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domingo, 2 de agosto de 2026

SOMOS

 Somos Um em Cristo

“há um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4.5b)

 A exuberância e a beleza da unidade da igreja, a unidade do Espírito, é especificada através de três ideias fundamentais: um único Senhor, uma única fé, um único batismo. Significa dizer que nossa experiência de serviço nos une. Colocando isso de outra forma, o exercício da nossa fé nos aproxima e todos nós entramos na mesma e única igreja. Quando Paulo faz a primeira afirmação do verso: “há um só Senhor”, devemos entender que a condição da igreja, a situação de cada um de nós, é a de “servo”. Todos nós somos escravos de Deus! No entanto, como quase tudo referente à igreja em nossos dias, esse termo, e consequentemente seu significado, assumiram contornos diferentes daquele original. Hoje, via-de-regra, quando alguém utiliza essa palavra “servo” aplicando-a a um crente, usa-a como se fosse uma espécie de título honorífico na igreja. Denota alguém bastante representativo no meio do povo, pessoa de destaque, mas nem sempre pelo serviço que presta. Geralmente, se alguém tem uma frequência relativa à igreja, vem aos domingos e, às vezes, de meio de semana, e é um dizimista, esse já é reconhecido como alguém consagrado, acima da média.

 Essa é a triste realidade. Isso é muito pouco para chamar alguém de consagrado, de “servo”. A grande maioria dos crentes atuais só frequenta a igreja de domingo e, às vezes, em um único trabalho. Mas é fato que a pessoa que pouco faz já é reconhecida como acima da média, o que aumenta ainda mais o problema. Essa espécie de situação é reconhecida na sociedade. Para denotá-la, criou-se até mesmo o ditado: “Em terra de cego, quem tem um olho é rei!”. Quando a realidade da igreja expressa uma condição espiritual tão baixa e deficiente, aquele que faz nada, apenas frequenta a igreja com alguma assiduidade, já é reconhecido como “servo”, e ainda, “dedicado”. Precisamos recuperar o sentido autêntico desse termo. Nas Escrituras, a palavra “servo” é doulos, ou seja, “escravo”. Devemos entender isso claramente: um servo é um “escravo”. Curiosamente, não é essa palavra “escravo” que os tradutores da Bíblia para a língua portuguesa optaram. O motivo é fácil de entender: “escravo” no Brasil historicamente evoca um dos modelos de escravidão mais animalescos jamais produzido pela humanidade.

 Escravidão sempre houve na história, mas não em escala global. O modelo comercial no qual o escravo, especialmente o africano, tornou-se mercadoria de grande valor, e a sua posse consequente riqueza, foi inaugurado pelos portugueses do século XV para o XVI. Com as “descoberta” da América, a sua colonização necessitava de incontáveis braços para o trabalho do tamanho de um continente. Por isso, a escravidão, que era, até então, em pequena escala, destinada a serviços domésticos e pequenas agriculturas, passou a ser utilizada como recurso para explorar um “Novo Mundo” inteiro. Assim, transformado em mercadoria de grande valor, o desenvolvimento de um intenso e organizado comércio de escravos foi o resultado lógico. A chamada preação de índios no Brasil era, inicialmente, uma fonte de riqueza explorada pelos bandeirantes, especialmente porque o preço de um escravo africano era altíssimo. As condições em que os escravos viviam no Brasil eram sub-humanas. Embora bem alimentados, devido à força que necessitavam para o trabalho, bem como, devido ao alto preço de uma “peça” (era assim que eram considerados e chamados comercialmente), não obstante eram amontoados em lugares imundos, mal-cheirosos, chamados senzalas. Não eram respeitados casamentos e famílias. Na hora da divisão de um lote de escravos, eram considerados apenas o interesse dos compradores. Há relatos terríveis de maridos e esposas agarrados a seus filhos, entre muitas lágrimas, porque sabiam que não mais estariam juntos.

