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terça-feira, 18 de novembro de 2025

TRABALHO

 O trabalho segundo Deus

“Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo” (Jo 6.27).
É curioso que o ser humano, por vezes, associe o trabalho a algo impositivo, obrigatório. De certa forma, o é, mas não como uma mera prática associada à necessidade. Antes de tudo, o trabalho é essencial ao homem. Quando dizemos “essencial”, entenda-se “relativo à sua existência”. Colocando isso de outra forma, é algo que ele não pode deixar de fazer, quase como comer ou dormir. O trabalho faz parte da “imagem e semelhança” de Deus no homem. Certa vez, nosso Senhor afirmou: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Jo 5.17). Deus não tem chefe e não está obrigado a fazer qualquer coisa para suprimento próprio. Ele não perde nada e em nada pode ser acrescentado. Ele não necessita de suprimento ou qualquer manutenção. No entanto, faz parte de sua essência produzir, criar, atuar. O ser de Deus é “dinâmico”, não “inerte”.
Dessa forma, Adão foi criado para o trabalho, não como algo que o escravizava, nem mesmo, como uma necessidade primária para a sobrevivência. No seu estado de perfeição, não morreria. O trabalho era para ele algo inevitável, que pulsava em seu ser, assim como é no ser de Deus. Diferente dos anjos e demais seres espirituais, ao homem foi dada capacidade “criativa”, transformando e interagindo com o mundo criado, produzindo novas coisas. Uma cadeira de madeira foi uma árvore! Um carro é o resultado da transformação criativa de vários elementos da criação.
Deus criou Adão e o colocou em um jardim. No entanto, boa parte do desenvolvimento criativo humano deverá ser preservada na ressurreição, pois o destino eterno do homem será passado em uma Cidade Santa, com todo o seu desenvolvimento. Deus criou a partir do nada; os homens criam, transformando o que existe. Foi o próprio Criador que lhe conferiu tal capacidade.
É verdade que a queda trouxe uma grande mudança também em relação ao trabalho. Agora, sem esforço o homem não comerá. O sustento diário vem por meio do esforço de cada um. O trabalho é o meio ordinário, comum, de o Senhor prover o “pão nosso de cada dia”. Percebemos assim, que o trabalho passou também a ser ordenado. O mandamento do descanso é, antes, o mandamento do trabalho: “seis dias trabalharás”. Dessa forma, se alguém não trabalha, não espere ser sustentado pelo esforço alheio. O crente jamais deveria se sujeitar a tal situação. É mau-testemunho, a experiência de uma vida desordenada. Como Paulo afirmou: “Porque, quando ainda convosco, vos ordenamos isto: se alguém não quer trabalhar, também não coma” (2 Ts 3.10). O trabalho se tornou necessário para a sobrevivência e para a subsistência humanas.
Certamente, quando a Escritura fala de “trabalho” não está indicando estritamente o trabalho remunerado. Há muitos trabalhos que são necessários, e não-remunerados. A esposa/mãe que faz o almoço, o marido/pai que lava seu carro ou faz um conserto em sua casa, o aprendizado teórico e prático etc. O que aconteceria em uma ordem perfeita, não como necessidade, agora acontece pelo esforço e como precisão.
Dessa forma, o trabalho é comum a todo ser humano. Todos os dias, sua lide é marcada por uma rotina que impõe a utilização da maior parte do tempo com afazeres profissionais. Geralmente se levanta cedo e vai dormir tarde. Também o tempo em que não está trabalhando, é provável que o gaste com algo relativo à sua vida profissional, como algum curso. Mesmo o cuidado com a saúde às vezes é pensado em função de sua carreira, quando se confessa a necessidade de exercícios físicos porque a pessoa percebe que já não está produzindo tanto como outrora. Portanto, Jesus ordena novamente o trabalho, mas, agora, um “novo mandamento”.
Como vimos, no Decálogo sagrado o quarto mandamento já ordenava o trabalho: “seis dias trabalharás, mas no sétimo descansarás”. Dessa forma, tal ordem regulamenta o trabalho diário, a vida profissional como é chamada em nossos dias. É importante dizer que Cristo não está se opondo a isso, nem mesmo substituindo o antigo mandamento. Nossa lide diária e nossa carga de trabalho semanal devem ser equacionadas a fim de que não se constituam na imposição de uma “autoescravidão” ao trabalho. É exatamente a devida proporção do trabalho, que evita a dedicação excessiva, que regulamenta o quarto mandamento. Na verdade, a exortação de Jesus aos judeus de sua época baseia-se no grau de importância que era dado ao trabalho profissional, comparado à dedicação deles à vida espiritual.
