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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

COMUNHÃO

 

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2).

Vivemos época de grandes transformações. Geralmente essa frase é aplicada às mudanças sociais, mesmo de conceitos e modelos. No entanto, não é possível haver transformações sociais e comportamentais sem que isso afete diretamente a própria igreja. Em uma sociedade cristã, é a igreja que detém o poder dos padrões e modelos. Uma das maiores provas de que já vivemos uma época pós-cristã é exatamente o silêncio da igreja na sociedade.

Por um lado, a sociedade não está mais interessada naquilo que o cristianismo tem a dizer, por outro, a igreja está por demais acovardada e descomprometida para exercer seu papel de sal da terra e luz do mundo. Como resultado, o mal e a iniquidade avançam celeremente, sem haver quem os detenham. Certamente, toda a história, como o fruir dos decretos do Senhor, reflete o propósito inquestionável e soberano do único Deus verdadeiro.

Sabemos que a própria igreja se desviará assumindo a plena apostasia, algo que já temos visto em nossos dias. Propostas teológicas absurdas, verdadeiras heresias, têm sido propaladas por líderes que se acreditava serem fiéis. Mesmo o crente, em sua individualidade, só busca ao Senhor para que abençoe suas próprias causas e coisas. A vida cristã se resumiu a alguns serviços intramuros, dentro das igrejas, e orações que pretendem simplesmente convencer Deus a abençoar o propósito humano. Muitas igrejas estão mais para clubes de afinidade cristãos, do que agrupamentos de santos de Deus na terra, que verdadeiramente assumiram a prioridade do reino e o serviço a Deus, pregadores da justiça de Cristo.

Uma tendência bastante latente em nossos dias é a composição de grandes e megas-igrejas. Para compreendermos se os enormes ajuntamentos são compatíveis com a igreja de Cristo é necessário entender o que foi a igreja estabelecida pelos apóstolos e suas transformações na história. É indiscutível que a igreja fundada no primeiro século funcionava em casas. Crentes hospedavam a igreja em suas próprias casas: “Saudai Priscila e Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus ... saudai igualmente a igreja que se reúne na casa deles” (Rm 16.3, 5); “Saudai os irmãos de Laodiceia, e Ninfa, e à igreja que ela hospeda em sua casa” (Cl 4.15).

A pergunta que devemos fazer é: quantas pessoas cabem em uma casa? Não se tratava de mansões. Será que uma residência comum acomodaria quinhentas pessoas? Oitocentas? Mil? O tamanho reduzido dos ajuntamentos não era simplesmente uma contingência do início da igreja. Dizendo isso de outra forma, reunir-se em casa não era uma questão de falta de opção. Jesus falava a multidões em lugares abertos.

O motivo da igreja se reunir em casas era favorecer e estimular a comunhão, a vivência familiar. A Igreja de Cristo é chamada por Paulo na Carta aos Efésios de “família de Deus”. Com a perseguição impetrada pelos romanos a partir do verão de 64 d.C., quando Nero pôs fogo em Roma e acusou os cristãos, fez com que mesmo o culto em casas passasse a ser evitado, preferindo lugares ocultos.

Certamente, a exigência do sigilo fez com que os cultos obrigatoriamente ocorressem em grupos preferencialmente ainda menores. No século quarto, com a suposta conversão de Constantino, imperador romano, cessou a perseguição. A oficialização do cristianismo como religião do Estado veio com Teodósio, um pouco depois. Quando isso ocorre, os cristãos herdam os templos pagãos que eram utilizados na adoração da religião greco-romana. Temos aí a gênese da idolatria, pois muitas imagens de deuses greco-romanos receberam nomes cristãos, bem como, da utilização de “templos” para a adoração a Jesus.

No entanto, um lugar próprio, mais amplo, para receber e acomodar a igreja para o culto, seria algo necessariamente errado? Certamente que não. Porém, a questão que se levanta é: qual o limite? A própria palavra “igreja” vem da expressão grega ek kaléo, que significa um “chamado para ajuntamento”. A ideia de “ajuntamento” enfatiza a necessidade de contato, pois, do contrário, seria completamente dispensável. O chamado já atrairia as pessoas ao mesmo julgar.

