O INFERNO NÃO É PÁREO PARA O AMOR
Como alguns pregadores gostam de falar do inferno! Até a voz e o semblante mudam.
Já ouvi de alguns deles que Jesus falou mais do inferno do que céu. Isso não é verdade.
Recentemente, deparei-me com um desses afirmando que haveria quatro palavras traduzidas por inferno em nossas Bíblias. De fato, há. Mas cada qual aponta para um aspecto específico desta dura realidade que representa o juízo divino sobre a maldade e a injustiça.
O primeiro destes vocábulos é SHEOL, palavra hebraica cuja etimologia aponta para um lugar profundo. Os hebreus o usava para referir-se à sepultura.
O segundo vocábulo é TÁRTARO, que aparece na Bíblia uma única vez, tomado emprestado da mitologia romana. Delimitado por três muros, seria o lugar para onde são enviados os pecadores.
O terceiro vocábulo é GEENA, muito usado por Jesus, e aponta para um lugar de descarte daquilo cujo prazo de validade se perdeu. Trata-se, na verdade, do lixão que havia do lado de fora de Jerusalém. Representa o desperdício de uma existência autocentrada, egoísta e presunçosa.
O terceiro vocábulo é HADES, tomado emprestado da mitologia grega. Trata-se da extensão do domínio da morte que abarca todos os seres humanos.
Coincidentemente, há quatro palavras gregas que são traduzidas por amor, e cada uma delas parece contrapor-se ao significado dos vocábulos traduzidos por inferno. É a estas quatro dimensões do amor que Paulo se refere em sua carta aos Efésios, desejando que todos pudessem compreender plenamente “qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” do amor (Efésios 3:17-18).
Para contrapor-se à profundidade do SHEOL, temos o amor EROS. O que a morte separa, o amor faz convergir com o seu poder atrativo. É desta dimensão do amor que o sábio Salomão diz que é “tão forte quanto a morte”, e o ciúme que dele decorre é “tão inflexível quanto a sepultura. Suas brasas são fogo ardente, são labaredas do Senhor” (Cantares 8:6). Entenda como “ciúme” o zelo responsável que se tem daquilo que atraímos e cativamos. Parafraseando Saint-Exupéry, tornamo-nos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. Somente à luz disso podemos entender o que Tiago quis dizer ao afirmar que o Espírito que em nós habita tem ciúmes de nós (Tiago 4:5). É justamente este zelo santo que não permitirá que a sepultura seja o nosso fim.
Para contrapor-se às delimitações impostas pelos muros do TÁRTARO, temos o amor FILOS com sua abrangência, convidando a todos os seres humanos a desfrutarem da ampla amizade de seu Criador. Trata-se de uma inusitada proposta de reconciliação universal.
Para contrapor-se ao GEENA, temos o amor STORGE cujos vínculos são eternos. Um filho jamais deixará de ser filho. Não existe ex-filho. Laços parentais são perenes. Por isso, Jesus insistia tanto em nos apresentar Deus como Pai. O GEENA representa o inexorável destino dos seres humanos em seu estado pecaminoso, vivendo exclusivamente para si, e não para Deus e para o próximo. Por amor, tal destino é revertido, e o que deveria ser descartado no lixão da existência é reciclado e renovado. O Pai está sempre pronto a receber de volta os seus filhos pródigos. O amor é a única chama que arderá para sempre.
Para contrapor-se ao poder do HADES que se impõe pelo medo, temos o amor ÁGAPE cujo poder se expressa no sacrifício altruísta, sem nenhuma pretensão que não seja o bem de quem se ama. Segundo Jesus, as portas do Hades não prevaleceriam contra quem fosse movido por este amor.
Um Deus que é amor não precisa nos subornar com o céu ou com suas bençãos, muito menos nos chantagear com o inferno ou com maldições para nos convencer a trilhar o caminho da justiça. Se não for capaz de nos atrair com o Seu amor, nenhum outro expediente será usado para nos salvar dos infernos acesos por nosso próprio egoísmo.
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