“Ter” ou “não-ser”, Eis a Questão
“Louvai ao SENHOR, vós todos os gentios, louvai-o, todos os povos. Porque mui grande é a sua misericórdia para conosco, e a fidelidade do SENHOR subsiste para sempre. Aleluia!” (Sl 117).
Louvar ao Senhor está associado à gratidão e ao deslumbramento resultantes de conhecermos realmente a Yahweh. A utilização do nome de Deus, sempre referido no Antigo Testamento pela palavra “SENHOR” dessa forma, com todas as letras maiúsculas, denota e destaca o conhecimento pessoal, quando nos relacionamos com alguém que podemos chamar pelo nome. É atitude vista como invasiva chamarmos pelo nome alguém a quem ainda não fomos apresentados. A soberba desse ato se mostra na superioridade e na vantagem de ser portador de um conhecimento que a outra parte não possui. Se um desconhecido nos chama diretamente pelo nome há uma sensação desconfortável, de vulnerabilidade, clara desvantagem, porque não sabemos o nome de quem nos chama. A sensação é de invasão de nossa privacidade.
Conhecer o nome, portanto, é conhecer a pessoa, é saber quem ela é. O nome identifica a pessoa, sendo um signo que representa o indivíduo, que traz consigo o conhecimento mínimo que identifica o sujeito. É por isso que o Senhor revelou seu nome, dando a seu povo a oportunidade de conhecê-lo pessoal e profundamente. Quando o Senhor revela seu nome a Moisés está assim abrindo-se a um relacionamento, verdadeiramente se apresentando.
Yahweh é conhecido e revelado estritamente no ambiente de sua aliança com o povo de Israel, por seus compromissos pactuais refletidos em sua misericórdia e em sua fidelidade. Quando o ser humano conhece verdadeiramente ao único Deus verdadeiro há, primeiramente, o deslumbre com o seu Ser santo e perfeito. Amamos ao Senhor para além de meros sentimentos: com a própria vida. A conversão nos dá a capacidade de contemplar o Senhor na beleza de sua santidade, ligando-nos a ele com senso de gratidão eterna.
O louvor, que pode também ocorrer em forma de música, declara nosso compromisso de servi-lo prazerosa e alegremente, por termos acesso ao seu Ser e por reconhecer suas incontáveis bênçãos em nossa vida. É curioso observar a exortação do salmista, incentivando todos os povos da terra a louvar o Senhor. Primeiramente, devemos entender que isso ocorre por só haver um Deus sobre toda a terra. YAHWEH é o Deus de todos os povos. Na verdade, o fato de os pagãos praticarem idolatria, nada mais mostra do que a tentativa humana de, pelos seus próprios esforços, alcançar o único Deus. É o que a Teologia convencionou chamar de semen religiones, a semente da religião presente no coração de todo ser humano, a tentativa do pecador de preencher o vazio de sua existência que apenas o verdadeiro Deus pode preencher.
O homem natural sabe da existência de Deus, o que é chamado de sensus divinitatis, que, por sua vez, é também resultante da imago Dei, da imagem e semelhança de Deus no homem. Como a busca da divindade pelas próprias capacidades humanas se mostra infrutífera, procura ser compensada com a fabricação de inúmeros deuses, como se, por algum deles pudesse acertar.
Embora o SENHOR tenha sido revelado a Israel, não é o Deus de um único povo, mas de todas as nações. O povo de Deus, no Antigo Testamento, tinha a responsabilidade de manifestar esse Deus à toda terra. Pela vida reta e obediente, seria tamanha a bênção sobre os israelitas que os outros povos viriam a Jerusalém conhecer o Deus deles. É chamado “missões ao contrário”, pois ao invés de serem enviados missionários às nações, eram as nações que viriam a Jerusalém, atraídas pela glória de Deus no povo. YAHWEH é celebrado no salmo pela sua “misericórdia” e sua “fidelidade”. Estes são termos técnicos da aliança. Expressam a atitude do SENHOR para com aqueles que procuram andar de forma obediente, resultado de uma fé verdadeira.
Não é questão de mérito, mas de graça. Nenhum ser humano alcançará o direito de viver, pois é falho e pecador. Assim, todas as bênçãos de Deus ao seu povo acontecem no contexto da aliança. Em outras palavras, mesmo constituído de pecadores, seu povo recebe bênção quando se esforça e se dedica na vida espiritual. Na realidade do Antigo Testamento, a prosperidade espiritual dos israelitas, que resultaria o pleno suprimento material, era a condição para que o nome do Senhor fosse proclamado a outras nações.
Como vimos, era exatamente esse o meio pelo qual os outros povos enxergariam o poder do Senhor. De certa forma, isso também se aplica a nossas vidas. A prosperidade material, isto é, uma vida que tem o suficiente para viver sob o cuidado de Deus, não tem o fim de apenas nos abençoar, mas de mostrar aos ímpios a mão de Deus sobre nós, real testemunho para eles. O tamanho: “mui grande”, e a duração: “subsiste para sempre”, da fidelidade e da misericórdia de Deus, mostram que não estão restritas a esta terra, mas indicam a posse da vida eterna.
No entanto, a ênfase na vontade humana e no próprio homem ao invés de na vontade de Deus e no próprio Senhor tem feito com que o próprio povo da aliança, nós, deixemos de experimentar a glória e a profundidade das mais valiosas bênçãos advindas do fato de sermos família de Deus. Curiosa e lamentavelmente, o próprio Deus denuncia ao povo a causa disso: “Assim, por ti mesmo te privarás da tua herança que te dei, e far-te-ei servir os teus inimigos, na terra que não conheces; porque o fogo que acendeste na minha ira arderá para sempre” (Jr 17.4).
Não é o Senhor que não quer nos abençoar ou que decide simplesmente reter seus favores, mas é o povo, nós, que, por nosso próprio procedimento nos afastamos da aliança. Quando começamos a colher os amargos frutos do afastamento, acusamos Deus de ter nos abandonado, ou pior, de ter falhado. Assim: “A estultícia do homem perverte o seu caminho, mas é contra o SENHOR que o seu coração se ira” (Pv 19.3).
Busquemos ao Senhor com integridade de vida, procurando fazer todas as coisas para a glória dele. O homem busca “ter” para ser aquilo que acredita que deve, quando é o “não-ser”, a negação de si mesmo, que resulta a verdadeira vida. Abandonemos qualquer projeto que enfatize a nós mesmos e nossas vontades e gostosamente nos entreguemos à vida com Deus. Certamente experimentaremos tanta paz, alegria indizível, verdadeira libertação de nossas próprias cobiças e pecados, a leveza daqueles que já morreram para o mundo e para si mesmos. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus (Rev. Jair de Almeida Junior).
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