Pode parecer escandaloso dizer isso. Mas basta observar.
Nos bares, pessoas se sentam frente a frente, conversam por horas, riem, choram, contam suas histórias, escutam umas às outras e, ainda que movidas por motivações diversas, experimentam algo que muitas igrejas perderam: a mesa.
Há uma palavra quase esquecida que explica isso: comensalidade. Ela significa compartilhar a mesa. E compartilhar a mesa é muito mais do que comer. É oferecer tempo, atenção, escuta e presença. A comida é apenas o pretexto. O verdadeiro alimento é o encontro.
Vivemos numa época em que nunca foi tão fácil comer e tão difícil sentar-se à mesa. As refeições se tornaram rápidas, funcionais e solitárias. Cada um monta seu prato e desaparece: um diante da televisão, outro diante do computador, outro trancado no quarto com o celular nas mãos. Alimentamos o corpo, mas deixamos a alma morrer de fome.
Foi exatamente isso que o cristianismo primitivo procurou combater.
Os primeiros cristãos não se reuniam apenas para realizar um rito religioso. Reuniam-se para compartilhar a vida. A ceia era uma refeição completa. Conversavam longamente, ouviam uns aos outros, repartiam o pão, dividiam alegrias e dores. O pão e o vinho não eram o centro do encontro. Eram o símbolo de uma comunhão que já acontecia entre eles.
É por isso que tantos interpretam mal a repreensão de Paulo aos coríntios.
O apóstolo não estava preocupado com a forma correta de celebrar um ritual. Seu problema era outro: a mesa havia deixado de ser mesa. Os ricos chegavam primeiro, comiam e bebiam até se embriagar. Os pobres chegavam depois e encontravam apenas migalhas. Aquilo já não era comunhão. Era a reprodução das desigualdades da sociedade dentro da igreja.
Quando Paulo ordena: “Esperem uns pelos outros”, ele não está criando uma etiqueta litúrgica. Está defendendo a comensalidade. Ninguém deveria começar enquanto alguém ainda estivesse de fora. A presença do outro era mais importante do que a comida. A comunhão era mais importante do que o pão. Comer indignadamente era não discernir no outro a extensão do corpo de Cristo.
Talvez tenhamos reduzido a Ceia do Senhor a um gole de suco e um pedaço de pão, esquecendo que Jesus quase sempre ensinava sentado à mesa. O Reino de Deus foi anunciado em banquetes, refeições e encontros. Jesus era constantemente acusado de comer com pecadores. Sua mesa era maior do que os muros da religião.
Essa sabedoria, aliás, não pertence apenas ao cristianismo. Diversos povos originários continuam compreendendo que comer juntos fortalece vínculos, transmite memória, preserva identidade e produz pertencimento. A mesa sempre foi um lugar sagrado.
Talvez seja por isso que os bares continuem cheios.
As pessoas não vão apenas atrás da cerveja. Se fosse só pela bebida, beberiam sozinhas em casa, gastando muito menos. O que procuram é companhia. Procuram alguém que as escute. Procuram um lugar onde possam permanecer sem serem expulsas pela pressa. Procuram uma mesa.
Enquanto isso, muitas igrejas se transformaram em auditórios. Os fiéis chegam, sentam-se em fileiras olhando para a nuca uns dos outros, assistem a uma apresentação religiosa e voltam para casa sem conhecer quem estava ao seu lado. Compartilham o mesmo ambiente, mas não compartilham a vida.
E o mais triste é que nem em nossas casas a mesa ocupa mais o lugar que ocupava. Perdemos os almoços demorados de domingo, as conversas que continuavam depois que os pratos eram retirados, as histórias contadas entre uma sobremesa e um café. Perdemos o hábito de permanecer.
Por isso, um dos atos mais subversivos do nosso tempo é simplesmente desligar as telas, guardar o celular e sentar-se à mesa. Sem pressa. Sem interrupções. Apenas presentes.
Porque o pão alimenta o corpo.
Mas é a mesa que alimenta a alma.
Nenhum comentário:
Postar um comentário