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terça-feira, 11 de novembro de 2025

SAUDADE

 “Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam” (Gn 2.25).

Por ter sido criado à imagem e semelhança do Criador, o homem sente necessidade de buscar o seu originador. Assim como a imagem refletida no espelho não existe por si mesma e depende da realidade primeira, aquilo que dá razão à existência humana e a explica, é Deus. Por mais que o homem se debata, qual peixe que investe todo seu esforço tentando se locomover fora d’água, tentar viver fora da vida para a qual foi criado, é inútil, frustrante, e termina em morte. É importante compreender que o paraíso não é apenas um local, mas é também o relacionamento perfeito com o Senhor.
As Escrituras mostram isso com clareza, quando registram os momentos iniciais posteriores à queda. Embora Adão e Eva ainda estivessem no Éden, houve grande frustração no momento imediato à desobediência, quando “abriram-se os olhos de ambos” (Gn 3.7). O resultado da sugestão satânica não foi a grandeza, mas a humilhação e a consciência de ter sido enganado. O homem sentiu o desamparo de quem não está mais seguro e perfeitamente suprido em um relacionamento harmonioso de Pai e filho.
O erro trouxe, a galope, a vergonha. Como o casal jamais havia cometido qualquer pecado, tal sensação lhes era estranha. A nudez, que até então era seu estado natural, passou a significar vulnerabilidade, algo a ser escondido, pois expunha aquilo de mais íntimo no corpo. De certa forma, significava também nudez de alma, pois o vazio deixado pela ausência do Santo Espírito no coração de ambos mostrou não apenas a fragilidade do corpo, mas também do homem interior. Embora Adão e Eva fossem marido e mulher, foi a primeira vez que se viram daquela forma, isto é, a primeira vez que a nudez representou exposição e vergonha.
Quando viviam em relação de perfeita obediência com Deus, não havia sentimento de insegurança quanto ao futuro, pois, mesmo sem conhecê-lo, sabiam que sempre seria maravilhoso. Todo nascer do sol descortinava uma outra e, ao mesmo tempo, a mesma felicidade. Eram novas experiências que traziam o desfrute da bênção contínua daqueles a quem foi dado o direito de viver no paraíso. Por mais que remetamos os nossos pensamentos para imaginar o que seria a solidez e a realidade imutável de uma vida plena em uma ordem perfeita da Criação, não conseguimos chegar nem perto de experimentá-la, mesmo em pensamento.
No caso da descendência de Adão, nascida sob o manto escuro do pecado e sem Cristo, o futuro significa insegurança e aventura. Muitos tentam fazer o seu próprio destino. Todavia, como o trem que se arroga em seguir os trilhos que já estão postos para ele sobre os dormentes, assim é o homem que diz determinar o seu futuro. Quem saberá o que lhe aguarda além da linha do horizonte, ou do outro lado do monte, ou ao final de cada curva? Não há nada mais tolo e patético do que um pecador afirmar que determina seu próprio futuro.
Tiago, meio-irmão de Jesus, ao escrever sua carta, aponta exatamente para essa arrogante tolice. Argumenta que o homem não pode, nem mesmo, garantir sua vida: como, então, determinará o que ele mesmo fará? Além de todas essas sensações frustrantes para o primeiro casal, Adão e Eva experimentaram, também, o que significa medo. Paradoxalmente, isso se deu quando ouviram a voz daquele que as Escrituras definem como sendo a expressão e a origem do amor. Quando o Criador estava contemplando a beleza de tudo o que havia criado, passeando pelo jardim no pôr do sol, percebeu-se, analogamente, o ocaso da própria humanidade.
Ao escutarem o chamado de Deus, Adão e Eva se esconderam. O único e verdadeiro amor é santo, não se compraz no pecado e na injustiça. Ele assusta toda e qualquer intenção ou prática maligna. A santidade e a justiça de Deus, aliadas ao seu imensurável e inextinguível poder, é uma equação que nem o maior campeão dos mortais pode enfrentar. O terror do juízo iminente do Deus benigno e amoroso fez com que aqueles que foram formados pelas bondosas mãos de Deus temessem enormemente o encontrar.
O paraíso já havia sido perdido antes mesmo de serem expulsos dele. Deus já estava fora do coração de Adão e Eva. Hoje, temos a bênção de estar presentes novamente no paraíso, embora, ainda não plenamente. Conquanto, seja inquestionável que o paraíso signifique estritamente a presença física em um lugar santo, não é apenas o local que o determina, mas, igualmente, o retorno ao relacionamento harmonioso com o Criador. Para todos os que creem, tal realidade já está garantida em Jesus Cristo. Já vivemos, de forma antecipada, algo que seria possível experimentar apenas após a ressurreição. Por causa do retorno da comunhão com Deus e da habitação do Espírito, andamos como que na “periferia” da Nova Jerusalém, aguardando ansiosamente o momento de acessarmos o “centro” da Cidade Santa.
O coração do homem sem Cristo é um coração saudoso do Éden, da perfeição, e do contato com a primeira realidade, aquela que deu origem ao reflexo da sua própria existência: Deus. Tal saudade irá impulsioná-lo a várias tentativas de suprimi-la, buscando preencher a alma com coisas fugazes e transitórias. Para nós, crentes no Salvador, fica o estímulo para vivermos o máximo possível do paraíso já na presente vida, através de um relacionamento profundo com Deus, em Cristo Jesus. Devemos desfrutar intensamente das bênçãos disponibilizadas para nós, isto é, viver a proporção de paraíso que já nos está proposta, ao invés de esperar passivamente pelo paraíso futuro. Embora todos devamos ansiar por tal plenitude, nossa espera não pode ser mera contemplação, mas vida, experiência, atitude e fé. Tenha um excelente dia na presença de Jesus (Rev. Jair de Almeida Junior).

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