O Tempo da Misericórdia
“Se observares, SENHOR, iniquidades, quem, Senhor, subsistirá? Contigo, porém, está o perdão, para que te temam” (Sl 130.3, 4).
A queda de Adão trouxe o distanciamento entre o Criador e o ser humano. Há um abismo intransponível que separa o homem de Deus, o que torna impossível, além de qualquer realidade, um pecador alcançar a divindade por suas próprias forças. No entanto, além do fato terrível do banimento da humanidade caída, há um efeito que piora ainda mais essa situação: a alienação do pecador. Em outras palavras, o homem perdeu a consciência da existência do Deus verdadeiro.
Boa parte dos ímpios sabe que existe algo ou alguém, mas não tem qualquer ideia concreta e real de quem ele é, um vulto, um vácuo e um mistério. Primeiramente, quando a humanidade estava mais sensível à realidade de um mundo espiritual, tal alienação se dava pelo desvio, levando o indivíduo a constituir seus próprios deuses, fabricá-los e se curvar diante deles. Dessa forma, criava sua própria fé, um mundo espiritual especulativo, imaginativo, de deuses que refletiam o próprio pecado daqueles que os adoravam.
Com o advento da Revolução Francesa e do modernismo, a razão suplanta a fé e se torna o grande ídolo e deus da atualidade. Todas as coisas necessariamente devem passar pelo crivo e a medida do intelecto humano, tornando-se a medida e o padrão de toda “verdade”. Dessa forma, tudo o que não pode ser explicado pelo homem assumiu a categoria da não-existência. Por isso, para muitos contemporâneos, Deus, céu e inferno, anjos, ressurreição, o diabo, não existem. Foram produto da imaginação em uma época quando a razão ainda não tinha subsídios suficientes, dados e conhecimento, para explicar as verdades básicas necessárias para a existência, aquilo que é chamado de “cosmovisão”.
Conquanto hoje não vemos mais os pecadores produzirem religiões da mesma forma como ocorria há alguns séculos, os homens têm seus deuses e ídolos, ainda que não no formato “tradicional” de estátuas, mas no perfil de coisas, práticas e pessoas. Essa é a terrível consequência do afastamento do Deus verdadeiro: perderam a consciência de quem ele é, passando a viver dentro de um mundo pessoal. Cada pecador assumiu o papel de criador de seu próprio universo, com seus próprios deuses, leis, ética, moral, “verdades”, valores e tesouros. Age consciente ou inconscientemente como o deus supremo de sua vida, cuja vontade rege todos os demais deuses e ídolos que constitui.
O status do pecador quanto ao conhecimento do verdadeiro Deus não é como a consciência de algo que perdeu, mas que se procura. Ao invés disso, experimenta, genuíno esquecimento. O Senhor foi apagado por seres que não querem mais se lembrar dele, a despeito do seu testemunho constante já a partir de tudo o que foi criado. A despeito disso, todos estão debaixo dos olhos escrutinadores de Deus, diante de quem toda a existência é julgada.
Olha o Senhor do alto, e o que vê? Uma espécie de formigueiro redondo, onde inúmeros seres se acotovelam cada vez mais à procura de seu próprio espaço. Vê desvarios dos mais variados e obras que causam algum bem comum. O que Deus observa é o que fazem os pecadores. O problema para os seres humanos se agrava quando nos lembramos que o Senhor é um perfeito observador. À sua vista não escapa nada. Isso inclui não apenas o visível e o tangível, mas também os pensamentos e desejos ocultos, as alegrias impuras e perniciosas do coração e os pensamentos mais baixos que a mente pode produzir.
Quando consideramos o que é o ser humano, percebemos a necessidade da morte. Não é possível haver qualquer oportunidade de sociedade para pecadores se a morte não existir. É ela que faz com que o tempo e as obras sejam preciosos na mente de um pecador. Se não fosse por ela, um indivíduo poderia se atrever a coisas ainda piores na certeza de que nada lhe aconteceria. Já imaginou o que o homem poderia fazer se soubesse que jamais morreria? É a morte que diferencia a experiência de um descendente de Adão da de um anjo caído. Este sabe que sua condenação virá, tão-somente, no fim. Não se preocupa com as consequências imediatas de seus atos. Ele experimentará o juízo apenas ao final da história do pecado no mundo.
Porém, os seres humanos colhem diuturnamente antecipações de juízo como consequências de seus atos que, em muitos casos, são mortais. Não é por acaso que o dilúvio sobreveio ao mundo por causa de terem se multiplicado os pecados. De igual forma, devido ao ser humano se tornar tão pecador, Deus limitou o tempo de sua vida para conter a onda de iniquidade. Quão desastrosa se transformou a existência deste ser criado à imagem e semelhança de Deus, tornado semelhante aos demônios em seu proceder!
Todavia, embora o pecado seja tão destacado e explícito até mesmo aos olhos obtusos de seres humanos, o aguçado olhar do Senhor que a tudo vê não retribui imediata e definitivamente a impiedade dos homens. Pelo menos, não por enquanto. Isso não quer dizer, por outro lado, que Deus está “vermelho de raiva”, bufando quase descontrolado, contando os segundos para descarregar sua ira avassaladora sobre o mundo de pecado. Ele continua em seu alto e sublime trono em seu perfeito humor. É ele quem conduz a história e já determinou o momento exato, segundo a sua própria vontade, quando cobrará dos homens os seus atos.
Conquanto a natureza pecaminosa não desculpe a nenhum descente de Adão, ainda mais se falamos de crentes, Deus sabe das dificuldades que enfrentamos conosco mesmo para ser obedientes. O Senhor tem consciência de como nos desviamos com facilidade, o quanto somos atraídos pelo “diferente”, como crianças que entram em loja de brinquedos. O pecado, muitas vezes, nos fascina. Não significa, porém, que há um olhar compreensivo por parte de Deus, como se entendesse que o homem é assim mesmo e aceitasse o fato passivamente. O Criador não o fez assim.
O que acontece é que a misericórdia de Deus tem seus dias contados. Dará lugar à ira, ou seja, o Senhor não executa seu juízo definitivo na história, reservando-o para o fim. Daí destacar o salmista que a Deus pertence o perdão, para que os pecadores o temam. O que ele quer dizer com isso é que o Senhor, ao aplicar seu juízo apenas ao final, dá ocasião e oportunidade de arrependimento ao ser humano, a chance de viver de forma obediente e piedosa para evitar o pior e irreversível. Sua vida, então, mostrará se há fé sincera em seu interior ou não, se Cristo raiou em seu coração para o dia eterno.
Por fim, algo surpreendente que se percebe a partir do texto hebraico é que o salmista se dirige a Deus primeiramente fazendo uso de seu nome Yahweh, depois, referindo-se a ele como Adonai. Geralmente quando há uma distinção entre os termos, o segundo torna-se clara referência ao Messias. A superposição dos termos no salmo sugere que se faz referência ao Messias no ser de Deus, exatamente aquele que pode satisfazer a nossa necessidade de justiça diante de Yahweh. De qualquer forma, é fato que somente em Cristo há remissão de pecados e justificação. Não há poder maior do que aquele que resulta salvação. Qual o tamanho do temor que devemos ter diante do único que pode livrar da morte eterna? Louvado seja Deus pelo tempo que dá ao ser humano para que se arrependa. Ouçamos a voz do Senhor em nossos corações e andemos por caminhos retos. Tenha um excelente e abençoado dia na presença de Jesus (Rev. Jair de Almeida Junior).
Nenhum comentário:
Postar um comentário