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sexta-feira, 13 de março de 2026

LIBERDADE

 

“Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.31, 32).

A obediência sincera é a maior marca do verdadeiro discípulo. Ela decorre da virtude fundamental da vida cristã: a humildade. Quando Jesus nos ensinou a pedir ao Pai: “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”, reconhecemos a falha e a limitação de nossas vontades, renunciamos a qualquer pedido que tenha a nós como centro e objetivo, e confessamos reconhecer que a vontade de Deus é boa, perfeita e agradável. Obedecer não é resultado do compromisso com o cumprimento de regras exteriores. Não é, realmente, qualquer execução de ordens. É resultado da interiorização das Escrituras, quando assimilo a vontade de Deus como sendo a minha própria vontade, modelando minha alma, comandando o meu coração.

A obediência verdadeira é sempre fruto do que somos interiormente, jamais a simples tentativa de modelar o exterior pelo cumprimento de normas. Por isso Jesus fala de “permanência”. Não se trata de “visitar” o mandamento para obedecê-lo, como se precisasse me planejar para isso ou aproveitar a melhor ocasião, um contato sazonal, temporal, mas uma “residência”, algo permanente, que prova que a Palavra de Deus se tornou parte de mim. As Escrituras foram feitas para ser transcritas nas tábuas de nosso coração, para assumir o controle de nossa vida. A Palavra de Deus, os ensinamentos de Cristo, reflete o próprio Deus. É o contraste da personalidade perfeita e santa do Deus trino com o pecado humano.

No caso de Jesus, viver a Lei era ser ele mesmo. Como se diz: “era Jesus sendo Jesus”, pois ele era a própria Lei encarnada. Como Deus-homem, sua alma coincidia com toda vontade de Deus, inevitavelmente. Era impossível Jesus querer algo que fosse diferente daquilo que pretendia o ser divino. No entanto, no nosso caso, nosso estado natural é diametralmente oposto à vontade de Deus, sendo necessária uma remodelação completa, um novo nascimento, a introdução de uma nova natureza que é exatamente igual à humanidade de Cristo. É por ela que devemos viver. Daí vem a verdadeira obediência.

A interiorização das Escrituras coincide com a vivência da nova natureza, que tem a própria Lei como modelo. Que bênção e privilégio é isso. Todavia, o homem natural encontra-se escravizado. É curioso que os judeus rejeitavam qualquer ideia de escravidão. 

Tinham sido escravos no Egito, passado por períodos de vassalagem durante a monarquia no Antigo Testamento, foram escravizados e exilados na Babilônia. No tempo de Jesus, a Judeia era também uma nação vassala, subjugada pelos romanos. Porém, a sequência imediata do verso epigrafado é: “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: Sereis livres?” (Jo 8.33). A escravidão era uma espécie de mancha na história dos judeus que, pela negação do fato, acreditavam apagar.

Todavia, a conversão verdadeira parte exatamente desse fundamental reconhecimento: a escravidão da vontade, a sujeição da alma ao pecado. Jesus nos liberta do que somos, do que éramos antes de o conhecermos. A liberdade real é a da alma, não propriamente a do corpo. Ainda que sejamos presos por causa do evangelho, experimentaremos o senso da real libertação, que é espiritual e eterna. É a serenidade que marcava as prisões de Paulo. Outros, como Dietrich Bonhoeffer, mártir cristão do nazismo, deixaram impactante testemunho de fé e confiança nos momentos de aprisionamento.

Em nossos dias, conquanto as perseguições comecem a se mostrar mais contundentes, há outros tipos de aprisionamentos que devem ser considerados. São situações que se mostram insolúveis, dores que não passam, agonias que se perpetuam. Ocasiões que se repetem diuturnamente, sem descanso, quando ao invés do alívio ou da solução, ouvimos do Senhor: “a minha graça te basta” (2 Co 12.9). São prisões existenciais, aprisionamentos, pois não alcançam qualquer libertação. Pode ser uma doença incurável, filhos rebeldes e ímpios, a bancarrota irreversível, a consequência inevitável de pecado de grandes proporções que trouxe dano irreparável, a perda de um ente querido por si insubstituível etc. São ocasiões que se tornam a dura realidade. Não há outra coisa a fazer do que saber conviver, viver, ir adiante, sendo fiel.

Embora aprisionados a essa realidade, em Cristo somos perfeitamente habilitados a viver a liberdade da alma, isto é, não permitirmos que tais acontecimentos, por difíceis que sejam, tornem a nossa vida miserável, amargurada. Não é essa a experiência que o Senhor tem para nós. Lembremos sempre daquilo que Paulo passou com relação ao espinho na carne: “Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo” (2 Co 12.8. 9).

Fugir sempre é mais fácil que lutar! Não adote a lei do menor esforço. Não se entregue diante dos problemas. Ao invés disso, entregue-se totalmente às mãos do Senhor. Você experimentará o renovo diário, a porção quotidiana das misericórdias do Senhor que vem junto com o nascer do sol. Não tome o sofrimento como desculpa para a desobediência ou para a negligência. Continue a servir a Deus com integridade de vida mesmo em suas maiores dores e perdas. Adore-o e seu coração se encherá de alegria. O tempo passa, e com ele, também nós e os muitos cativeiros de existência que somos forçados a viver. Não olhe para essa vida, mas para a eternidade. Verdadeiramente somos livres! Tenha um abençoado dia na presença de Jesus

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