Como o trabalho produz resultados financeiros, muitas vezes, mesmo o crente, muda o foco de sua dedicação, passando de Deus para si mesmo. Max Weber chega mesmo a reconhecer o calvinismo como um enorme impulso ao capitalismo, quando percebe exatamente essa mudança de prioridade nas gerações que se seguiram à chegada dos primeiros peregrinos aos Estados Unidos. Fugindo da perseguição na Inglaterra, os puritanos vieram para a América com a intenção de fundar uma sociedade segundo as Escrituras.
Dessa forma, trabalhavam com a dedicação daqueles que estão servindo ao Senhor, fazendo tudo para a glória de Deus. O resultado, então, era notável. Todavia, o coração deles não estava no lucro, mas na vocação de servir ao Senhor com a própria vida. Contudo, analisa Weber, as gerações que se sucederam foram desviando os olhos de Deus para o lucro. Continuaram a trabalhar assídua e dedicadamente, não mais para o Senhor, mas para suas próprias ambições.
Entendamos que a prevalência da vida espiritual sobre a vida física é notória nas Escrituras. Embora não devamos descuidar da saúde do corpo, tem que ser com a alma a nossa principal preocupação, pois a falência do organismo inevitavelmente ocorrerá. Contudo, quando examinamos o texto mais de perto, percebemos que nosso Senhor não está falando de ganância. Ao invés disso, sua intenção é corrigir o foco do entendimento do povo da época. É importante observar que Jesus não está exortando quanto ao trabalho para enriquecimento. Seu alvo é o esforço para a subsistência, isto é, o trabalho para garantir, tão-somente, a comida.
A exortação de Cristo é para que labutemos antes pela refeição eterna que é ele quem dá. Quanto a isso, na sequência dirá explicitamente que ele é o próprio alimento, ou seja, o “pão vivo” e o “pão do céu” (vs. 31ss), alusões claras ao maná do Antigo Testamento personificado nele. Enquanto o maná sustentou a vida terrena dos israelitas no deserto, Cristo como pão do céu concede e sustenta a vida eterna. Os judeus precisavam entender o que significa: “nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”. A ordem impõe trabalho contínuo para suprimento da vida espiritual. Contextualizando aquilo que nosso Senhor ensina na passagem, percebemos o quanto a geração atual de crentes está distante disso. Percebe-se o tempo passar célere. Os corações vivem atribulados com inúmeras preocupações profissionais. A vida se torna sinônimo de trabalho. Para a maioria das pessoas, se lhes for tirado o trabalho, fica sem referencial. Deus nos livre disso!
Devemos desenvolver a vida profissional, mas sem a cobiça das grandes coisas, sem nortear nossa própria existência por elas. A conversão verdadeira nos liberta também da escravidão das cobiças profissionais, da busca da própria afirmação diante dos outros, de demonstrar sucesso material para louvor na sociedade. Cuidado para não travestir sua ganância do agrado do Senhor, como se seu sucesso profissional fosse para a glória de Deus! Se você chegar a alcançar riquezas materiais devido ao seu trabalho, que seja pelo propósito de Deus para sua vida, não por suas próprias cobiças. Era o judaísmo que acreditava que riquezas eram sempre sinônimo da bênção de Deus, não o cristianismo. Precisamos corrigir o foco.
Geralmente, atribui-se o resto do tempo para os exercícios espirituais diários, o que necessariamente trará aridez à alma. No entanto, se dedicarmos tempo do nosso quotidiano à comunhão com Deus, passaremos momentos gostosos de fortalecimento e refrigério. Diariamente seremos esvaziados de nossas preocupações pela confiança reafirmada e inabalável em Cristo. A incidência do pecado em nossa vida será menor, pois seremos santificados na presença diária do Senhor. Certamente seremos paulatinamente transformados em pessoas melhores, mais agradáveis no trato, experimentando a paz que excede todo entendimento que só em Jesus pode ser desfrutada. Ao invés de vivermos a escassez do deserto espiritual, vivamos a abundância daqueles que beberam da água da vida e se tornaram fontes a jorrar para a vida eterna. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus (Rev. Jair de Almeida Junior).

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