O RACISMO RELIGIOSO E A DEMONIZAÇÃO DOS ORÁCULOS DE RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA -
Ao abrir a caixinha de perguntas do Instagram, deparei-me com a inusitada questão: “Você acredita em jogo de búzios?” Eu poderia simplesmente dizer “não”, e vida que segue. Ou responder de maneira sucinta o que penso sobre o hábito de consultar a oráculos como este praticado pelas religiões de matriz africana, mas sessenta segundos não seriam suficientes e dariam margem para muitas suposições. Por isso, desta vez, preferi escrever um texto sobre o assunto.
Era comum nas civilizações antigas o hábito de consultar oráculos através de práticas adivinhatórias ou divinatórias. Dentre os mais conhecidos, estava o Oráculo de Delfos, na Grécia, dedicado ao deus Apolo e considerado o mais importante da antiguidade. As pessoas viajavam de longe para consultar a sacerdotisa, que dava respostas enigmáticas e poéticas às perguntas dos visitantes. Outro oráculo muito conhecido era o de Apis no antigo Egito, localizado no templo da divindade homônima em Mênfis. Na mitologia escandinava, Odin levou a cabeça do deus Mimir para Asgard para ser consultada como oráculo. Na tradição chinesa, o I Ching foi usado para adivinhação na dinastia Shang, embora seja muito mais antigo e proponha profundas implicações filosóficas.
As pessoas consultavam os oráculos para obter orientação sobre assuntos pessoais, políticos e militares. Estes oráculos só podiam ser dados por certas divindades, em lugares específicos, por pessoas determinadas, respeitando-se rigorosamente os ritos, que geralmente envolviam alguns objetos considerados sagrados.
O termo oráculo por vezes também designa o intermediário humano consultado, que transmite a resposta, e até mesmo o local que ganhava reputação por distribuir a sabedoria oracular, onde a divindade consultada era invocada.
As artes divinatórias, incluindo a consulta de oráculos, muitas vezes envolvem a interpretação de símbolos e imagens para fornecer orientação e insights sobre a vida do indivíduo. Esses símbolos podem estar relacionados aos arquétipos universais da psique humana, como o herói, a mãe, o pai, o velho sábio, a sombra, entre outros. A teoria dos arquétipos de Jung é uma teoria psicológica que sugere que há padrões universais de comportamento e experiência humana que são compartilhados por todas as culturas. Esses padrões são representados por imagens arquetípicas que se manifestam em sonhos, mitos, contos de fadas, arte e outras formas de expressão cultural.
A interpretação dos símbolos em uma consulta de oráculo pode, portanto, ser vista como uma tentativa de acessar e trabalhar com os arquétipos da psique humana, o que, segundo a teoria junguiana, poderia ajudar o indivíduo a entender melhor a si mesmo e seus padrões de comportamento, além de fornecer insights sobre as escolhas que eles podem fazer em suas vidas.
Em resumo, a teoria dos arquétipos de Jung pode ser vista como uma lente útil para entender a relação entre as artes divinatórias e a psicologia humana, pois fornece um quadro conceitual para entender a natureza dos símbolos e imagens que são usados em muitas práticas divinatórias.
O jogo de búzios é uma das artes divinatórias utilizadas nas religiões tradicionais africanas e nas religiões da diáspora africana instaladas em países das Américas, incluindo o Brasil.
Consiste comumente no arremesso de um conjunto de 8 ou 16 búzios sobre uma mesa previamente preparada, e na análise da configuração que os búzios adotam ao cair sobre ela. Depois de rezar e saudar todos os Orixás durante os arremessos, o sacerdote conversa com as divindades e faz-lhes perguntas. Considera-se que as entidades afetam o modo como os búzios se espalham pela mesa, dando assim as respostas às dúvidas que lhes são colocadas.
Nosso racismo impede que enxerguemos o jogo de búzios como uma prática oracular como outra qualquer. Raramente vemos alguém demonizar os oráculos praticados por outras tradições religiosas. Preferimos concentrar todo nosso preconceito na prática trazida da África pelas populações escravizadas.
