O sobrenome divino
“Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus. Por essa razão, o mundo não nos conhece, porquanto não o conheceu a ele mesmo” (1 Jo 3.1).
Uma das piores consequências do pecado é a sede pelo novo e o diferente. Embora essa busca possa ter alguma nuança positiva, vista na forma de algum progresso, avanço ou desenvolvimento, no plano pessoal é a causa da perda do brilho de coisas que sempre foram e serão maravilhosas. O casamento, figura principal que Cristo toma para ilustrar seu relacionamento com a igreja, já presente no Antigo Testamento na aliança de Yahweh com seu povo, é bom exemplo. Geralmente o casal contrai núpcias completamente apaixonados. A atração sexual está em alta. Baseados na intimidade conjugal, marido e mulher dão seus primeiros passos. Contudo, com o passar do tempo, aquilo que movia à tal dedicação, levando o casal a fazer coisas que não faria normalmente, agora se torna lugar comum. É verdade que casamento não é apenas sexo. O homem se torna pai, e a mulher, mãe. Há outras dimensões de existência que se abrem, novas e preciosas experiências, mas que igualmente vão se tornando simplesmente quotidianas, podendo levar ao sentimento de uma mesmice interminável. Então se busca o novo, o diferente.
Por que o novo e o diferente atraem tanto o pecador? O motivo é o vazio que permanece no coração do homem sem Cristo, cuja sensação conduz o indivíduo a se dedicar a coisas que elege como importantes na tentativa de preencher sua alma. O pecador se acostuma com experiências, por melhores que sejam. Está disposto, prontamente, a trocar algo superior pelo inferior, pelo simples desejo de experimentar algo diferente. Qual a razão de, uma vez destacada na alma do pecador algo tão importante, seu coração não se satisfazer? Porque esse é o lugar de Deus no coração do homem, e nada, a não ser ele próprio, Cristo, realmente o pode preencher.
Na experiência do não-salvo mesmo as melhores e mais preciosas coisas da vida sempre serão insuficientes. No vazio do coração do homem há como que prateleiras onde tenta organizar as coisas que elege como os tesouros de sua alma. No entanto, são objetos postos em um grande vácuo, a tentativa de colocar o recheio onde não há massa. Porém, uma vez que Jesus está no coração de um pecador, todas as coisas da vida se encaixam nele, em seu propósito. A alma do eleito se vê preenchida e organizada. O salvo está unido a Cristo, templo de seu Santo Espírito.
Reparemos que aquilo que ocorre com o ímpio pode também afetar a experiência do verdadeiro crente. À medida que sua vida espiritual se torna deficiente, também diminuirá sua satisfação em Deus. Seus olhares se desviarão do esplendor da intimidade com o Senhor para brilhos menores, coisas que agradam o coração humano. Via-de-regra, se perdermos nossa satisfação em Deus, vamos procurá-la em outros lugares. Esse é um princípio para tudo: casamento, trabalho, igreja...
Aprendamos, então, esta grande verdade: para retomar o valor das experiências genuinamente valiosas, é necessário, primeiro, retomarmos o devido relacionamento com o Senhor, isto é, reconstruirmos nossa vida devocional. É a partir da profunda comunhão com Deus que nossa vida será restaurada em sua plenitude. Dessa forma, reconstruir um casamento, um relacionamento fraternal, reaver a satisfação na igreja ou no trabalho, tudo começa com o aprofundamento da comunhão com Cristo. Há casais que estão em crise e pensam em reconstituir o relacionamento meramente incentivando o romantismo. Isso deve ser feito, mas conscientes que em si só não basta. É vital a retomada da profunda devoção com Deus, na esfera individual e conjugal. De igual forma, o contato fraternal na igreja e o empenho profissional.
Toda essa discussão está ligada à primeira palavra que temos no texto supracitado: “vede”. Trata-se de uma forma imperativa, tornada interjeição, mas que não perdeu sua força. É como se João dissesse: “preste atenção!”. João propositalmente nos exorta a não tirarmos os olhos do amor de Deus por nós. Certamente, não se trata de qualquer amor. É um “grande” amor, incomparável, muito além de emoções, transformado em atos que apenas o próprio Senhor poderia realizar. Jamais devemos nos acostumar com aquilo que fez Deus, por nós, em Cristo.
Este amor sem igual é especificado: “a ponto de sermos chamados filhos de Deus”. Há aqui algo discreto que possivelmente apenas aqueles que conhecem o judaísmo seriam levados logo a compreender. No Império Romano, um cidadão tinha três nomes. Um deles identificava sua família, próximo daquilo que chamamos hoje de “sobrenome”. No entanto, no mundo hebreu, também patrilinear, a identificação da família se dava pela explícita nomeação do pai. Assim, temos “Simão Barjonas”, ou seja, Simão filho de Jonas, em aramaico. Flávio Josefo, grande historiador do primeiro século, era chamado originalmente de José Ben Matias, isto é, José filho de Matias em hebraico.
Quando Cristo começou a fazer sinais e prodígios, perguntavam por sua identidade: “Não é este o filho de José?” (Mt 4.22); “Não é este Jesus, o filho de José?” (Jo 6.42). Pode-se entender: Não é este Jesus Ben (ou “Bar”) José? Dessa forma, quando olhamos para o nosso texto e vemos João dizer que “somos chamados filhos de Deus”, implica dizer que Deus nos adotou seus filhos, prova disso é que nos deu seu “sobrenome”. Cada um de nós pertence à família de Deus, e, por isso, chamado “filho de Deus”. A adoção é reafirmada na sequência do verso: “e, de fato, somos filhos de Deus”.
João, o discípulo amado, prossegue sua argumentação mostrando que essa é a causa de o mundo nos odiar. É certo que um dos maiores esforços do diabo, que usa muitos ímpios como aliados, é acabar com o conceito de família. Há cerca de quarenta ou cinquenta anos, ainda havia grande zelo pelo nome da família. O pai / marido procurava construir um bom e sólido nome para sua casa. Qualquer um que cometesse atos vergonhosos não apenas mancharia o seu próprio nome, mas de toda sua família. O nome da família era um grande tesouro.
Hoje em dia, nem mesmo os pais estão preocupados com isso. O casamento em nossa sociedade está se tornando uma instituição cada vez mais falida, com data de validade. Os filhos, então, jamais ponderam se vão somar à dor que causam a seus pais, a vergonha de seus atos irresponsáveis e inconsequentes. O ódio do mundo contra Deus nos mostra a necessária tomada de posição: nos envergonhamos de Deus por causa do mundo, ou vivemos como amados filhos de Deus, demonstrando nosso amor e devoção vivendo de forma fiel a ele? Cabe aqui a exortação de Tiago: “Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4).
Por isso, assumamos posição junto a nosso Pai, somando forças a nossos irmãos. Somos da família de Deus! Nós é que o conhecemos, não o mundo! Temos o sobrenome divino! Não deixemos jamais que essa estonteante verdade perca seu brilho! Prestem atenção! Não vão atrás de novidades espirituais, litúrgicas, doutrinárias! Fixem seus olhos no amor de Deus, que nos fez seus filhos. Busquem a comunhão profunda com o Senhor e toda sua vida será devidamente organizada. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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