“A mulher, porém, fugiu para o deserto, onde lhe havia Deus preparado lugar para que nele a sustentem durante mil duzentos e sessenta dias” (Ap 12:6).
A mulher de Apocalipse doze, que dá à luz um filho varão que o dragão queria devorar cumpre a primeira profecia das Escrituras, aquilo que ficou conhecido como protoevangelho. Para evitar a vitória de Jesus, o diabo já o queria matar pequeno, o que se viu especialmente por meio da atitude de Herodes, quando determinou que fossem mortas as crianças de dois anos para baixo. Na mitologia hebraica alguns seres simbolizam o diabo. Além do dragão já citado, havia também a serpente e o escorpião e seres ficcionais como o Leviatã. A figura da luta do bem contra o mal transparece por todo Apocalipse, no entanto, não como um embate entre iguais, mas um direcionar da história para seu fim. A igreja foge do dragão para o deserto para ali ser cuidada sobrenaturalmente por Deus.
Deus permitiu a entrada do mal no mundo, por exclusiva responsabilidade de seus agentes, como oportunidade de mostrar seu grande amor. Não existe amor sem sacrifício. Significa sempre dar um passo além, investimento de tempo, recursos, privação etc. No caso de Deus, seu amor está centrado na misericórdia, a inclinação do Senhor de beneficiar e salvar seres miseráveis. Adão, antes da queda, conheceu o poder criador, manifesto na obra que trouxe tudo à existência. Já o homem caído, redimido no sangue de Jesus, conhece o poder restaurador, a soma da força que trouxe tudo à existência com o perdão. Este é poder maior, que restaura a própria realidade. Não por acaso, no Antigo Testamento quando se quer destacar o poder de Deus, se apela para a força que trouxe tudo à existência. Já no Novo Testamento, exalta-se o poder de Deus proclamando a ressurreição, a restauração de todas as coisas, garantida pela obra redentora de Jesus.
Contudo, uma vez realizado o pagamento da dívida dos eleitos na cruz e garantido o perdão de Deus devido a essa quitação, embora já sejamos novas criaturas de uma Criação restaurada e não estejamos mais debaixo da condenação, ainda vivemos em um mundo caído e o pecado permanece interferindo em nossos pensamentos e ações. Igualmente, continuamos no mundo, embora dele não sejamos. Isso impõe a nós dificuldades e sofrimentos típicos de um povo de Deus que ainda habita um mundo de trevas. É nossa habitação do deserto.
O deserto, nas Escrituras, é lugar de experiências marcantes com o Senhor, onde ele mantém seu povo de forma amorosa e misericordiosa. O povo de Israel ficou quarenta anos no deserto, sendo alimentado sobrenaturalmente por Deus. Jesus ficou quarenta dias no deserto, ao final dos quais os anjos vieram alimentá-lo. O deserto é lugar de provação. Geralmente mal entendemos o que é esse conceito. Não raro, imaginamos que o Senhor nos prova para que possa medir a nossa fidelidade, se vamos obedecê-lo ou não. Com toda certeza, aquele que sonda e conhece o nosso coração, que já tem todas as coisas determinadas, não necessita de experiências para concluir qualquer coisa.
Quando vemos textos como: “Recordar-te-ás de todo o caminho pelo qual o Senhor, teu Deus, te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos” (Dt 8:2), devemos entender que quem precisa experimentar e viver a fidelidade somos nós, não o Senhor. Significa dizer que nós é que necessitamos passar pela privação para perceber qual será nossa reação. Em que situação notamos que saber nadar é importante? De igual forma, a importância da fé e da fidelidade é vista nos momentos de perdas e dificuldades, quando somos provados e corrigidos. Os quarenta anos no deserto foram correção, consequência da incredulidade dos israelitas quando os espias regressaram: “Segundo o número dos dias em que espiastes a terra, quarenta dias, cada dia representando um ano, levareis sobre vós as vossas iniquidades quarenta anos e tereis experiência do meu desagrado” (Nm 14:34).
Reparemos que o povo não estava no deserto para ser corrigido, antes era o percurso necessário à Terra Prometida, assim como é para nós, rumo à Canaã celestial. A permanência prolongada dos israelitas no deserto é que foi correção necessária. Dizendo isso de outra forma, é inevitável que estejamos todos no deserto, pois é o caminho para a eternidade com Jesus. No entanto, nosso procedimento interferirá determinantemente no nível de sofrimento que teremos, impondo provações e correções. Correções, quando há desobediência, ou provações, quando há obediência, são ocasiões em que a graça de Deus se manifesta de forma ainda mais exuberante no deserto.
O deserto, nas Escrituras, simboliza a existência na qual há dificuldades e sofrimentos, não apenas aquelas causadas por nossas próprias atitudes e más obras, porém também aquelas próprias do local onde existimos, lugar que impõem as dificuldades e privações de um mundo caído. Isso quer dizer que mesmo o mais fiel ainda passará por dores e reveses exatamente porque está em uma existência de trevas, que tem a morte e os problemas como comuns a todos os seus habitantes. Apesar dos pecados do povo, o Senhor o manteve de forma sobrenatural, não suspendendo o maná, as codornizes e a água da rocha por quarenta anos.
Creiamos no amor de Deus por seus filhos e descansemos nas obras de sua providência: “Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (Rm 8:32). Ele cumprirá seu bom propósito em nossa vida. Confiemos em Deus e adoremos ao Senhor todos os dias por meio da gratidão e da obediência sincera. Embora estejamos todos no deserto desta existência, o Senhor nos mantém sobrenaturalmente. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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