Quando avalio o caminho percorrido, concluo que sou feito de contínuas superações. Não sei qual é o sabor das derrotas, pois todas as vezes que fracassei aprendi coisas novas. Mas superar não é apagar o que aconteceu, como se a memória obedecesse a uma ordem do coração. Algumas experiências permanecem conosco porque tocaram lugares profundos, abriram feridas ou modificaram a maneira de confiar. Tentar esquecer, muitas vezes, apenas empurra a dor para um canto mais escondido da alma. O que cura de verdade costuma passar por uma compreensão mais serena. Entender não significa justificar tudo, nem transformar sofrimento em algo aceitável. Significa olhar para a experiência com mais verdade, percebendo o que ela revelou, o que nos tirou, o que nos ensinou e o que já não precisa continuar governando nossa vida. Deus age muito nesse caminho interior. Ele não apressa a cura, mas ilumina devagar aquilo que ainda confunde. Aos poucos, o coração deixa de repetir a pergunta apenas em forma de ferida e começa a encontrar algum sentido para seguir. Há dores que só perdem força quando são nomeadas. Há mágoas que diminuem quando compreendemos que o outro também agiu a partir de seus limites. Há perdas que encontram lugar quando aceitamos que nem tudo poderia permanecer. A compreensão não elimina imediatamente a saudade, mas retira dela o poder de aprisionar. Quando entendemos melhor, deixamos de lutar contra a própria história e começamos a integrá-la com mais maturidade. O passado continua existindo, porém já não precisa ferir da mesma maneira. Ele se torna parte de um caminho maior, onde a alma aprendeu algo sobre si, sobre o amor, sobre os limites e sobre Deus. Superar é essa passagem delicada entre a dor e a sabedoria. Não é ausência de lembrança, mas presença de paz diante do que antes nos desorganizava por dentro.
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