Nossa real satisfação
“Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma” (Sl 42.1).
O homem caído é um ser necessitado, verdadeiramente miserável. Em que se transformou a criatura mais gloriosa já feita, cujo molde foi o reflexo do próprio Deus! A continuidade do homem se tornou a sucessão no tempo, a perda da eternidade. Em seu estado de perfeição, Adão habitava na eternidade do próprio Ente divino. Não havia substituição, o dar lugar a outro existir, como é o nosso tempo nesta terra. Sem o pecado, a humanidade apenas aumentaria e se expandiria, o que a levaria, talvez, a ocupar todo o universo. No entanto, caída, o planeta se tornou o viveiro da humanidade. Entendamos que eternidade é viver apenas na dimensão do espaço.
No entanto, o ser mortal vive no tempo e no espaço. O tempo dá ocasião para que outro ocupe o mesmo espaço. Dessa forma, a morte limita o número de seres humanos, bem como, coloca um freio à expansão do pecado. Essa é a miséria que foi resultante da pior escolha já feita na história do universo. O corpo glorioso e eterno foi degradado em matéria que se degenera, se desintegra para voltar ao pó.
Portanto, a miséria essencial ao homem faz dele um explorador em busca da sua saciação. Investe seu tempo e dinheiro, seus maiores e melhores esforços, na obtenção de coisas terrenais, sem jamais conseguir preencher o vazio de sua alma. Apenas Cristo tem o poder de saciar todas as necessidades humanas, o que resulta existência ainda parcial no agora, mas plena na eternidade. Certamente, é por isso que os elementos mais essenciais para a preservação da existência humana caída são tipificados em Deus. Não há nada mais essencial à vida do que o oxigênio: “Se ocultas o rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó” (Sl 104.29).
Curiosamente, tanto o Hebraico (“ruah”), quanto o Grego (“pneuma”) significam tanto “ar” ou “vento”, quanto “espírito”, referindo-se à alma, mas também à Terceira Pessoa da Trindade. Quando o Criador soprou o fôlego de vida em Adão, doou também seu Santo Espírito. Dessa forma, assim como o ar é vital para a preservação desta subsistência humana, Deus é essencial para a verdadeira vida. De forma análoga, Cristo é figurado na água em várias ocorrências neotestamentárias, como diante da mulher samaritana (Jo 4.14) e quando Jesus estava na Festa dos Tabernáculos (7.37-38), já antecipadas no Antigo Testamento, como a água que saiu da rocha para saciar a sede dos israelitas no deserto.
Devemos entender este importante princípio: o homem caído não se basta! É um necessitado! E a única maneira de saciá-lo verdadeiramente é a fé em Jesus Cristo. Quem nasceu na planície jamais sentiu o hálito fresco das montanhas. Nós tomamos como o normal e como padrão aquilo que nós conhecemos como sendo o comum para a grande maioria. O ser humano é mutável, não em sua essência, mas em seus conceitos e comportamento.
Assim, lembro-me que em minha adolescência pensava que tipo de loucura levava alguém a um seminário. Hoje, como pastor, sei que o evangelho é loucura, mas para o mundo. Tendo como normal e padrão a impiedade, o não-crente não concebe o evangelho como modo de vida viável. Ele precisa ser convencido e transformado pelo Santo Espírito de Deus. Uma vez salvo, é necessário compreender que ainda continuamos neste mundo caído e mal. Tal realidade ensejou a súplica de nosso Senhor: “não peço que os tire do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo 17.15). Quando percebemos, portanto, que ainda estamos em um mundo de trevas, concluímos que temos que vigiar constantemente. Ainda habitamos em um deserto!
A figura do deserto é muito própria e usada pelo Senhor exatamente para representar a era atual da igreja. No deserto, por quarenta anos, Deus guardou e sustentou sobrenaturalmente seu povo com maná, codornizes e água da rocha. Por isso, em Apocalipse Deus leva sua igreja para o deserto a fim de guardá-la até o retorno de nosso Salvador (12.14). Deserto é onde Deus guarda sua igreja! Nossa necessidade de Deus não é suprida como se alcançássemos a perfeição, mas na forma de um suprimento contínuo.
A perfeição não pressupõe a misericórdia, mas apenas a graça e a bondade. Misericórdia pressupõe a miséria, constituindo-se atributo típico de Deus para a história do mundo caído. O Deus Criador age por bondade e graça, mas o Deus Salvador atua também por misericórdia. Dessa forma, diferente de Adão perfeito, que contava apenas com a graça e a bondade do Criador, hoje nós também contamos com a misericórdia do Salvador.
O ser-humano pretendeu ir além de sua própria essência, quando aceitou o convite do diabo para causar a si mesmo um upgrade existencial, deixando de ser criatura e tornando-se um deus para si mesmo. O homem acha que sua pretensa autonomia de Deus lhe traria felicidade e até uma espécie de libertação. Contudo, na verdade, qualquer que já tenha experimentado a presença real do Senhor é capaz de ver o que Adão perfeito jamais poderia: o que é a vida com Deus do ponto de vista de um redimido em um mundo caído. Este não tem vontade maior do que pertencer ao Senhor.
A vida sem Deus não passa de um grande nada, um vazio de existência. Nesse estado, o ser humano vive por si mesmo, sem esperança e sem futuro. Todavia, quando pertencemos a Deus a alma se encontra em seu pleno vigor. Percebe-se que se vive em continuidade com o Criador, participante do Corpo de Cristo, e que tal ligação indissolúvel concede a eternidade. A vida ganha brilho e os nossos dias se passam em completa esperança da glória porvir.
Engana-se aquele que pensa que a vontade por Deus surge apenas devido aos problemas dessa terra. Ela está presente no cerne da existência, sendo a causa e o motivo do homem caído estabelecer vários deuses e ídolos em sua vida. Sem poder jamais chegar a Deus por suas próprias forças, tornou-se um fabricante de deuses à sua própria imagem. Somente o Espírito Santo de Deus preenche o vazio do coração de alguém. O clamor do salmista por água no meio do deserto é a súplica pelo suprimento para a sua alma. É ela que anseia pelo Senhor como quem está em terra desértica.
Como dissemos, não se trata de beber uma única vez, mas de buscar constantemente em Deus o suprimento e o auxílio. Apesar de convertidos, precisamos diuturnamente do suprimento que vem de Cristo. Todo cristão já passou por isso: momentos em que sente que seu espírito está sedento por perceber que não tem forças em si mesmo para prosseguir. Clamamos para que o Senhor se “materialize” em nosso interior, preenchendo a nossa alma aflita com a sua presença. Só ele dá conteúdo ao espírito.
Busquemos ao Senhor, firmemo-nos nele. Nossa vida resplandecerá, crescendo como a caminhada do sol. Confessemos nossa inteira necessidade de Deus e nossa natural incompetência para lidar com os problemas de nossa existência. Confessemos a Deus que só nele nossa vida faz sentido. Vivamos para a glória dele, exatamente o contrário do que faz o homem sem Cristo. Tenha um excelente dia na presença de Jesus
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