Oração: a súplica de um servo
“Disse-me o rei: Que me pedes agora? Então, orei ao Deus dos céus e disse ao rei: se é do agrado do rei, e se o teu servo acha mercê em tua presença, peço-te que me envies a Judá, à cidade dos sepulcros de meus pais, para que eu a reedifique” (Ne 2.4, 5).
No dia 2 de agosto de 1990, quando os aliados estavam se preparando para invadir o Iraque, a imprensa teve certeza de que o primeiro ataque ocorreria naquele dia, por causa de um motivo específico: começaram a interferir nas comunicações iraquianas. Essa é uma estratégia vital para se conquistar a vitória em uma guerra. Aqueles que estão no front têm que ser comandados. Essa pode ser uma figura que ilustra o que é a oração: a necessidade de ser comandado por Deus. É importantíssimo compreendermos essa verdade, pois vai de encontro àquilo que os crentes geralmente pensam ser a oração: um meio de convencer Deus de fazer aquilo que o homem está pedindo. A oração de Neemias denota a mais pura dependência de Deus!
Na verdade, a “oração relâmpago” que é referida no verso epigrafado é como se fosse a “ativação” da oração feita anteriormente, registrada na parte final do capítulo 1. Nesta, Neemias assume um papel quase sacerdotal, intercedendo por toda a nação de Judá que havia sido levada para o exílio por ter quebrado a aliança com Deus. Sua súplica primeira é por perdão. Confessa o pecado nacional e pede ao Senhor que considere sua misericórdia. Reconhece a justeza do juízo de Deus em executar os termos da aliança, que previa o desterro como punição para a quebra do Pacto. Roga ao Senhor que se lembre de sua misericórdia, reunindo novamente aqueles que foram espalhados por causa da desobediência.
Neemias planejou falar com Artaxerxes sobre a restauração da cidade (1.5-11), de modo que, quando ora diante do rei, era como se dissesse: “Senhor aqui vou eu! Estou em tuas mãos! Faça-se a tua vontade!” Fazia parte da sua estratégia comparecer triste diante do rei. Na verdade, ele não estava fingindo. Isso não era uma manipulação, mas a decisão de não mais esconder a genuína condição de sua alma, por lembrar de como estava a cidade de seus pais e o Templo, em ruínas. No entanto, isso poderia ser sua sentença de morte. Muitos monarcas da antiguidade foram assassinados através de envenenamento. Daí a importância de Neemias como copeiro do rei. Ele não estava ali como uma espécie de “nutricionista” ou “chef” da cozinha real, mas era um oficial de confiança do imperador, para sua proteção.
Lembram-se da trama contra faraó, quando José interpretou os sonhos do copeiro e do padeiro que foram acusados? Ambos ligados à mesa do governante. Na ocasião de Neemias, se o imperador desconfiasse que o copeiro estava em conluio, tramando algo, ele poderia nem mesmo perguntar: apenas mandá-lo executar. No entanto, procurando o estabelecimento do povo de Deus, Neemias estava disposto a correr o risco. A referência aos “sepulcros de meus pais” bem pode ser um indício de que estava pronto a se unir a eles, se sua petição não fosse atendida.
Reparemos que ele não recebera qualquer revelação para agir dessa forma. Fê-lo por sua própria conta e risco, mas crendo nas promessas de Deus. No seu cargo e posição, ele se sentia na responsabilidade de, no mínimo, tentar. O que estava em seu coração é o que Mordecai disse a Ester, quando foi ordenado o extermínio dos judeus. Neemias não deveria se sentir bem por estar confortavelmente servindo a Artaxerxes, assim como Ester, por ser a rainha. Se nada fizesse, Deus se levantaria contra sua casa (Et 4.13, 14).
Não há como um verdadeiro crente virar as costas ao sofrimento de seu próprio povo. Sabemos que a verdadeira oração jamais visa tentar mudar a vontade de Deus. Ao invés de modificá-la, procura-se se modelar a ela. É colocar-se inteiramente sob a vontade de Deus. A experiência de Cristo foi essa. No Getsêmani, diante do sofrimento e morte terríveis, e o pior, a agonia de ser abandonado pelo Pai na cruz por algum tempo, para receber a nossa punição, ele orou: “seja como tu queres”. É o mesmo que nos ensinou a pedir na Oração Dominical: “Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu”.
Paulo, escrevendo aos Romanos, diz que o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis, mas o critério que o Consolador utiliza para seus rogos é a vontade de Deus. Isso quer dizer, por exemplo, que podemos estar orando pela cura de alguém, mas, se for o momento determinado pelo Senhor para sua passagem, o Espírito traduz nossa oração diante do Ser Divino como: “leva-o, pois é chegada a sua hora”. Muito pode por sua eficácia a oração do Justo (Tg 5.16), uma referência de Tiago à intercessão de Nosso Senhor nas alturas, que sempre pediu aquilo que é a vontade do Pai.
Devemos viver no agrado de Deus, para que ele satisfaça os desejos de nosso coração (Sl 37.4). Contudo, quais são os desejos de alguém que anda no agrado do Senhor? Não seria a glória de Deus e sua vontade? Jesus disse que tudo o que pedíssemos em seu nome ele concederia (Jo 14.13). Quando emprestamos o nosso nome a alguém, o pressuposto é que concordamos com aquilo que a pessoa fará. É a vontade de Deus que regula, consuma e já pré-determinou todas as coisas.
Ao orar, gostosamente nos aconchegamos ao Pai, confiando naquilo que ele vai fazer. Se a oração é confiar que Deus fará o que estou pedindo, logo minha confiança está em mim mesmo, como se eu soubesse sempre o que é bom para mim. No caso, eu é que dirijo a Deus, não o contrário. Que maravilha é descansar nos propósitos de Deus, saber que mesmo em meio a uma catástrofe e a uma perda que rasga o nosso coração, ele está no controle de todas as coisas. Aceitar a vontade de Deus, qualquer que seja ela, é apaziguar o coração e renovar nossa confiança nele e em sua vontade (Jó 2.20-22). Não haverá revolta ou amargura, depressão ou qualquer fraqueza da alma. Sairemos fortalecidos sempre que pedirmos que a vontade do Senhor seja feita. Esse é o caminho de vitória que temos em Cristo. Tenhamos vida de oração diária.
Prostremo-nos diante dele e enchamos os pulmões de nossa alma com ares da eternidade. Nosso coração baterá com mais leveza e experimentaremos verdadeira paz. Orar, ao invés de tentar mudar a vontade do Deus imutável, é esvaziar-se de toda culpa, preocupações e ansiedades diante do Senhor, modelando-nos aos seus decretos eternos. É renunciar a nossa vontade, dobrá-la, humilharmo-nos diante de Deus, percebendo que é a vontade de Deus que tem sempre que prevalecer. É querer isso! Atracar a nossa alma em porto seguro. Toda oração é a súplica de um servo que busca ouvir a vontade de seu Senhor. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus (Rev. Jair de Almeida Junior).
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