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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

ETERNO

 “No fim das contas, viver é isso: habitar um lugar emprestado, sentir tudo como se fosse eterno, e ainda assim saber que, cedo ou tarde, vamos ter que entregar as chaves.” Olho para o céu e trago presente a certeza do reencontro, um dia. Entre lágrimas e preces, refirmo o desejo de estarmos juntos na eternidade. Uma chave esquecida entre os objetos de alguém pode guardar a memória de muitos momentos. Houve mãos que a procuraram ao chegar, portas abertas para visitas, noites em que a casa recebeu de volta uma pessoa cansada. Agora, o pequeno metal permanece, enquanto a presença que lhe dava sentido faz falta. A saudade nos ensina quanto da vida esteve nos gestos comuns. Nem sempre percebíamos a importância de ouvir uma voz no outro cômodo ou saber que alguém estaria à mesa. A consciência de que nossa passagem é breve pode despertar tristeza, mas também uma atenção mais delicada ao tempo que ainda temos. Não possuímos inteiramente os lugares, os encontros ou as pessoas que amamos. Participamos de suas histórias por um período e recebemos a responsabilidade de cuidar dessa convivência. Deus acolhe a nossa finitude sem diminuir a grandeza de cada vida. Na fé, podemos confiar a ele aqueles de quem sentimos falta e encontrar companhia para continuar. A lembrança não precisa impedir o movimento de quem permanece. Há maneiras de levar o amor adiante, repetindo um cuidado aprendido, contando uma história, oferecendo a alguém a hospitalidade que um dia recebemos. O que foi bom encontra outros caminhos para permanecer entre nós. Também podemos olhar para as relações presentes com menos adiamento. Uma conversa necessária, uma visita possível, uma gratidão ainda não dita podem ganhar lugar no dia. Isso não exige viver com medo da despedida. Convida a habitar com mais verdade o tempo compartilhado. Ao recordar quem partiu, talvez o coração encontre lágrimas e um sorriso na mesma memória. Ambos pertencem ao amor. E seguimos cuidando da casa, abrindo as janelas, recebendo a luz que chega. As chaves estão conosco por algum tempo; o acolhimento que oferecemos pode continuar vivo muito além da nossa passagem. 

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