Deus Salva Pecadores
“Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor para todo sempre” (Sl 23.6).
Assim se encerra o salmo mais conhecido das Escrituras. Sem dúvida que a nossa necessidade da bondade e da misericórdia de Deus denuncia a nossa vulnerabilidade. Os nossos dias são passados em um mundo amaldiçoado pelo pecado, no qual qualquer aparência de vida se torna já um grande tesouro a ser buscado. O homem natural vive distinguindo densas trevas daquelas que não são tão severas. Estas acabam por atraí-lo, segundo o seu próprio julgamento. É verdade que há aqueles que aprendem a viver na mais pura escuridão. Lembro-me de visitar uma missão em uma aldeia indígena e ter ficado assustado em ver a habilidade dos nativos de, em noite bastante escura, simplesmente abandonar a pouca claridade da lanterna que nos guiava na caminhada por uma rua, para adentrar a floresta densa sem qualquer auxílio luminoso. É assim que o bandido aprende a viver como bandido, também o estuprador e assassino, mas também o mentiroso, o orgulhoso, o enganador. Desenvolvem alguma habilidade para andar nas mais densas trevas.
A humanidade busca por ela mesma estabelecer seus princípios modeladores da vida, mostrando forte tendência de abandonar tudo aquilo que sempre foi reconhecido como virtude, repudiando o modelo de família cristão, o trabalho digno, a luta pela que é certo. Em nossos dias, vê-se dignidade naqueles que nada fazem e vivem às custas de outros, vícios são chamados de doenças, clara tentativa da evitação da culpa. Até mesmo a amargura passou a ser assimilada pelos chamados crentes como algo normal para um filho de Deus. Dentro de um mosaico de diferentes tonalidades de escuridões, cada ímpio tenta compor um quadro para sua existência. Viram as costas a Deus, aquele que é misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e de grande clemência: “Benigno e misericordioso é o SENHOR, tardio em irar-se e de grande clemência” (Sl 145.89).
O Salmo 23 é um cântico de louvor a Deus que claramente exalta o seu cuidado para com os que são seus. Davi, para mostrar seu conhecimento pessoal do Senhor, faz questão de utilizar o nome de Deus, isto é, Yahweh. Ele o retrata como pastor de seu povo, figura bela de proximidade, proteção e suprimento. Nos primeiros versos, o Senhor é descrito como aquele que cuida, alimenta e dessedenta levando a pastos verdejantes e águas de descanso. O pastor podia, literalmente, dar a sua vida pelas ovelhas. Naquela época, vários eram os predadores em Israel, desde leões, leopardos e ursos, até as matilhas de lobos, tradicionais “inimigos” do rebanho. Para o enfrentamento das feras, o pastor valia-se tanto do bordão quanto do cajado. Tratava-se de uma lança, e da base do cajado, respectivamente. Dessa forma, para enfrentar predadores do rebanho, o pastor virava o cajado com a base para frente, tornando-se bastão capaz de poderosos golpes, na outra mão, a lança.
Corrigindo a visão de Davi que muitas vezes se passa às crianças, um magricelo baixinho, na verdade tinha a estatura normal de um hebreu. Ele apresenta como credenciais para lutar contra Golias o fato de ter enfrentado um urso e um leão para proteger suas ovelhas (1Sm 17.37). A armadura de Saul ficou grande nele não porque Davi era pequeno, mas devido a Saul ser bem alto. O salmista compõe o texto lembrando-se de sua própria experiência como pastor. Prefigurando Cristo o fez, mostrando o cuidado de Jesus com as ovelhas que ouvem a sua voz e o seguem. Ele os supre e guarda. Mesmo quando a morte se avizinha, ele está ali. Diante dos inimigos, é ele quem nos confere a vitória eterna, que extravasa em muito a presente vida.
É por isso que a misericórdia e a bondade de Deus são citadas. Trata-se de dois “termos técnicos” da aliança, indicando o favor de Deus, expresso no seu cuidado não apenas no sustendo terreno, mas as bênçãos espirituais da aliança. Jamais abandonam os que pertencem ao Senhor, aqueles que procedem fielmente. O salmo, portanto, fala do Deus da aliança como o responsável por zelar, guardar e suprir o povo que com ele é pactuado. No entanto, não devemos perder de vista o fato de que quem o escreveu era um pecador, a ponto de ser proibido de construir o Templo. O que lhe foi dito pelo Senhor é que era “homem sanguinário”. Essa referência possivelmente reconhece em Davi certo gosto pela violência e desconsideração pela vida. Manifestava “requintes de crueldade” com seus inimigos em algumas ocasiões. Jarretou animais, inutilizando-os para que seus inimigos não mais pudessem fazer uso deles. Em certa ocasião, cortou duzentos prepúcios de filisteus para oferecer como dote pela mão de uma das filhas de Saul (1 Sm 18.27). Aparentemente, agia de forma excessivamente brutal.
Além disso, Davi também se mostrou adúltero. Não se arrependendo de seu adultério, tornou-se ardiloso e impiedoso, capaz de tramar a morte de um servo que lhe era fiel, Urias, marido da mulher com quem havia adulterado. Percebe-se em tudo isso que se deixou seduzir pela glória de seu reinado e colocou-se acima da Lei, adulterando com Bate-Seba e arquitetando o assassinato do seu marido. Também deixou de sentenciar seus filhos: Amnon, pelo estupro de sua meia-irmã, e Absalão, por matá-lo. Por fim, mostrou-se extremamente soberbo, ordenando que seu exército fosse contado para gloriar-se no seu poder militar (2 Sm 24.1ss). É difícil imaginar que um homem assim aspirasse as moradas eternas. Certamente, Deus salva pecadores.
Longe de fazer apologia ao pecado, é importante entender que não há ser humano algum nascido da descendência de Adão que conseguirá evitar totalmente o pecado. Todavia, jamais devemos nos acostumar ou nos acomodar a ele. Quanto mais evitarmos os impulsos pecaminosos, melhor nos será. Agradaremos ao Senhor e o nosso coração se revestirá de grande alegria. Temos que buscar viver lutando contra a iniquidade, mas sem deixar que nossa fraqueza nos roube a felicidade de viver com o Senhor. A bondade e a misericórdia estarão sobre todos os que buscarem a Deus com integridade. Elas nos seguem como guarda-costas, poder e a providência do Senhor sobre nós. Tenha um excelente dia na presença de Jesus (Rev. Jair de Almeida Junior).
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