impondo a nós mesmos a obediência a Deus. A vida cristã
jamais deveria ser um fardo, mas certamente mentiríamos se disséssemos que jamais a
experimentamos dessa forma. No entanto, a busca da comunhão diária com o Senhor nos
fará experimentar a proximidade com o Pai, algo maravilhoso e incomparável, que
naturalmente nos levará à satisfação com a vontade de Deus.
Olhando para a igreja atual, é possível discernir que um dos principais problemas
que enfrenta é a incoerência, isto é, uma total descontinuidade entre o que diz ser e seu
procedimento. Talvez não haja evidência mais clara de fé e de conversão do que a
obediência. Tamanha é a identificação do crente com esta virtude que o apóstolo Pedro
explicitamente liga a obediência à filiação. Ser filho da obediência é ser filho de Deus.
Somos da linhagem da obediência! Se realmente cremos, somos seus filhos. Temos a sua
“cara” e o seu “DNA”. Certamente, isso nos identifica diretamente com Cristo. Nossa
salvação foi decorrente da obediência dele. Obedeceu ao Pai entregando-se à morte, bem
como, cumprindo tudo aquilo que ordenou por meio da Lei. Somos filhos da obediência
também porque somos herdeiros da obediência de Cristo. Uma vez que somos o que
somos, nossa vida não pode jamais refletir o trato passado, o tempo quando aindanão
éramos crentes, pois era época em que vivíamos na impiedade.
É importante entender que a conversão impõe uma mudança radical. Não se trata
de uma mera reforma, um conserto em coisas que estavam arruinadas: é novo nascimento.
É ser nova criatura. Portanto, necessariamente transforma nossos desejos, motivações,
pensamentos, sentimentos, atitudes e palavras. Nós devemos ter nosso entendimento
sempre preparado, devidamente fundamentado nas Escrituras. Esse é o único jeito de
podermos resistir a todas as investidas malignas. Não vivemos mais o estado de
ignorância. Assim, nossa vida precisa refletir o conhecimento que temos da Palavra de
Deus. Não é conhecer algo fora de nós, mas assimilar, trazer para o nosso interior, o nosso
íntimo, todo o ensinamento do Senhor. As Escrituras foram dadas para ser guardadas no
coração, na alma, de forma a torná-las parte de nós. É assim que nos identificamos com
o caráter daquele que nos chamou para o seu reino de maravilhosa luz. Cristo cumpriu a
Lei, como já dissemos. Ele é a fonte da própria Escritura. Pela obediência à Palavra nós
nos assemelhamos a Jesus.
No entanto, o apóstolo Pedro explicita que não se trata meramente de
“conhecimento”, mas de prática. Aliás, nas Escrituras não existe conhecimento
meramente teórico. Conhecer não é apenas entender com a mente, mas assimilar com o
coração. O que prova que conhecemos é exatamente a prática. Nosso procedimento deve
se tornar santo, ilibado, irrepreensível, mas não por simples força de vontade humana,
mas pela obra do Espírito Santo em nossa vida. Essa é mais uma “facilidade” que
desfrutamos como graça de Deus. É o Espírito Santo quem nos transforma. O fruto do
Espírito é exatamente isso. Ele nos modela a todos com as santas virtudes descritas por
Paulo na Carta aos Gálatas. Mas é preciso entender bem que não somos passivos no
processo. Há muitos que simplesmente pedem a Deus que transforme sua vida, contudo
não buscam ao Senhor como deveriam. A busca se dá quando ativamente procuramos a
comunhão com Deus, separando tempo de qualidade para a leitura das Escrituras e a
oração. Nosso papel é, tão-somente, buscar a comunhão profunda e diária com o Senhor.
Destarte, à medida que buscamos a comunhão com o Senhor, mais e mais seremos
transformados. Sabemos que o Senhor sempre fará o que prometeu. Portanto, depende de
cada um buscar em Deus a transformação de sua vida.
Uma coisa é certa: nenhuma ligação devemos ter com o comportamento passado
se somos verdadeiramente crentes. O conceito de “santidade” é estar separado
completamente do mundo, como que cortado. Não há qualquer linha que nos liga ao
comportamento mundano. Isso já nos foi garantido em Cristo. Pela busca incessante do
seu reino e da sua justiça alcançaremos a bênção de morrermos para o mundo, o que é
viver para Deus, vivermos como filhos de Deus. Devemos sempre nos lembrar dessa
máxima: a santidade é o que mostra que verdadeiramente nascemos de novo. É a forma
de expressar nossa alegria, identificando-nos com o próprio Deus. É caminho seguro e de
bênção sem medida.Tenha um abençoado dia na presença de Jesus (Rev. Jair de Almeida Junior).
Nenhum comentário:
Postar um comentário