Conversões improváveis
“Antes que os espias se deitassem, foi ela ter com eles ao eirado e lhes disse: Bem sei que o SENHOR vos deu esta terra, e que o pavor que infundiu caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desmaiados” (Js 2.8, 9).
Um grande problema para o crente é pensar como um não-regenerado. A questão que aqui se destaca não é ter o pecado como norma ou objeto do pensamento, mas limitar a realidade apenas àquilo que é pertinente à razão humana. Colocando isso de outra forma, pensamos somente dentro do possível, isto é, dentro daquilo admissível à mente, esquecendo-nos de que nosso Deus é o Deus dos impossíveis. Certamente, temos que colocar algum padrão à ocorrência da impossibilidade, pois, se fosse algo recorrente, seria então normal e possível, comum à nossa existência. No entanto, faz parte do milagre o ineditismo, a excepcionalidade, a raridade, o sobrenatural.
Assim, não vemos atos grandiosos de Deus, quebrando a ordem natural deste mundo caído, com tanta frequência. No entanto, pela graça de Deus, há somente um milagre, incomparável que é, que ocorre com constância no meio dos homens. Por isso, geralmente não é categorizado como milagre. A conversão é um novo nascimento, na verdade, nova criação de Deus, momento quando o Santo Espírito do Senhor coloca suas “mãos” em nós e nos refaz à medida e estatura de Cristo. Sem sombra de dúvidas, o milagre da criação é maior do que uma cura ou um emprego.
É comum aos crentes selecionar por meio da razão aqueles a quem vão comunicar a Cristo. Dessa forma, traçam um perfil daqueles que podem ser “convertíveis”, tomando como base o comportamento que apresentam. Assim, se alguém se entrega às impiedades de maneira mais dedicada, esse, provavelmente, não é um eleito. Será mesmo? Será que a não-eleição se manifesta em mortos espiritualmente por meio de atitudes pútridas? Será que há conversões mais fáceis para Deus efetuar, e outras mais difíceis? Ou será que o Santo e Soberano Espírito de Deus sopra onde quer?
Devemos esperar a conversão e investir na vida de todos os que ainda não conhecem a Cristo, acreditando piamente que a graça é irresistível e o chamado é eficaz. Sendo um eleito de Deus, não importa se é alguém conhecido como virtuoso ou se imoral e mentiroso, o Espírito não tem qualquer dificuldade com sua conversão. Ele não necessita de métodos, nem de estratégias, apenas de um crente sincero e verdadeiro, cuja boca fala do que está cheio seu coração: Cristo.
A conquista de Jericó é uma das histórias bíblicas mais conhecidas. A peculiaridade de sua tomada é o que se destaca na história. Era uma cidade fortificada, cujas muralhas eram intransponíveis. Apenas pelo favor sobrenatural de Deus a seu povo é que elas ruíram. Exatamente por isso, a narrativa da tomada da cidade é uma das mais contadas e celebradas entre as crianças nas igrejas. A sabedoria de Deus é evidenciada ao colocar uma barreira intransponível como primeira tarefa para o povo na conquista da Terra Prometida. Foi proposital, para dar aos israelitas a oportunidade de confiar e experimentar o poder de Deus. Os israelitas haviam acabado de testemunhar a divisão do rio Jordão em época de cheias, quando se tornava um rio caudaloso e de fortes correntes. O Senhor os fez passar a pés enxutos, assim como havia feito no Mar Vermelho. Teriam já esquecido daquilo? As dificuldades sempre são, diante de Deus, oportunidades para crescermos na fé e na confiança.
Para ter informações mais precisas sobre aquela cidade fortificada, Josué envia dois espias a Jericó, a fim de sondar qual seria a melhor opção para tomá-la. Esse é o momento em que uma personagem altamente improvável entra em cena: Raabe, a meretriz. Certamente, trata-se de uma eleita de Deus. Sua fé pode ser percebida por algumas inferências no texto. Primeiramente, ela se alia aos espias. Jericó era uma fortaleza inexpugnável. Embora ela confesse o medo que o povo sentia dos israelitas, devido ao relato daquilo que Yahweh havia feito ao Egito e nos tempos em que a nação esteve no deserto, a cidade não seria tomada facilmente. Os moradores de Jericó sabiam que, humanamente, estavam seguros ali. Comprova esse fato que foi unicamente por meio do poder de Deus que os hebreus conseguiram invadir e conquistar a cidade.
