A arquitetura de nossa vida
“Porque, como imagina em sua alma, assim ele é” (Pv 23.7).
O ser humano é uma sombra, um fantasma daquilo que foi originalmente. No entanto, há resquícios em sua alma morta que o ligam ainda ao passado glorioso. O mesmo sábio que escreveu o verso epigrafado, também afirmou: “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Ec 3.11). A eternidade que o Senhor colocou no coração de Adão foi sua presença, sua habitação.
Quando as Escrituras falam de “eternidade” relativa ao homem não é no sentido temporal, mas existencial. Entendamos que o Senhor é o único que é eterno realmente. Ele não tem princípio de dias, nem encontrará um dia o seu fim. No sentido temporal, apenas Deus é eterno. No entanto, seres humanos são infinitos, isto é, não encontrarão aniquilação, como se a morte fosse o retorno ao nada. Nossa vida é chamada de “eterna” porque é a existência na presença plena de Deus. Assim, antes da queda, Adão habitava a eternidade, ou seja, junto de Deus, exatamente o que nos espera na consumação dos tempos. Deus como que empresta sua existência eterna para nós, que vivemos unidos a Cristo.
Por isso, nossa vida é na eternidade, embora não seja temporalmente eterna, mas infinita. É importante considerarmos que há no homem esses sinais, essas cicatrizes de outrora, algo que o liga a coisas inimagináveis, muito além de sua capacidade de compreensão. Dessa forma, quando pensamos naquilo que Salomão diz no verso em epígrafe, devemos entender que o ensinamento toca em coisas além da pequenez do entendimento humano, que ecoam a própria eternidade, a existência junto ao Senhor. Certamente, a afirmação se torna relevante ainda mais para o salvo.
O ser humano caído tem diante de si a hercúlea (“sansônica”?) construção de sua vida. No entanto, ao desprezar Deus como o engenheiro e arquiteto de sua existência, assumiu para si tais funções, perdendo-se nos infinitos desenhos e estilos, nenhum deles em formato próprio para o edifício criado para refletir Deus em suas formas. O homem olha ao seu redor e percebe vários estilos de vida, diversas arquiteturas da existência, e tem enorme dificuldade em se fixar em algum deles. O que ocorre, não raro, é a mistura de várias influências, tornando-se difícil compreender algum padrão definido.
Certamente, as formas de um edifício devem ser definidas por sua função. Uma igreja deve parecer uma igreja, um fórum, um fórum, uma padaria, padaria, e assim por diante. A importância da aparência foi completamente perdida para dar impulso a um total relativismo. Acabar com padrões, e a aparência é um dos mais importantes, está no centro das ideologias anticristãs modernas. Quanto mais chocante e fora de padrão forem as coisas e pessoas, mais aprovadas e louvadas são para a sociedade.
É verdade que a força da aparência ainda é sentida na arquitetura, mesmo que com objetivos puramente comerciais e capitalistas, como a utilização da aparência de “templo” aplicada a alguns shoppings centers, suposta forma subliminar de incentivar o consumo a adoradores de Maamom. Os modelos de arquitetura da existência, assim, deixaram de ser os tradicionais, formatados especialmente pelo cristianismo como produtor e modelador da sociedade ocidental.
Com a chegada do pós-modernismo e o advento das mídias, da globalização, da rede mundial em tempo real, influências das mais adversas transformaram não apenas comportamentos, mas, até mesmo, o objetivo de vida de muitos híbridos culturais. Em meio a tal turbilhão de influências, o evangelho permanece o mesmo, do mesmo Deus verdadeiro que nasceu em figura humana como Jesus Cristo. O cristão tem o desafio de construir sua vida segundo a planta fornecida pela imutável Escritura. No entanto, devido ao oferecimento de tantos modelos e materiais diferentes, serão muitas as tentações para misturar alguns estilos. Porém, jamais devemos perder de vista o poder que há em ter claramente definida a planta de sua vida.
O verso epigrafado destaca o quanto a visão que se tem de si mesmo interfere naquilo que se é, ou, o que se pretende ser. Projetar uma visão correta de si mesmo é muito importante. Contrariamente, vemos o poder do autoconvencimento para o mal, quando o indivíduo acredita que está doente ou que está perdendo alguma capacidade. Somos seres extremamente influenciáveis, por pensamentos próprios e por outras pessoas. Esta é outra forma de analisar essa questão: a nossa aproximação de outros. Por exemplo, aqui mesmo em Provérbios, Salomão também ensina: “Não te associes com o iracundo, nem andes com o homem colérico, para que não aprendas as suas veredas e, assim, enlaces a tua alma” (Pv 22.24, 25).
Sermos seres humanos caídos significa dizer que ninguém aprende a fazer algo errado: todo pecado já está em nós. Um pecado específico precisa ser apenas despertado. Lembro-me do testemunho de uma irmã que costumeiramente pegava lotações (vans de transporte) em São Paulo, onde as pessoas conversavam alto e usavam palavrões para se expressar. Com o tempo, contou ela, embora não falasse os palavrões, disse que tais palavras de baixo calão começaram a vir à sua mente quando estava indignada com alguma coisa.
As pessoas que estão ao nosso redor nos influenciam com o pecado, pois o pecado está no ser humano. Não é comportamento aprendido. Todo filho de Adão tem a maldade em si para cometer os pecados mais hediondos, bastando para isso o contexto que real e verdadeiramente o estimule àquilo. Davi, o homem segundo o coração de Deus, não apenas adulterou com Bate-Seba, mas também tramou a morte do marido dela. Daí a necessidade da vigilância e do reconhecimento das próprias fraquezas. Mais do que isso, de projetar um “eu” segundo a vontade de Deus, conforme sua Santa Palavra e mirá-lo constantemente como o edifício a ser construído em nossa vida.
Aqueles que precisam perder peso às vezes colocam a foto de alguém magro em lugar sempre visível para estimulá-los ao objetivo. No caso do crente, deve ser a foto de si mesmo, idealizada segundo as Escrituras. Mas há aí uma grande diferença. Mesmo um não crente, por sua força de vontade, pode perder peso. Todavia, no caso da construção da vida do salvo, é o poder do Espírito Santo na aplicação da Palavra em nossa vida que edifica. Temos na mente, no coração, como devemos ser: a silhueta de Cristo aplicada à nossa alma. Buscando a comunhão incessante com Deus serei transformado à semelhança de nosso Senhor.
Na construção de nossa vida, nossa parte é ter uma vida devocional de qualidade, almejando ser como Cristo, tendo isso como projeto de vida. Deus, o Espírito, será o engenheiro, o arquiteto e o pedreiro de minha vida. Imagine-se homem perfeito, segundo as Escrituras, em todos os lugares que você está em seu quotidiano, em todos os seus relacionamentos. Esse é o seu alvo. Deus o fará exatamente assim, transformando-o constantemente. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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