O ser humano associa necessariamente grandeza física à grandeza de status. Dificilmente haverá uma igreja “famosa” de pequenas dimensões. O catolicismo tem suas basílicas: a do Brasil, em Aparecida, está entre as maiores do mundo; a IURD tem o Templo de Salomão; a Deus é Amor, um templo para milhares de pessoas. A Internacional da Graça também tem sua sede. Só não conseguiu ainda uma enorme construção porque a obra foi embargada. Quanto à Mundial, aparentemente esbarrou em problemas jurídicos.

  É certo que, na medida em que uma igreja se torna conhecida, atrairá mais pessoas, o que exigirá o aumento de suas proporções físicas. Quando alcança determinado ponto, entra em um efeito de loop, isto é, atrai porque é grande e é grande porque atrai. O enorme número de membros resultará grande arrecadação financeira, o que costumeiramente leva a igreja a agregar à sua função única de cultuar a Deus e ensinar e anunciar a Palavra, outras atividades na forma de viagens, acampamentos e programações para ensinar jovens a aprender falar inglês, treinamentos os mais diversos, cursos de música, acampamentos para todas as faixas etárias, e muitas outras coisas. A imaginação é o limite!

O oferecimento de tantos “serviços”, o encanto com as dimensões físicas e do contingente de pessoas, o gigantismo, o grande poder financeiro, o relato das realizações, fazem com que os crentes se sintam maravilhados. Pregadores renomados costumam, também, estacionar em tais igrejas. O resultado é que as grandes e megas-igrejas de tornam catalizadoras de crentes, vórtices que atraem membros de igrejas menores, que estão longe de conseguir oferecer metade do que aquelas oferecem. É comum o relato de pessoas que atravessam a cidade para frequentar tais igrejas. Pode-se dizer acertadamente que as grandes e megas-igrejas praticam verdadeiro canibalismo das igrejas menores.

  Com o advento das mídias, já há igrejas de grande porte com um “rol de membros” virtual, agregando crentes de outros estados e regiões. Existe algum limite? É possível haver comunhão entre quinhentos irmãos? Oitocentos? É possível haver comunhão virtual intermunicipal, interestadual, internacional? A mídia é o equivalente à onipresença humana? Membros dessas igrejas de grande porte comumente confessam que não conhecem a maioria dos irmãos da própria igreja local. Como resultado, naturalmente se formarão igrejas dentro da igreja, ou seja, grupos de afinidade que se reunirão e estarão mais próximos. Essa será a única expressão de comunhão fraternal que se poderá alcançar.

É possível pastorear centenas de pessoas? Será que o pastor saberia o nome dos membros de uma grande ou mega igreja? Eugene Peterson, renomado escritor, professor e pastor americano, declara que “decidiu desde o início nunca pastorear uma igreja com mais membros do que pudesse citar pelo nome” (O Pastor Contemplativo, p. 9). Necessariamente grandes concentrações de crentes exigirão a presença de muitos pastores. Como consequência, também o rebanho será loteado.

A influência de grandes e megas-igrejas será enorme também no que diz respeito à denominação da qual faz parte, não raro conseguindo impor seus interesses sem maiores dificuldades. Se se trata do regime presbiteriano, uma igreja de grande porte pode ter tantos pastores que virtualmente as decisões do presbitério da qual faz parte será decidido dentro do gabinete pastoral dessa igreja, pois já tem maioria no concílio.

  Não seria muito mais produtivo para o reino espalhar igrejas menores por uma grande área do que concentrar várias centenas de crentes no mesmo lugar? Precisamos refletir na tendência de enormes templos. Todo tipo de grandeza estimula vaidades, desviando o crente do real objetivo bíblico quanto à igreja e quanto ao trabalho do crente. Os salvos deveriam privilegiar o serviço ao Senhor, não comodidades pessoais ou simples preferências. A maturidade cristã está associada à necessidade de trabalho. Onde é que o reino mais necessita? Onde o serviço que presto é relevante? É aí que devo estar. É curioso ver crentes buscarem ajuntamentos onde entrarão em escalas para poder exercer seus dons e talentos no meio de tantos que fazem a mesma coisa.

Recobremos o senso de comunhão! Recobremos o sentido da validade e da relevância do exercício do serviço que presto a Deus! Lembremos que nossa participação na igreja visa não apenas a comunhão com Deus, que posso e devo ter mesmo em casa, mas também a comunhão com os irmãos. Não nos deixemos levar por secularismos que têm assolado grandemente a igreja de Cristo. Não assumamos a forma deste século. Tenha um excelente dia na presença de Cristo 

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