“Disse Josué aos filhos de Israel: Até quando sereis remissos em passardes para possuir a terra que o SENHOR, Deus de vossos pais, vos deu?” (Js 18.3).
Um dos maiores perigos que ronda a vida cristã é a acomodação. O ser humano caído trabalha com a “lei do menor esforço”. À medida que a tecnologia avança, mais comodidades traz ao indivíduo. Vivemos agora a expectativa das promessas do 5G que, uma vez concretizadas, afirma-se que nem mesmo precisaremos fazer movimentos para comandar qualquer aparelho. Tudo será feito por comando de voz e à distância, dentro e fora de casa, tudo interligado à rede. A Inteligência Artificial parece que também chegou para ficar. O homem não precisará mais pensar! Tornar-se-á refém das máquinas também para decidir o que é o melhor para si. Recentemente, houve o primeiro culto celebrado sob a direção de Inteligência Artificial.
As transformações que a tecnologia causa são tão rápidas que é quase impossível de acompanhar o que está acontecendo. A celeridade das coisas sempre leva a precipitações, a assimilações indevidas, tudo em nome da comodidade. No entanto, já dizia Salomão: “Não é bom proceder sem refletir, e peca quem é precipitado” (Pv 19.2). Mesmo a utilização das mídias na devoção individual e coletiva já tem trazido consequências, que só serão claramente percebidas quando for tarde demais. Assim é o homem: sempre buscando seus próprios interesses!
Está no centro da busca do pecador a realização de sua vontade, mas com o menor esforço possível. Também o pecado está no cerne dessa tendência, pois o pecador jamais gosta de servir, mas de ser servido, e isso, não apenas por homens, mas também pelas coisas. Dessa forma, a disposição favorável à sua vontade é aquilo que sempre buscará, tanto nos homens, como nas coisas e nos acontecimentos. Ele celebrará os acontecimentos favoráveis como benefícios por lhe pouparem esforços. Se perceber que algo lhe exigirá algum empenho, logo pensará se aquilo é realmente necessário e se vale a pena. Entendamos que a equação “custo – benefício” que rege nossa sociedade capitalista, pode também ser lida como “esforço – benefício”.
A comodidade humana se opõe mesmo às bênçãos de Deus. O Senhor tem um oceano de bênção para os eleitos, especialmente no relacionamento com ele. Todavia, os crentes parecem se contentar a experimentá-lo com um conta-gotas. Não querem esforço! Na verdade, não se trata simplesmente de indolência ou preguiça. A sociedade atual é conhecida por seu ativismo, pela velocidade em que as coisas têm que acontecer, pelo imediatismo, o que envolve, sem dúvida, muito trabalho. O que devemos, então, perguntar é: pelo que o ser humano se interessa? É por isso que está disposto a se dedicar, a se esforçar.
Como o pecado o pré-dispõe a fazer-se centro de todas as coisas, a destinar todo o produto de seu esforço para si, a roubar a glória de Deus atribuindo tudo o que realiza para sua própria pessoa, fica claro que, quando o seu esforço resultará algo que lhe beneficia diretamente, então valerá a pena. Naturalmente, o ser humano caído se disporá a buscar aquilo que quer, que lhe agrada. Talvez seja possível dizer que seu esforço é diretamente proporcional à sua vontade. Quando muito se quer, muito se dedica. No entanto, há situações quando parece chegar a um impasse, quando sua vontade é forte, quer muito algo, mas não o suficiente para enfrentar o desafio de alcançá-lo. Aí haverá grande frustração, o senso do fracasso.
No entanto, aparentemente, na dinâmica entre a “vontade de ter” e a “disposição de se esforçar a fazer”, o resultado será relativamente pacífico no suplantar de uma à outra: ou a “vontade de ter” é realmente avassaladora, levando o indivíduo a um grau de dedicação que costumeiramente não tem, ou a “disposição de se esforçar a fazer” será insuficiente, não alcançando o nível necessário para buscar o que tanto queria. Muitos sonhos e projetos são assim sepultados.
Falando-se do crente, espera-se que se dedique a buscar tudo aquilo que promova o reino de Deus, que perceba estar claramente em consonância com o projeto do Senhor para sua vida. Não agirá por paixões, mas através de uma vontade toda controlada por um domínio-próprio sobrenatural, o ápice do fruto do Espírito em sua vida. Sua visão é glorificar a Deus com tudo o que faz, e não glorificar a si mesmo, orientando todo seu esforço para a realização de suas próprias vontades. No entanto, não está livre das influências da indisposição natural para se esforçar. É necessário dispor a vontade para a realização do bem, daquilo que edifica, do propósito de Deus para sua vida.
O texto epigrafado contém uma severa advertência de Josué contra o povo que, diante da necessidade de conquistar a terra, estava fraquejando. Perante o esforço de guerra, começou a se acomodar na passividade, como se aquilo que os israelitas já haviam conquistado estivesse bom. Josué, então, pergunta: “Até quando sereis remissos em passardes para possuir a terra que o SENHOR, Deus de vossos pais, vos deu?”. Reparem naquilo que exatamente está sendo dito: eram remissos em conquistar o que já era deles! O Senhor há havia lhes concedido a terra, mas não queriam se esforçar para possuí-la! Que coisa terrível é esta: a indolência diante das bênçãos de Deus! Bastava ir lá pegá-las.
Em nossos dias, não é diferente! Vivemos uma geração de cristãos fragmentados espiritualmente, fracos e fracassados, que não aguentam enfrentar mesmo os menores problemas! Por quê? Porque não se apropriam das bênçãos de Deus, da plenitude do Espírito, na comunhão com Deus mediante tempo de qualidade na leitura da Palavra e nas orações. Não frequentam a igreja, limitando-se a comparecer tão-somente aos trabalhos dominicais, a começar de sua liderança. O tempo dos crentes é para suas próprias coisas. Não se apropriam das bênçãos que o Senhor já lhes concedeu em Cristo! Aprisionados às demandas terrenais esquecem-se das bênçãos celestiais. Seu empenho está relacionado às coisas materiais. Ainda que se dediquem ao reino, o fazem de forma absurdamente desproporcional quando comparado com o empenho que têm com as coisas deste mundo.
A grande maioria dos crentes, a começar de seus líderes, não são capazes de investir duas míseras horas de seu tempo aos trabalhos da igreja durante a semana. Isso deveria ser feito por prazer e satisfação, pela consciência de herdar as bênçãos de Deus, não por mera obrigação. Assim: “Até quando sereis remissos?” Busquemos uma vida mais dedicada a Jesus, investindo prazerosamente tempo no relacionamento com ele. Oremos por um avivamento, para que a atual igreja secularizada que vivemos seja despertada antes que se complete seu processo de apostasia. Façamos a nossa parte! Não sejamos remissos. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
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