“Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Senhor, Deus meu, como tu és magnificente: sobrevestido de glória e majestade, coberto de luz como de um manto” (Sl 104.1, 2).
Certamente, um dos maiores perigos que ronda a experiência de um crente é perder a visão correta de Deus. Isso pode ser causado pelo esfriamento espiritual, consequência de gradativo afastamento ou de falta de estrutura para resistir a situações traumáticas. O resultado, geralmente, é a perda de nossa capacidade de perceber as “feições” divinas, como se não mais reconhecêssemos o Senhor com nitidez, uma foto que desbotou.
Pode ser, também, que formulemos uma caricatura divina, a desfiguração da “imagem” de Deus, a formulação de um conceito sobre o Senhor que é diferente daquilo que es Escrituras afirmam. Um bom exemplo disso pode ser visto na vida de Moisés, quando, atingido pela proposta de Deus de exterminar o povo e fazer dele uma nova nação, pede ao Senhor para que risque o seu nome do livro que escreveu (Êx 32.32). A ideia de um livro escrito por Deus é a de um registro exato da contagem do povo, a figura de que o Senhor tem anotado todas as famílias e todos os indivíduos que lhe pertencem, semelhante ao objetivo do Livro de Números, escrito por Moisés. Portanto, o que o Legislador de Israel disse ao Senhor ao pedir que riscasse o seu nome é que não quereria mais ser “de Deus” se o Senhor exterminasse seu povo por causa do bezerro de ouro.
Essa ousadia de Moisés foi muito bem recebida por Deus, pois a ameaça do Senhor contra o povo visava exatamente estimular o Legislador de Israel a externar seu apego pelo nome de Deus e pelo povo colocado sob sua responsabilidade. Porém, toda essa tensão gerou um certo “trauma” no coração de Moisés, de tal forma, que pediu para ver a glória de Deus. Embora não estivesse afastado de Deus, seu conceito sobre quem é o Senhor foi afetado, como se a luz divina se apagasse em seus olhos. Desenvolveu uma noção de Deus como alguém impiedoso. É por isso que a resposta do Senhor quanto à súplica de Moisés para ver a sua glória foi não apenas “sim”, mas especificou aquilo que o Senhor lhe revelaria de forma especial: a sua bondade (Êx 33.19).
Precisamos compreender que é quando temos uma noção correta a respeito de Deus que somos impulsionados à adoração, ao culto, à submissão, à obediência, à gratidão, a render graças. Todo culto, toda expressão de adoração e gratidão, acontecem na esfera da graça não apenas de Deus para conosco, mas também de nós para com ele, certamente por motivos diametralmente diferentes.
Deus age graciosamente conosco, pois somos imerecedores de qualquer favor divino, necessitados de tudo. Não temos como pagar ou retribuir ao Senhor mesmo a mínima coisa que nos faz. Por isso, tudo o que recebemos de Deus é por graça. Nós também agimos, em certo sentido, graciosamente para com o Senhor, porque ele não precisa de nós para nada e porque não temos nada que possamos dar-lhe, pois tudo já é dele. O Senhor jamais precisou de coisa alguma! Então, o que podemos oferecer a Deus? Dessa forma, comparecemos diante dele sempre de mãos vazias. Nossa adoração está centrada em reconhecer as grandezas do Senhor, em exaltar sua glória e majestade. Colocando isso de outra forma: bendizê-lo.
Quando dizemos que nossa adoração se resume a exaltar as grandezas de Deus, não confundamos tal afirmação com total inércia ou passividade. É certo que devemos servir o Senhor e trabalhar em sua seara, mas com a consciência que ele não precisa do nosso serviço, que ele não depende de nós para nada. Servir o Senhor, obedecê-lo, é privilégio para nós, resulta o nosso bem, respectivamente. João Batista reconhecia que não era digno de ser nem mesmo escravo de Cristo, quando afirmou que não era digno de desatar-lhe as sandálias, um trabalho de servo (Jo 1.27). Nós não somos dignos nem ao menos de ser escravos de Deus.
No texto epigrafado, temos um dos relatos mais extraordinários sobre a visão que o cristão deve ter do Senhor, o que explica o porquê o salmista tão efusivamente, tão entusiasticamente, bendizer a Deus. A visão do Senhor é luminosa, é algo que domina a nossa visão, suplantando e sobressaindo-se sobre tudo o que é desta terra. O salmista pinta com cores vívidas o quadro de sua visão, mostrando o Senhor vestido com resplandecentes vestes reais. Descreve o esplendor de sua aparência, a glória que o vestia e a luz que o cobria como um manto. A euforia que toma conta da narrativa mostra que o autor tinha a plena certeza e convicção de que não há ninguém como o Senhor, não apenas glorioso, mas soberano absoluto, o Rei da glória. A majestosa visão do Senhor deve cativar nossa mente e coração.
Os crentes de hoje têm os olhos embaçados, não conseguindo perceber o brilho da cena do Deus da glória. Não o percebem como o vê o salmista. O resultado disso é que há pouca intensidade na adoração, falta o entusiasmo e a euforia causados pela presença luminosa do Senhor. Consequentemente, a fé mostra-se deficiente, confiança apequenada pela falta de compreensão de como é o verdadeiro Deus. Nossa comunhão com o Senhor deve ser suficiente para que alcancemos a gloriosa consciência da majestade divina.
Corrija sua visão de Deus! Desembace seus olhos espirituais para contemplar a beleza e a majestade do Senhor. A comunhão com Deus deve ser algo envolvente, que nos transporta para sua presença luminosa, de onde não devemos sair jamais, em momento algum. Extasiados pelo ser de Deus, experimentemos a salvação agora, a certeza das promessas, a confiança inabalável no poder, no propósito e na Providência do Senhor. Busque a comunhão com Cristo profundamente! Veja-o como ele realmente é! Viva a bênção da euforia e do entusiasmo vividos pelo salmista. Bendiga ao Senhor primeiramente por quem ele é, pela bênção de poder usufruir de sua presença. Tenha um excelente dia na presença do Senhor
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