A alegria pela salvação
“Digo-vos que, assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” (Lucas 15:7).
A alegria, muitas vezes, se expressa por meio de sentimentos. Embora não se limite apenas a sensações, ela geralmente provoca emoções que, segundo sua intensidade, não podem ser contidas pela alma, transbordam o coração, sendo necessário e inevitável exteriorizá-las. No entanto, é importante entender que não são os acontecimentos que determinam a nossa alegria, mas sim, a nossa vontade. Colocando isso de outra forma, ela não é resultante da coisa obtida ou situação vivida em si, mas pelo nosso desejo por elas. Se quero muito alguma coisa, mesmo que irrisória aos olhos de outros, meu desejo por aquilo determinará a minha alegria.
Dessa forma, todos já testemunhamos ocasiões quando algo verdadeiramente importante é recebido por alguém que não parece ter ficado muito contente, simplesmente por não reconhecer o quanto aquilo é valioso. Sua vontade não foi despertada para distinguir o valor e a importância do que recebeu. De igual forma, já vimos pessoas transbordarem de alegria por coisas inteiramente relativas à vontade delas, sem nenhum valor intrínseco. Da mesma maneira, coisas muito valiosas e importantes podem ser desvalorizadas com o passar do tempo e até mesmo perdidas, tornando a oportunidade de reavê-las também ocasião de grande alegria. Por isso, a alegria é determinada por nossa vontade de ter e de experimentar. Essa é uma alegria humana e pecadora.
No entanto, a maior felicidade de todas é a alegria da salvação, não apenas a nossa, mas também a de outros. Os anjos nos céus nada têm, pois sabem que tudo pertence a Deus, perspectiva perdida pelo homem caído que trata tudo como se pertencesse a si. Seres santos e perfeitos compartilham as coisas que o Senhor lhes permitiu usufruir. No entanto, a função criacional dos anjos é servir ao Criador em benefício do homem: “Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação?” (Hb 1.14). A palavra traduzida como “serviço” é literalmente diaconia na língua grega. Aqui mais um exemplo de que esse termo é usado comumente no Novo Testamento sem a conotação do ofício de diácono, como feministas querem impor a Febe na Carta aos Romanos. Os anjos foram criados para servir aos homens dentro de todo propósito do Senhor. Assim sendo, não há maior alegria para eles do que ver um eleito se convertendo. O tamanho da alegria deles sem dúvida é proporcional à tristeza causada a eles pela queda de Adão.
No entanto, diferente de nós pecadores, mesmo redimidos, que temos ainda dificuldades de descansar no propósito perfeito e infalível de Deus, eles se mantêm inabaláveis no ânimo e na esperança. A mesma proporção da alegria deveria ser sentida pelo pecador redimido no momento de sua conversão. A intensidade seria inversamente proporcional ao que experimentou Adão quando se percebeu caído e expulso da presença de Deus. No entanto, por jamais termos vivido a perfeição, não podemos aquilatar exatamente o que seria o retorno a tal estado. Nossa volta é, por enquanto, parcial.
É fato que já experimentamos a redenção, mas apenas em alguma medida. Somente no retorno de Cristo é que viveremos plenamente a salvação. A proporção usada por Jesus, um para noventa e nove, deve ser considerada. Será que nosso Senhor está distinguindo figuradamente a “porcentagem” de eleitos e perdidos? O número cem, como múltiplo de dez, significa uma multidão enorme. Jesus estaria distinguindo a importância superior do eleito, em pequeno número se comparado à “massa da perdição”, que são os ímpios? Nesse caso, a referência a “justos” seria irônica, como aqueles que buscavam a salvação por seus próprios esforços. O contexto, que mostra a murmuração de fariseus e escribas devido a Jesus estar com publicanos e pecadores (Lc 15.1) favorece essa interpretação.
No entanto, há outra possibilidade. Na Parábola da Ovelha Perdida Jesus está aludindo à responsabilidade de um pastor quanto a cada ovelha. Seria insano acreditar que ele abandonaria no pasto noventa e nove ovelhas para ir procurar uma que se perdeu. As Escrituras fazem narrativas sintéticas, isto é, valendo-se de conhecimentos prévios do público-alvo, focando apenas aquilo que é relevante. Dessa maneira, na época de Jesus, todos sabiam que o pastor guardaria as ovelhas em um aprisco, para então, ir buscar a que se perdeu. Caso contrário, seria expor à perda noventa e nove por causa de uma. Isso não parece inteligente.
Entendendo, assim, a figura que Jesus utiliza, alguém pode considerar que todas as ovelhas pertenciam a ele. Nesse sentido, a proporção não seria entre eleitos (“um”) e perdidos (“noventa e nove”), mas entre salvos (“noventa e nove”) e um eleito ainda não alcançado ou desviado. De qualquer forma, o centro de toda argumentação está na conversão, na fé, na salvação de um eleito. Essa é a maior alegria.
