O que impede que certas feridas se cicatrizem são os atritos constantes. Nada melhor que um distanciamento terapêutico que ofereça o tempo e a paz necessários para a sua plena cicatrização.
Uma situação semelhante vivida por Paulo é descrita em suas epístolas aos Coríntios. A igreja iniciada por ele via-se dividida entre sua lealdade a Paulo e a Apolo. O primeiro foi quem a conduziu durante seus primeiros passos, porém, teve que se afastar para seguir em sua vocação apostólica, levando o evangelho a outros rincões. O segundo era quem o substituíra, cuidando, ensinando e liderando aquela comunidade em sua adolescência espiritual. Por mais que Paulo explicasse que cada um deles tinha um papel a desempenhar, e que não fazia sentido manter os ânimos acirrados, eles insistiam na polarização, promovendo, assim, um ambiente repleto de disputas, disse-me-disse, ciúmes e hostilidades mútuas. A coisa chegou a tal ponto que Paulo percebeu que sua presença ali só agravaria a situação. Por isso, enviou-lhes uma carta, em que, entre outras coisas, anunciou-lhes a decisão de não lhes visitar, pelo menos, não naquele momento.
“Resolvi, por isso, não lhes fazer outra visita que vos causasse tristeza” (2 Coríntios 2:1). Que sentido faz oferecer nossa presença àqueles que a consideram motivo de tristeza? Seria como cutucar uma ferida ainda aberta, infeccionando-a e retardando a sua cicatrização. Para todos os efeitos, sua ausência momentânea seria uma medida preventiva e terapêutica.
“Se eu vos entristeço”, explica o apóstolo, “quem é que me alegrará, senão aquele que por mim foi entristecido?” (v.2). O que poderia ser prazeroso se tornara penoso para ambos os lados. Como se sentir alegre ao se perceber como o motivo da tristeza de quem se ama?
Aquela carta era uma tentativa de prepara-los para uma reaproximação futura. Paulo buscava pavimentar o caminho para que, ao visita-los, eles finalmente o recebessem com a alegria com que esperava ser recebido.
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