Monstros, demônios e Animais
“O justo atenta para a vida dos seus animais, mas o coração dos perversos é cruel” (Pv 12.10).
O homem caído tem um desejo mórbido pela morte. Certamente, um cristão concordará muito pouco com Sigmund Freud. Porém, quando o famoso psicanalista afirma que o homem é regido por duas forças predominantes: thánatos e eros, certamente, não discordamos. As duas palavras significam em grego “morte” e “desejo sexual”, respectivamente. Focando especialmente a primeira, estranhamente o ser humano gosta de expor sua vida a risco. Sente emoções positivas e experimenta verdadeira alegria ao saltar de paraquedas, ao andar em alta velocidade com qualquer veículo que seja, em atirar-se de algum lugar muito alto preso por apenas um elástico, e coisas do tipo. Atitudes como essas estão centradas na tendência essencial de todo pecador de querer, de alguma forma, flertar com a morte.
Ao colocar-se propositalmente em perigo quer afirmar, na verdade, que tem pleno domínio da situação, exerce soberania sobre sua própria existência. Subjaz uma zombaria a Deus, acreditando que a vida está na jurisdição do próprio pecador, como se fosse possível colocar o Criador na obrigação de preservá-lo a fim de que sua existência continue. Esse é um dos melhores exemplos que podemos dar do conceito de “tentar a Deus”. No entanto, o desejo mórbido pela morte não é apenas quanto a si mesmo, mas também em relação ao outro.
Especificando o relacionamento do homem com o animal, o pecador não apenas se sente soberano e divino ao submeter mesmo as maiores feras ao seu controle, mas também especialmente ao matá-las. É curioso que muitos, inclusive crentes, acreditam que têm o direito de matar qualquer tipo de ser, se o quiser. Não entendem que o mandamento “não matarás” é tematicamente uma ordem pela preservação de toda vida, não apenas da humana. Deus é a origem de toda vida. Atentar contra ela é atentar contra o Criador que trouxe tudo à existência.
É tremendo pecado exterminar aquilo que o Senhor criou para sua própria glória. É certo que Deus permitiu ao homem matar criaturas para alimento, roupa e proteção. Colocando isso de outra forma, historicamente o homem se alimenta, se veste e se protege de animais tirando a vida deles. É possível reconhecer outras aplicações lícitas do uso de animais, desde que haja respeito pela vida, isto é, não haja maus-tratos e sofrimentos desnecessários. No entanto, mesmo em pessoas chamadas crentes se manifesta o pecaminoso desejo de matar especialmente através da caça.
Vivemos em uma sociedade onde há toda uma indústria de alimentos, inclusive animal. Quando alguém que vive em cidade, possuindo recursos para alimento, invade uma floresta para tirar a vida de animais, torna-se algo completamente desnecessário. Essa é a questão: a vida animal só pode ser ceifada em casos de reais necessidades. Se falamos de ameríndios que vivem na selva ou outros tipos de ocupações de subsistência, é lícito se alimentar de caça.
Porém, há exemplos explícitos da vontade demoníaca humana. Tal ocorre quando se manifesta o desejo de matar escancarado, como acontece, por exemplo, em locais na África do Sul que criam leões tão-somente para servir de troféus para assassinos que expressam seu prazer por matar. A mesma coisa ocorre, com requintes de crueldade, nas corridas de touros e touradas na Espanha, e ainda, as farras-do-boi e rodeios aqui no Brasil. Um crente verdadeiro deveria ser um guardião da Criação, seguindo os passos do homem original e perfeito, criado para gerenciar e cuidar do mundo feito por Deus. É sua responsabilidade se levantar contra todo abuso contra animais.
Na primavera as árvores sofrem suas primeiras dores de parto. Essa estação do ano sempre nos traz à memória a realidade e a importância da Criação. O cristão, preferencialmente, deveria se referir ao mundo como “criação” e não como “natureza”. Esta, foi a designação que a ciência começou a dar para as coisas criadas exatamente para evitar completamente a centralidade de Deus e a ideia de “criação”. Daí o lema naturalista de Lavoisier: “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.
