“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8:28)
Certamente, Deus se revela hoje ordinária e comumente por meio de sua Palavra. Todavia, o aprendizado da Escritura se dá verdadeira e exclusivamente pela experiência, isto é, na medida em que a verdade fizer parte de minha existência e a experimento todos os dias. Caso contrário, sem a vivência da Palavra, tudo não passará de teoria, mera informação acumulada em meu entendimento. Assim, de certa forma, neste sentido, a verdade se torna realidade em minha vida na medida em que ela modela minha existência e dita meus pensamentos e atos. Crer nas Escrituras necessariamente implica vida com Deus, comunhão diária com Jesus.
No entanto, há moveres e dinâmicas da existência que, embora se apresentem como modelos da forma como o Senhor planejou e nos trata, ocorrem de maneiras diferentes na experiência de cada eleito. Um exemplo disso pode ser percebido na história do povo no Egito, quando Deus anunciou por meio de José que haveria sete anos de fartura como nunca houve, seguido de período igual de carestia também inédita. Essa é uma das dinâmicas que o Senhor pode utilizar em um povo, uma igreja local ou mesmo um indivíduo. Moisés, ao contar esse período, tem como objetivo simplesmente descrever e registrar os acontecimentos, sem qualquer intenção de ensinar que Deus fará isso na vida de cada um. Porém, conquanto não seja uma norma para todos, mostra que é uma dinâmica utilizada pelo Senhor, que pode ser repetida, segundo o propósito de Deus, na vida de outros sujeitos e atores, não necessariamente na forma sete por sete, mas na mera alternância de períodos de prosperidade com os de carestia.
Particularmente reconheço isso em minha vida. Em um passado recente, admirei-me com a prosperidade que vivia. Nunca fui rico, mas não tive, por alguns anos, qualquer problema financeiro, de saúde ou ministerial. Os ventos sempre se manifestavam favoráveis e em popa, impulsionando-me naturalmente para frente. No entanto, esse estado positivo de coisas foi radicalmente mudado, a ponto de os recursos financeiros caírem drasticamente, ter que conviver com doença incurável na família e ter que optar por licença no ministério pela falta de campo. No final do ano passado dizia a alguns irmãos mais chegados sobre as sérias questões familiares, ministeriais e financeiras que enfrentava, faltando apenas algum episódio físico. Sofri um acidente e tive que fazer cirurgia na perna e braço esquerdos, seguido de um período de recuperação um tanto difícil. Meu joelho esquerdo possivelmente jamais será o mesmo. Então passei a dizer que não faltava mais nada.
É comum se dizer que facilmente nos acostumamos com o que é bom. Pude constatar a veracidade de tal afirmação. Devemos aprender que nossa vida reserva alternâncias, algumas muito rápidas e profundas, como se fôssemos repentina e instantaneamente trasladados do céu ao inferno, talvez uma bênção indizível seguida imediatamente de perda irreparável e insubstituível. Compreendamos que dificilmente haverá alguém que experimente sempre a constância favorável dos acontecimentos. Devemos estar preparados para enfrentar tempos difíceis, dias, meses e, talvez, anos maus. Vivemos em um mundo de dores e sofrimentos e não podemos esperar que todos os nossos passos sejam em terreno plano e firme. Haverá contratempos, dores e perdas, que nos ensinarão a fé e a confiança no Senhor.
É interessante que a leitura que fazemos dos tempos favoráveis é que “tudo dava certo”. Sem perceber, ou, talvez, sem dar a devida atenção, consideramos nossa vontade como aquilo “certo” a acontecer. Consequentemente, se ela não se realiza, foi “errado”, outra forma de dizer que “as coisas não deram certo”. Precisamos entender que ainda que nossas melhores expectativas não se concretizem, ainda assim vai tudo bem. Tudo sempre irá bem. De uma forma que, por vezes, não saberemos explicar, mesmo os maiores sofrimentos resultarão benefício para o crente verdadeiro. Os sofrimentos nos humilham! Mostram o quanto somos fracos e impotentes, aquilo que realmente somos. Diferente do que a natureza pecaminosa quer nos convencer, não somos deuses. Não temos a capacidade de concretizar nossas vontades. O mundo e a existência não obedecem aos nossos desejos, não são modelados por nossos anseios.
O texto epigrafado afirma exatamente o compromisso de Deus de cumprir sua graciosa aliança em nossa existência, fazendo convergir todos os acontecimentos para o benefício de seus filhos. Paulo, após afirmar que o Espírito intercede por nós segundo a vontade de Deus e não a nossa, deixando claro que oração alguma mudará os decretos de Deus, apressa-se em também dizer que qualquer que seja a vontade de Deus, mesmo quando se manifestar diametralmente oposta àquilo que queríamos, resultará sempre o bem do eleito.
No Brasil, mesmo os ditados mostram algum grau de humor. Há um que traduz as fases dos piores enfrentamentos da seguinte forma: “quanto mais rezo, mais assombração me aparece”. Mesmo a fé popular de um catolicismo rústico reconhece que há períodos quando esperamos e suplicamos por melhoras, mas apenas o pior aparentemente se acumula, fases que parecem não ter fim. É preciso buscar no Senhor as forças para resistir. As piores ocasiões de tentação são os sofrimentos. São esses o ambiente do questionamento da fé, de pensamentos blasfemos, de acusações contra Deus, seu amor e seu cuidado. Aprendamos que épocas mudam, que estações do ano se sucedem, que o final é gracioso e eternamente abençoador para aqueles que estão em Cristo. Tenha um abençoado e confiante dia na presença de Jesus
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