Percebe-se claramente que Raabe realmente confiou sua vida a Yahweh, pois se os habitantes da cidade descobrissem os espias em sua casa certamente seria morta. No entanto, ela creu no poder de Deus que era mais do que capaz de fazer cumprir suas promessas quanto ao seu povo. O acordo de Raabe com os espias não incluía, tão-somente, poupar sua vida quando da tomada da cidade, mas passar a fazer parte do povo, o que incluía a adoração ao Deus da Aliança. A conversão de Raabe está pressuposta em ter sido incluída na genealogia de Cristo (Mt 1.5). Não seria admitida uma pessoa ímpia na linhagem do Messias. Ser incluída na árvore genealógica de Jesus mostra destaque, pois não era comum ao hebreu colocar mulheres em genealogias, o que se aplica também ao fato de ser estrangeira, algo que certamente não agradaria aqueles que se orgulhavam de ser descendência de Abraão. No entanto, destaca-se a maravilhosa graça de Deus.
O verso epigrafado explicita que Raabe cria na promessa da Terra, declarando sua fé em que Yahweh realmente cumpriria o que havia dito ao povo. A compreensão da soberania de Deus transparece. Raabe não vê como algo ilícito a doação da terra aos israelitas, mesmo estando seu povo habitando ali. Está implícito que ela compreendia que toda terra pertence ao Senhor, tendo assim o direito de dá-la a quem quiser. Ela não se revolta contra a vontade de Deus, mas prontamente se submete e se modela a ela, buscando o agrado do Deus verdadeiro. Certamente, os caminhos de Deus são muito, mas muito, mais altos do que possamos supor e entender. Sua eterna eleição e o poder purificador da redenção em Jesus Cristo surpreendem por seus alvos e eficácia. A tomada da Terra Prometida tem início em meio à conversão de uma prostituta estrangeira.
Aprendamos que não existe impedimentos ou práticas facilitadoras para a ação do Espírito Santo. Deus age soberanamente chamando aqueles a quem ele mesmo escolheu, ainda que chocando as preferências humanas. A intrincada mente do Senhor arquiteta ações que envolvem a coletividade, isto é, seu povo, mas muitas vezes por atos que envolvem a individualidade. É assim que o eterno propósito de Deus, não raro, inclui a agência de pessoas altamente improváveis, mas usadas pelo Senhor e contadas no propósito de salvação. Dessa maneira, uma estrangeira e meretriz passou não só a pertencer ao povo, mas foi também incluída na genealogia de Cristo. Eis o tamanho do poder de Deus! Quem jamais imaginaria tal coisa? Uma ocorrência como essa se torna icônica, representativa daquilo que o Senhor pode fazer. Se uma Jericó surgir diante de nós como obstáculo intransponível, creiamos no poder de Deus para fazer cumprir seu propósito eterno.
De igual forma, jamais duvidemos que o Senhor pode converter alguém. Certamente, está longe de dizer que é nosso direito acreditar que ele converterá quem nós quisermos. Cabe-nos, tão-somente, anunciar o evangelho com fé, crendo no poder de Deus, e esperar que ele faça a sua vontade. Nada há de mais tranquilizador para aquele que evangeliza do que ter a plena certeza que, se se tratando de um eleito de Deus e for o momento determinado pelo Senhor para sua salvação, ele inevitavelmente crerá. Confiemos no propósito soberano de Deus para a nossa vida e daqueles que nos cercam. Anunciemos Cristo a tempo e fora de tempo. Espalhemos a semente da Palavra e veremos novas Raabes e, por que não dizer, Saulos, transformados pelo poder da irresistível graça. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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