Diante dessa argumentação, é importante refletirmos onde está a nossa maior felicidade. Será que, a exemplo dos santos anjos de Deus, experimentamos nossas alegrias mais intensas relativas sempre à salvação dos eleitos, nossos irmãos? Uma vez que nossa alegria está associada à nossa vontade, será, então, que a conversão dos eleitos é aquilo que nós mais desejamos? Certamente, os anjos a anseiam para a glória do único Senhor e Salvador, o que deveria ser também a nossa perspectiva.
Percebamos, assim que o arrependimento de um pecador é algo tão tremendo e miraculoso que se trata de acontecimento festejado não apenas na terra, mas também nos céus. Aqui não se refere, apenas, ao arrependimento quanto a um erro cometido, mas por toda uma vida. É a consciência de que se viveu enganado, investindo os melhores e maiores esforços em coisas mais do que fugazes e passageiras, verdadeiramente destrutivas, coisas que desagradam a Deus.
Os homens fazem distinções. Mesmo na comunidade do Deus que não faz acepção de pessoas, as deferências são comuns. Confundimos aprovação com grandeza. Os que são alcançados por Deus são os humildes, não os ensimesmados. O sucesso profissional e o acúmulo de bens materiais são muito mais valorizados na sociedade humana do que o caráter aprovado pelo Senhor. Tal influência é perceptível na própria igreja atual, quando se percebe que seus líderes são, em proporção cada vez maior, os que têm mais posses e status na sociedade.
A grandeza conforme o homem é desprezada por Deus. Aqueles que mostram que verdadeiramente foram alcançados pelo Senhor são os de coração quebrantado, que percebem seus pecados e se arrependem, aqueles que têm consciência de sua própria insignificância e não se acham grandes na presença de seu semelhante, muito menos perante Deus.
É impressionante que o crente de hoje, ainda que tenha consciência de seus pecados, parece sempre agir baseado em alguma justiça pessoal e meritória diante do Senhor. Achamo-nos, muitas vezes, dignos da atenção divina e dos seus incontáveis favores. Isso explica a alta taxa de crentes frustrados com Cristo. Esperavam que ele fizesse o que foi pedido, mas no fim, foi exatamente o revés. Somente alguém que acredita que merece o favor do Salvador poderá ter alguma “decepção” com Deus. Qual o valor de um ser humano? Numa época em que a vida é tão banalizada, esta pergunta deve ser respondida não pelo espírito de nossa época, mas pelo Espírito de Deus.
Hodiernamente, ficamos estarrecidos com a multiplicação de ocorrências hediondas contra nossos semelhantes, praticadas por pessoas que se encontram mortas interiormente, desde que nasceram. Indivíduos que se esforçam por viver o exterior, pois o interior é morte. A sociedade está sempre disposta e em prontidão para se associar àqueles tidos como mais dignos em sua leitura. Muitos deles, mostram-se pessoas reprováveis em sua ética e moral, mas nada que a “milagrosa maquiagem” do dinheiro e da influência não possa encobrir.
Todavia, não se vê o mesmo empenho para com aqueles que necessitam desesperadamente de apoio, pessoas que caminham na borda do precipício. Às vezes, jovens que clamam por ajuda, mas, não têm, em si mesmos a força necessária para a mudança de rumo em suas vidas. Na primavera da vida vivem, constantemente, no deserto de suas almas. Os ímpios, de forma geral, vivem vida vazia, tentando desesperadamente preenchê-la com algum tipo de objetivo que venha a dar sentido à existência. São culpados por atos praticados na busca da sobrevivência em seu “eu” insólito. Aqueles que aos olhos da própria sociedade alcançam alto nível de podridão, tais frutos decompostos da vida causam certo ceticismo no próprio meio social com relação à possibilidade concreta da restauração de suas almas.
No entanto, entendamos que a “moeda” do reino de Deus é chamada “alma”. O que tem valor para o Senhor são almas arrependidas, que ouviram a voz do Salvador. Em uma geração na qual as coisas valem mais do que as pessoas, o Evangelho de Cristo continua a ser a contracultura necessária para a afirmação da verdade diametralmente oposta àquilo que crê o ímpio. Uma vida vale mais que o mundo inteiro. Temos a responsabilidade como seres humanos de transcender a nós mesmos e atuarmos em prol do nosso semelhante, mormente, aqueles que mais necessitam. Essa é uma das maiores marcas da verdadeira fé em Jesus Cristo.
A igreja deve ser despertada para atuar sempre como aquela que promove as festividades do céu, como instrumento da conversão de muita gente. Os anjos, seres espirituais que têm sua própria existência atrelada ao serviço dos eleitos, regozijam-se enormemente pela conversão de um pecador. Ora, se eles se alegram com a salvação de seres de outra espécie, quanto mais nós deveríamos transbordar de alegria pela conversão de nosso semelhante! Sejamos luz neste mundo! Falemos de Cristo a tempo e fora de tempo. Vivamos a Cristo em todas as ocasiões. Deus, o Espírito, acrescentará a cada dia os que vão sendo salvos: terra e céus em júbilo. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus (Rev. Jair de Almeida Junior).
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