Mesmo entre os antigos hebreus havia o hábito de se consultar oráculos. Das doze pedras que o sacerdote carregava no peitoral, duas eram usadas para consultar qual seria a vontade de Deus dentro de uma determinada situação. Eram chamadas de Urim e Tumim, uma preta e outra branca. Apesar de Deus proibir o povo de Israel de praticar adivinhação, Ele mesmo teria instituído a consulta através de Urim e Tumim. Teria Deus usado mecanismos simbólicos e pagãos a fim de ter uma via de comunicação oracular com o Seu povo? Sinceramente, creio que a resposta seja sim. Tais vias eram mecanismos divinos de auxílio à mente humana sempre em dúvida. Assim como o I Ching chinês, o Urim e Tumim também se constituía num sistema binário (sim ou não).
Ainda hoje, apesar de vivermos numa relação de comunhão provida pelo Espírito Santo e intermediada pelo Cristo, muitos cristãos sinceros fazem uso de tal prática oracular sem perceber. Porém, em vez de búzios, tarot, I Ching ou Urim e Tumim, usam a Bíblia, abrindo-a aleatoriamente, e, apontando para um versículo qualquer, creem que Deus falará diretamente com eles através dela. Outros recorrem a uma caixinha de promessas repleta de passagens bíblicas escritas em tiras de papel. A que for sorteada é considerada a resposta de Deus para alguma dúvida, ou, ao menos, uma palavra de incentivo ou consolo em um momento de crise. Ainda há os que frequentam montes, considerados lugares sagrados como eram os oráculos da antiguidade, na esperança de receberem uma palavra profética ou um sinal contundente que revele a vontade de Deus.
Pelo visto, não podemos julgar os que consultam os búzios, visto que também temos nossos próprios oráculos.
Entretanto, há que se considerar que vivemos sob a égide de uma Nova Aliança em que o próprio Espírito de Cristo habita em nós, iluminando nossa consciência, dirigindo-nos os passos na direção que corresponda à Sua vontade boa, perfeita e agradável. Jesus substitui a prática do Urim e Tumim pelo exercício de nossa própria consciência que opta pelo sim ou pelo não segundo a compreensão que houvermos alcançado, ou, simplesmente, pela intuição do coração. “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não”, instruiu-nos o Mestre. Se somos um só espírito com Ele, saberemos discernir a Sua vontade e seguiremos os passos que Ele mesmo daria. Antes de qualquer decisão, perguntamos à nossa própria consciência: O que faria Jesus em meu lugar? Como bem disse o apóstolo Paulo, diferentemente de qualquer oráculo que possamos consultar, em Cristo não há “sim e não”, mas sempre “sim” quando o que está em jogo são as promessas de Deus, isto é, os Seus propósitos que invariavelmente visam o nosso próprio bem, bem como o bem de todos (2 Coríntios 1:19,20).
Os oráculos tiveram sua importância ao longo da jornada humana, mas se empalidecem ante à conexão direta que podemos ter com o Divino através do Deus que se humanizou e caminhou entre nós. Não vai aqui nenhuma tentativa de diminuir a fé de quem quer que seja, tampouco demoniza-la como fazem alguns, mas de propor um caminho infinitamente mais excelente. Para fins de analogia, seria como informar aos que ainda usam telégrafo acerca de algo extraordinário chamado internet. Creia-me: através de Jesus Cristo temos uma linha direta aberta com o Sagrado. Você não precisa de profetas, oráculos, pastores, sacerdotes para se conectar com Deus. Ele inaugurou um novo tempo, um novo caminho, uma maneira única de acessar o divino. Parafraseando o autor da carta aos Hebreus, por muito tempo Deus falou inúmeras vezes e de VÁRIAS MANEIRAS aos nossos antepassados por meio dos profetas (oráculos, etc.), mas agora nos fala por intermédio do Seu Filho (Hebreus 1:1,2).
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