Tem gente que lê a Bíblia e sempre se enxerga como Davi, nunca como Golias. Como José, nunca como os irmãos que tiveram inveja dele. Como Jesus sendo ferido, nunca como Judas oferecendo um beijo enquanto já havia decidido traí-lo. E talvez esse seja um dos maiores perigos da vida espiritual: conhecer tanto as histórias bíblicas e nunca permitir que elas revelem quem estamos nos tornando. Porque Golias não aparece apenas com espada e lança. Às vezes ele aparece na arrogância, na intimidação e na necessidade de diminuir alguém. Os irmãos de José não existem apenas em Gênesis. Eles reaparecem quando a conquista de alguém incomoda, quando a inveja se disfarça de opinião e quando se tenta destruir aquilo que não se consegue viver. E Judas não ficou preso naquela noite. Seu comportamento se repete quando existe abraço sem lealdade, proximidade sem verdade e palavras bonitas escondendo outras intenções. Talvez você tenha passado anos perguntando quem foi Golias, Judas ou os irmãos de José na sua vida, quando Deus quer fazer uma pergunta muito mais dolorosa: e se, em alguma história, tiver sido você? Não leia a Bíblia apenas procurando pessoas parecidas com quem te feriu. Leia também procurando comportamentos seus que precisam morrer. Maturidade espiritual começa quando paramos de usar a Palavra como janela para observar os outros e permitimos que ela se transforme em espelho. Antes de pedir a Deus que revele quem está contra você, tenha coragem de orar: “Senhor, revela se existe em mim alguma coisa que tem ferido alguém.” Porque reconhecer o Golias dos outros é fácil. Difícil é perceber quando estamos nos tornando gigantes na vida de alguém que só está tentando cumprir o propósito de Deus.
“Examine-se, pois, o homem a si mesmo.” 1 Coríntios 11:28
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