Juízes e deuses
“O escarnecedor não gosta daquele que o repreende; não irá ter com os sábios” (Pv 15.12).
Embora saibamos que a Palavra de Deus foi concebida pelo Espírito Santo como resposta para todas as nossas questões existenciais, ficamos mais e mais admirados com sua abrangência e precisão. Certamente, todos nós já vimos pessoas que são ácidas para criticar todo mundo, mas não admitem que alguém lhes aponte seus próprios erros. Na verdade, pessoas que são exageradamente críticas são exatamente aquelas que não suportam que alguém lhes aponte qualquer falha. É estritamente disso que Salomão está falando já naquela época.
Devemos entender corretamente esses conceitos. O “escarnecedor” geralmente não se vê assim. Em outras palavras, não tem essa concepção quanto a si mesmo. Essa é uma primeira dica que deve nos levar à autoanálise. Ele é sempre visto pelos outros, mas se nega a perceber aquilo que não é conveniente saber sobre sua própria pessoa. No entanto, são aqueles que me rodeiam que saberão se sou ou não um escarnecedor. É necessariamente assim, pois “escarnecedores” são aqueles que criticam com extrema facilidade aquilo que os outros fazem. Na maioria das vezes, não maldizem diretamente à pessoa à qual criticam, mas àqueles com quem tem contato, geralmente do mesmo grupo de amizade daquele a quem maldizem.
É interessante que a palavra do português “crítica” está ligada à raiz da palavra grega crísis, que quer dizer “julgamento”. Criticar alguém é proferir julgamento sobre ele, na maioria dos casos, sentença condenatória. É notável que o termo em si não seja negativo, pois é possível falar bem de alguém. Colocando isso de outra forma, é perfeitamente aceitável “julgar” alguém beneficamente, reconhecendo acertos e virtudes. No entanto, criticar já soa como negativo, a ponto de exigir qualificar a crítica como “positiva” quando a intenção é construtiva.
A conclusão óbvia a que chegamos é que, devido à maldade humana, na grande maioria das vezes que alguém vai falar de outro, fala mal. O objetivo é destrutivo. O que se pretende é destacar o mal que o outro faz, não o bem que realiza. Dificilmente vemos pessoas exaltando algo de bom feito por algum conhecido em comum. Geralmente, o “julgamento” é sempre uma sentença condenatória, algo que despreza e diminui aquele de quem falo, e, consequentemente, exalta a minha pessoa como melhor, pois o que fica é que as meras palavras condenatórias quanto ao ato alheio são a prova contundente de minha superioridade.
Essa é, necessariamente a nossa leitura. Destacar os erros alheios é também um meio de desviar os olhares dos outros da vida daquele que fala. De certa forma, colocar os holofotes sobre os erros de outros dá-me a conveniente oportunidade de me ocultar nas sombras. Quando pomos em relevo o erro do irmão ou próximo subjaz a afirmação de que não apenas condeno tal coisa, mas também, que não a pratico. Toda crítica maldosa é maledicência e tem como objetivo a exaltação daquele que critica. Contudo, é surpreendente que o escarnecedor tenha uma marca indelével, a prova inconteste que não deixa dúvidas de quem ele é.
Como já vimos, o “crítico” contumaz acha-se juiz de todos os homens. Um dos grandes problemas de ser juiz é conter a própria soberba e arrogância. O poder de decidir sobre a vida alheia é um atributo divino. Somente Deus é aquele que tem o ofício de julgar a todos. É certo que ele confere autoridade aos homens para julgar. É por isso que o judiciário tem o aval divino para existir e operar justiça. No entanto, mesmo os que julgam sob a autoridade divina têm extrema dificuldade com a própria soberba, pois o exercício do ofício os assemelha à própria divindade.
Quando críticos, os “escarnecedores” indicados pelo sábio, desandam a boca contra alguém, sentem-se como “deuses” a sentenciar o destino dos pecadores. No entanto, exatamente por assumirem a condição de juízes de seu próximo, jamais aceitam sentar-se na cadeira dos “réus”. Assim, acham-se no direito de “descer a língua de dois gumes” em tudo e todos, mas ai daquele que ousar falar, ainda que honesta e sinceramente, dos erros que o escarnecedor comete, apontar-lhes seus pecados.