Reparemos, então, que o termo “natureza” pressupõe uma cosmovisão naturalista, ou seja, que a matéria é eterna e Deus não existe. Acredita-se que o mundo é “natural”, ou seja, não criado. Ao chamar tudo o que vemos de “natureza”, esvazia-se o mérito da glória criadora de Deus, vista no micro e no macrocosmo. Portanto, o cristão não deve, jamais, ter qualquer constrangimento em padronizar suas referências ao universo chamando-o de “criação”, pois essa é a forma legítima de conferir justo reconhecimento ao incomparável Autor de toda a existência. Como Calvino tão poética e profundamente declarou, a Criação é palco da glória de Deus.
Jamais devemos omitir nosso reconhecimento e deslumbre diante de obra sumamente extraordinária. A cosmovisão cristã sempre terá como fundamento o reconhecimento da autoria divina de todas as coisas. Deus é, não apenas o compositor da sinfonia da Criação, mas é também seu maestro e o artífice de cada instrumento. É por isso que todo cristão deve ser zeloso com tudo o que foi criado. Faz parte da justiça esperada do salvo, o respeito reverente para com a Criação, vendo-se como alguém a quem foi dado o direito de utilizar e desfrutar de algo que não lhe pertence. Ao contemplar a beleza e a majestade do universo criado, o cristão, atento ao espetáculo contínuo descortinado a cada pôr e nascer do sol, ovaciona intensamente em seu coração o autor e o artista, que no caso, são a mesma pessoa.
Destarte, o nascido de Deus não tem uma noção utilitarista da Criação. Em outras palavras, não serão achadas em sua boca, frases do tipo: “precisamos preservar a Criação para nossos filhos e netos”; ou então, a mera defesa de uma exploração planejada e inteligente dos recursos “naturais”. Esse tipo de preocupação tem o homem como centro, e não o Criador. Tais argumentos são válidos e importantes, como secundários e resultantes da preocupação principal e insubstituível: preservar a Criação, pois ela existe para a glória de Deus.
No texto bíblico citado acima, o sábio Salomão afirma que a justiça requerida do cristão exige a consideração pela vida animal. Claramente, a ênfase está sobre o cuidado com os animais que se tornam propriedade humana. É certo que tal advertência expande ainda mais o ensinamento, pois, muitas vezes, o homem acha que pode fazer o que quiser com aquilo que lhe pertence. Em nosso país, talvez o melhor exemplo do desrespeito para com os animais seja a já referida e malfadada “farra do boi”. Um dos argumentos utilizados por aqueles que defendem tal atrocidade, é que os animais são deles. Todavia, não são “objetos”, mas organismos vivos.
Faz parte do coração do justo o respeito pela vida. Deve-se entender, também, que não se trata de mera “nobreza” humana. Muitas vezes, o pecador se torna ainda mais orgulhoso por fazer aquilo que já era sua obrigação. O cristão, portanto, respeita a vida, pois ela é dom e jurisdição exclusiva de Deus, o maior milagre da existência. Por outro lado, a impiedade se manifesta também no destrato e no desrespeito da Criação. O homem se revolta contra o verdadeiro Proprietário, não respeitando o seu direito divino de propriedade. Trata-se de apropriação indébita: o homem não apenas procura roubar o direito de Deus, antes, usa, de forma esbanjadora e até insana, aquilo que foi emprestado para o seu humilde e agradecido usufruto. O homem caído tem cada vez mais exteriorizado sua maldade essencial.
Coisas demoníacas e monstruosas têm sido vistas na sociedade a ponto de chamar um ser humano de “animal” passar a ser mais um elogio do que um xingamento. O próprio Deus toma os animais como exemplo para a atitude humana: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono de sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende” (Is 1.3). Certamente, o que Deus está ensinando não é: “haja como animais!”, mas a terrível situação de muitos que usam sua razão para o mal, tornando-se inferiores aos seres que têm inteligência limitada. Assim, faz-se necessária a reflexão: como tem sido nossa postura em relação à Criação? Desrespeito? Somos utilitaristas? Indiferentes? Ou, realmente, defendemos a Criação, pois ela existe para a glória do Criador?
Sejamos verdadeiros ecologistas, isto é, trabalhemos contra a exploração predatória da Criação por sermos servos do Proprietário. Aprendamos a perceber a glória de Deus no mundo animal, vegetal, e até mineral. Que o nosso amor a Deus seja visto também em nossa percepção da manifestação de sua glória através de tudo o que foi criado. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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