Descansar à sombra do Onipotente
“O que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente” (Sl 91:1).
Talvez uma das maiores dificuldades que tem o crente atual é entender o que é, e assim, o que deve ser sua vida com Cristo. O fato de existirmos em um mundo caído parece interferir exageradamente na disposição do nascido de Deus. Devemos entender que, sim, vivemos em uma esfera de mundo caído. Sofremos ainda os efeitos da queda, os tormentos do pecado, dores e morte. Porém, isso tem que ser entendido na perspectiva de quem habita o esconderijo do Altíssimo.
A forma veterotestamentária de enfrentamento dos problemas é a ênfase da segurança que temos em Deus. É muito comum observarmos figuras aplicadas ao relacionamento que temos com o Senhor destacando exatamente isso, quando Yahweh é metaforicamente afirmado como nossa fortaleza, refúgio e esconderijo. Tais cenas têm como ambiente a guerra, quando o povo era forçado a correr para se abrigar em alguma cidade fortificada. Nesse sentido, Jerusalém firmada no monte Sião, é também uma figura da proteção e do acolhimento que temos em Deus. Não por acaso que seu nome significa “fundamento da paz”. Paz é o que experimentam aqueles que encontram em Deus seu refúgio, sua fortaleza, seu esconderijo. É a descrição da vida do nascido do Espírito. Assim, somos estimulados a nos refugiar no Senhor.
Embora a figura sugira a necessidade de refúgio, não significa que estamos em fuga, como se o inimigo fosse mais poderoso do aquele a quem pertencemos. O próprio Antigo Testamento também afirma: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo? O Senhor é a fortaleza da minha vida; a quem temerei?” (Sl 27:1). A experiência de Eliseu diante dos exércitos inimigos, transmitida ao seu discípulo, foi: “Ele respondeu: Não temas, porque mais são os que estão conosco do que os que estão com eles” (2 Re 6:16). Orou pelo moço para que enxergasse a realidade espiritual e então o Senhor concedeu ao jovem contemplar miríades de anjos ao redor deles.
A experiência da queda foi brutal. Adão não “caiu”; ele despencou em um abismo profundo e inescapável, do qual homem algum pode sair por si mesmo! Da segurança inabalável da perfeição em Deus ao desamparo de viver por e para si mesmo no pecado. A vergonha, que é medo de exposição, sentimento de vulnerabilidade, e o medo da condenação, foram as primeiras sensações do homem caído, aquilo que acompanha todo pecador, sem exceção.
Todavia, quando convertidos, não estamos mais exilados de Deus, banidos de sua presença, mas voltamos a desfrutar da vida com o Senhor, retornando à condição de “filhos”. A fé tem que nos trazer segurança, que tem como fundamento a paz: viver na Jerusalém celestial mesmo neste mundo. Esse é o esconderijo do Altíssimo! Essa e a experiência de estar à sombra do Onipotente! É saber e crer que pertencemos ao único Deus verdadeiro, soberano sobre tudo e todos.
O Novo Testamento aprofunda ainda mais essa verdade. João destaca a segurança que devemos ter no Senhor afirmando exatamente seu poder e autoridade incomparáveis: “Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo” (1 Jo 4:4). Aqui está algo que não fica muito claro nas afirmações veterotestamentárias: não estamos simplesmente na defensiva. Esse é o ponto que falamos no início, que parece que o crente atual não percebe. Não estamos em fuga no mundo, procurando um lugar para nos esconder, como se fôssemos o povo derrotado. Conforme diz o apóstolo Paulo: “Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou” (Rm 8:37). A vitória já nos está garantida! Nem mesmo a morte é para nós problema!
Dessa forma, devemos considerar nossa disposição de ânimo. Embora donos incontestes de uma vitória irrevogável, o crente tantas vezes parece viver como derrotado. Ele precisa aprender a viver a realidade espiritual, muito acima de suas experiências sensoriais e físicas, ou seja, buscar se alegrar e exultar nos prazeres de alma. Envolver-se com as causas espirituais e viver o mundo espiritual que se descortinou a ele desde sua conversão, trilhar sendas unicamente por meio de fé. É a vivência do novo mundo, nova criação de Deus, no qual fomos introduzidos quando fomos transportados do império das trevas para o reino do Filho do amor de Deus.
Vivamos a paz e a confiança! Não deixe a aparente maioria contrária e ímpia sufocar sua alegria no Espírito! Não permita que a pregação incessante da impiedade e do pecado tragam insegurança à sua vida santa! Não se torne passivo diante da dor e do sofrimento, se entregando como se alguma força desse mundo pudesse subjugar seu Deus e anular aquilo que ele já efetuou irreversivelmente em você. Creia! Viva! Lute! Seja feliz! Não renuncie à paz que excede a todo entendimento, a experiência de quem habita no esconderijo do Altíssimo. Tenha um dia abençoado na presença daquele que venceu a morte e o diabo
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