Para poder acusar os outros, o escarnecedor tenta desesperadamente apresentar-se como ilibado, inocente de qualquer acusação. Olhando essa realidade por outro prisma, tornam-se senhores da justiça, acima e imunes à própria lei que dizem defender e aplicar. É por isso que se tornou comum dizer que há juízes que acham que são deuses, bem como, aqueles que têm certeza. Esse mesmo risco corre também os ministros do evangelho. Portadores de verdades absolutas, podem se ensoberbecer acreditando que o fato de serem ministros de Deus os coloca acima da Palavra anunciada. Se assenhoram das Escrituras como um instrumento manuseado por eles, ao invés de entendê-las como crivo sob o qual estão todos os mortais.
A proximidade de Deus pode levá-los à confundir intimidade com usurpação, como aquele que, por desfrutar da intimidade do lar de um amigo, acha que pode tratar as coisas da casa como se fossem suas. Certamente, esse foi o motivo de Deus ter colocado um espinho na carne em Paulo, algo que o humilhava, que mostrava sua pequenez e limitações. Deus não trabalha com hipóteses. Não existe tal categoria para aquele que já tem tudo determinado. Isso quer dizer que, de fato, Paulo se tornaria soberbo, se não lhe fosse colocada uma situação que o humilhasse.
Todo aquele que se envaidece devido ao poder que tem, quer seja no legislativo, na medicina, na igreja, passa longe da verdadeira sabedoria. Mostra-se estulto, verdadeiro tolo, afastado de Deus e da verdade. Não será contado entre os sábios, mas sempre entre os tolos. Evitar a verdade quanto a si mesmo é insurgir-se contra a verdadeira sabedoria e contra aqueles que a possuem.
Como se diz: “a melhor defesa é o ataque”. O “escarnecedor”, via-de-regra, não considerará a acusação que lhe é feita, mas fará de tudo para desviá-la, desacreditando aquele que o critica por meio de ataques que visam destacar em seu acusador o mesmo erro que lhe é imputado, ou outro ainda maior. Sua estultícia também se manifesta nisso, pois toda acusação é uma oportunidade de autoanálise e correção. Quando criticados por alguém deveríamos ouvir atentamente o que ele diz. Como diz Davi: “Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas” (Sl 19.12).
Nem sempre temos competência, imparcialidade, maturidade, para medir nossos próprios atos e palavras. Por vezes falhamos! O parecer do outro é sempre bem-vindo. Como crente piedoso, haverá ocasiões que concordarei plenamente com a acusação, buscando a correção do meu erro. Outras, sinceramente perceberei à luz das Escrituras que não agi de forma errada.
Tratando-se de uma crítica real e verdadeira, deveríamos, até mesmo, agradecer aquele que aponte o erro em nossa vida, jamais o contrário. O crente é aquele que busca sempre o acerto, a oportunidade de fazer o bem, a vida justa e aprovada, tudo para a glória de seu Senhor.
Cuidemos com aquilo que falamos. Não sejamos críticos céleres em destacar o erro alheio. Olhemos sempre mais para nós mesmos do que para o outro, no que diz respeito àquilo que é feito. Para ajudar a tirar o cisco do olho de nosso irmão é necessário, primeiro, considerar o caibro que está diante de nossos olhos. Se enxergarmos as nossas próprias faltas, certamente agiremos de forma correta com o nosso semelhante. Longe de ignorar os erros que ele comete, saberemos tratá-lo da forma adequada. Busquemos no Senhor coração íntegro, sincero e humilde. Não nos arroguemos como juiz daqueles que nos cercam. Saibamos não apenas ver, mas tratar os nossos próprios erros como os dos nossos irmãos, sem soberba ou arrogância. Certamente, isso colaborará para a unidade da igreja e a bênção de Deus sobre todos os nossos relacionamentos. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus (Rev. Jair de Almeida Junior).
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