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domingo, 2 de novembro de 2025

FIDELIDADE

 Fidelidade mesmo no sofrimento

"Eu sou o homem que viu a aflição pela vara do furor de Deus" (Lm 3.1).
É provável que Lamentações seja um dos livros das Escrituras menos lidos. Seu nome não é nada convidativo, ainda mais quando se compreende que é devido às aflições causadas pelo próprio Deus. O Senhor havia reprovado seu povo e agora o corrigia. Sabemos que as dores, dificuldades e sofrimentos caracterizam essencialmente esta existência. O próprio Cristo advertiu seus discípulos, afirmando que “basta ao cada dia o seu próprio mal” (Mt 6.34).
É necessário entender, portanto, que em todos os nossos dias há algum mal. Não poderia ser diferente, pois somos pecadores e habitamos em um mundo amaldiçoado pelo pecado. O que ocorre é que, tendo perdido a perfeição há tanto tempo, não havendo nada em nossa experiência terrena que seja perfeito, nos acostumamos com a miséria ainda que a plenitude e o esplendor da humanidade caída na vivência de suas maiores alegrias. Somos como berberes que se alegram ao ver uma flor no deserto.
Desse ponto de vista, mesmo o dia no qual recebemos grandes bênçãos, ainda assim houve males, pois pecamos. Tratando-se de pecados de menor consequência, acreditamos que aquele dia foi “perfeito”, pois miramos somente a satisfação de nossa vontade nos benefícios recebidos. Falando de dor e de sofrimento, devemos também compreender que ocorrem de forma diferente na individualidade e na coletividade. No primeiro caso, há pessoas que parecem destinadas ao sofrimento. Acumulam-se sobre elas situações atrozes, dores e perdas que parecem se multiplicar, enquanto há outros que vivem seus dias com sofrimentos mais leves e espaçados.
Aprendamos que as bênçãos de Deus estão ligadas, também, aos sofrimentos que teremos que enfrentar, consequentes de maus atos nossos, bem como, ao propósito de Deus para nossa vida. É curioso observar as bênçãos que Jacó proferiu sobre seus filhos ao final do livro de Gênesis. Algumas delas mostravam mais dores do que alegria, consequentes de pecados cometidos anteriormente, que precisariam ser tratados. No entanto, o propósito específico do Senhor para alguém, como um missionário, pode trazer grandes dificuldades.
Certamente, nossas dores e sofrimentos não estão atrelados, tão-somente, a pecados específicos cometidos. Há muitas outras variáveis muito acima daquilo causado pelo sujeito. Atos de pais e antepassados podem gerar um ambiente de privação, como a perda de uma grande propriedade pela negligência e irresponsabilidade daqueles que deveriam administrá-la. Há incontáveis casos de famílias outrora abastadas, cujas descendências vivem hoje na pobreza.
Viver em sociedade significa sofrer com a negligência e o pecado alheios, não apenas de pais, também de nosso próximo, como embarcar em ônibus cujo motorista não dormiu suficiente naquela noite ou o ser operado por cirurgião usuário de drogas. O anúncio do mal de cada dia, da frequência e alternância diferentes na vida de cada um, anuncia também uma grande bênção: Deus está no controle. Acontecerá exatamente aquilo que já está determinado. Ainda que sofra muito, como é a experiência do profeta Jeremias no texto epigrafado, não esqueçamos jamais: Deus está no controle.
Não apenas indivíduos, mas também há povos que sofrem mais do que outros. Jeremias é exemplo de uma ocasião de grande mal coletivo, quando o povo foi levado para o cativeiro Babilônico. Incontáveis pessoas nasceram e morreram em períodos da história quando o sofrimento imperava. Há cerca de um século, muitas doenças faziam com que a expectativa de vida humana não passasse de quarenta, quando muito, cinquenta anos, mesmo em regiões de países que hoje são chamados desenvolvidos. Guerras trouxeram grande carestia, sofrimento e doenças, e o custo de milhões de vidas no século passado.
É verdade que a agência humana pode impor pesado sofrimento coletivo. Porém, ainda há as intempéries: secas, enchentes, furacões, tsunamis, terremotos, epidemias. Os sofrimentos de um dia são o resultado de todas essas variáveis. No entanto, a imprevisibilidade dos acontecimentos, mesmo aqueles que podem ser antecipados pelo intelecto e pela ciência, não resulta qualquer aleatoriedade: Deus está no controle.
Todo sofrimento para um salvo é provação ou correção. No primeiro caso, afirma-se a fidelidade do crente, quando o Senhor permite a dificuldade e a perda como forma de aperfeiçoar, ainda mais, a vida espiritual. No segundo, ficam explícitos a falha e o pecado, ocasião em que Deus se utiliza do expediente da dor para conduzir um filho à reflexão e ao arrependimento. Eis o motivo por que se cristalizou na igreja a utilização apenas do termo “provação” para descrever todos os sofrimentos.
É mais confortável para o que sofre chamar os problemas de “provação”, pois assim não se sente acusado por sua consciência. Grande risco para a saúde da vida espiritual é o vitimismo, quando um crente ao em vez de se ver como autor do mal, coloca-se apenas como sua vítima. Se chamo de “provação” o que é realmente uma “correção”, além de perder a oportunidade de emendar minhas atitudes, consolido o pecado em minha vida. O crente não quer mudar! Espera que o Senhor mude, aceitando sua vida torta.
O sofrimento vivido por Jeremias e por todos os genuínos crentes é evidência de que o Senhor verdadeiramente os ama. É oportuno compararmos a vida desse profeta com a de Jó, alguém que igualmente sofreu terrivelmente. Ao ladearmos esses dois personagens, notamos clara disjunção: enquanto Jeremias sofria especialmente por causa da infidelidade do povo, Jó era atormentado por sua fidelidade. Nisso temos um grande ensinamento: o sofrimento caracteriza a vida de todos. A fidelidade não é um salvo conduto contra as dores e perdas. Certamente é melhor sofrer por ser justo do que por ser injusto. Mas, qualquer que seja o caso, devemos entender que quando somos alcançados pela vara de Deus isso não é obra de um deus sádico, que se diverte com o nosso sofrimento.
Na verdade, o Deus verdadeiro quer sempre o nosso bem e não tem prazer nem mesmo na morte do ímpio. Se somos afligidos para correção ou provação, reconheçamos nisso algo que pretende o nosso bem. Ao invés de nos revoltar contra o Senhor e blasfemar seu santo nome, dobremos nossa vontade querendo a vontade de Deus. Isso é negar-se a si mesmo, anular seu próprio eu, encher-se de Deus, de sua Palavra, de seu propósito. Aproveitemos para aprender a descansar no Senhor e a conhecer mais seu amor e misericórdia. Tenha um excelente dia na presença de Jesus (Rev. Jair de Almeida Junior).

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