Portanto, o que foi praticado na era dos descobrimentos, com o indígena e o africano, foi cruel e desumano, diferente do que acontecia na época de Cristo. Um escravo no Novo Testamento, via-de-regra, era tratado com algum respeito e dignidade. Era um outro modelo. Você tinha escravos que detinham habilidades e conhecimentos que o seu senhor não tinha. Havia escravos professores, o “aio” que vemos em Gálatas. Havia escravos com habilidade técnicas, domadores de cavalos etc. Eles geralmente tinham acesso à casa de seus donos, também dignamente vestidos. Na época de Cristo, havia várias maneiras de se tornar escravo: 1) nascer escravo, filho de escravo; 2) contrair uma dívida e não ter como pagar: seria vendido para pagar a dívida (até mesmo sua família); 3) se roubasse algo que não tivesse como restituir: seria vendido; 4) se fosse capturado como prisioneiro de guerra; 5) a própria pessoa poderia se vender como escravo, por tempo determinado, e guardar o dinheiro para ser usado depois ou para saldar uma dívida. Havia condições de vida razoáveis para o escravo, a ponto de não ser incomum um pobre, até mesmo, optar pela escravidão, o que significaria para ele casa e sustento.

Fica claro e manifesto o quanto a escravidão do Novo Testamento diferiu daquela que vimos na história de nossa nação, exatamente pelo fato de Deus nos chamar de escravos. Se tal denotasse condição tão terrível, ninguém o quereria ser, ainda mais de um Senhor Todo-Poderoso. Seria escravidão eterna e inescapável, a antecipação do inferno. No entanto, o fato fundamental é que somos escravos, ideia que temos que recuperar em nosso relacionamento com Deus. Embora tenhamos um bom “senhor”, que nos trata muito bem e zela por nós, não podemos jamais nos esquecer que pertencemos a ele. É a vontade dele que nós devemos realizar. Vivemos para ele e não para nós mesmos. O bom escravo no Novo Testamento era aquele que servia ao seu senhor com devoção, com dedicação, com afeto e consideração. Na condição de escravos, devemos reconhecer os bons tratos que recebemos de nosso Dono, servi-lo com dedicação, trabalhar para a sua grandeza, sermos bons servos. Mesmo na condição de servos, Cristo nos trata como amigos. É o que diz nosso Senhor no evangelho de João (15.15).

Uma vez entendida nossa condição diante do Senhor como servos (somos realmente escravos!), vejamos que há algo importantíssimo ainda sobre esse Senhor, conforme escreve Paulo. Há um só! Um só Senhor. Reparemos o que faz o apóstolo Paulo guiado pelo Santo Espírito de Deus: ele nos junta todos e nos coloca como que em uma única casa, servindo em uma única propriedade, a casa de Deus. Mesmo a adoração é serviço. Os verbos gregos leitourgéo e latréo implicam exatamente isso: serviço cúltico. Além disso, somos todos chamados à diakonia, ao serviço a Deus, mesmo no trato de uns para com os outros. Mas percebam algo óbvio, mas que geralmente não pensamos: tendo um único Senhor sobre nós, a quem pertencemos, todos buscamos então a mesma coisa. Somos uma equipe que visa trabalhar para o único Senhor. Não é a vontade individual que devo buscar. Meu interesse não é me sobressair, mas buscar o progresso da causa de meu amo.

Haver um único Senhor sobre nós implica que todos trabalhamos juntos, servindo a mesma causa. Não pode haver divisões entre nós. Se existir, isso é prova inequívoca de que não estamos trabalhando para Deus, mas para nós mesmos. Se buscamos a glória de nosso dono, estamos prontos para “abrir mão” de projetos pessoais, de qualquer coisa, em benefício da causa que amo e não é minha. Tudo o que chamo de meu, meu carro, minha casa, meu dinheiro, vou consagrar e usar para Deus, porque, afinal de contas, é dele mesmo. A compreensão dessa afirmação, de que há um só Senhor, tem que nos levar a uma vida de total entrega, a direcionar todas as coisas para a honra e glória de Deus, a unir-me aos outros servos para a realização da obra do Senhor, sem disputas ou rivalidades, sem a busca de grandeza pessoal, mas otimizando tempo, relacionamento, para que o melhor resultado seja alcançado para a causa de meu dono.

Meu tempo é de Deus! Sou um servo junto com meus irmãos. Como e para quem eu o tenho dedicado meus dias? Se olhar para a minha vida, posso realmente me chamar de servo? Isso seria apenas um título vazio, que beira a hipocrisia? Resgatemos o desejo de servir e a vida de servo, o prazer de ser escravo do melhor Senhor. Servir unicamente a Deus, pois “é impossível servir a dois senhores”. Tal tentativa resultará o desagrado aos dois. Ser escravo de Deus é bênção indizível, é ser cuidado, receber vida e salvação. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus 

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