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terça-feira, 17 de março de 2026

SENTIDO

 Não faz mais sentido


“Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (2Tm 4.3, 4).


Vivemos época quando há um verdadeiro pacto entre governos, empresas e mídias, para que os valores que construíram a sociedade ocidental sejam completamente mudados. A América é produto da Europa. A Europa é, historicamente, criada pelo cristianismo. Todas as colônias americanas se tornaram culturas europeizadas, certamente, em graus diferentes, conforme maior ou menor imposição cultural do colonizador. A língua é o principal elemento cultural.


No Brasil, quase fomos bilingues. Em 1758, Marquês de Pombal ordenou que o português fosse a língua oficial na colônia Brasil, proibindo a fala do tupi na sociedade e seu ensino nas escolas. Na verdade, tratava-se do que ficou conhecido como “língua geral” ou “Nheengatu” (“língua boa”), uma espécie de tupi adaptado para a comunicação com o branco. Portanto, a imposição da língua portuguesa fez da cultura brasileira mais europeia do que outras nações, como o Paraguai, que, além da língua europeia, manteve o guarani também como língua oficial, ou a Bolívia, que tem o espanhol e uma infinidade de línguas oficiais nativas, e o Peru, que junto com a língua espanhola ainda tem o quéchua e o aimará.


Todos os colonizadores eram cristãos que pensavam no desbravamento do novo continente não apenas como um serviço ao rei, mas também à igreja. A chancela da igreja era importantíssima para os países católicos, enquanto os protestantes pensavam também na expansão do reino de Cristo. Cristóvão Colombo até mesmo entendia seu nome como “portador de Cristo” (Cristóvão) e compreendia conquistas e infortúnios como propósitos de Deus. Não é por acaso, também, que esses navegadores descobridores davam nomes cristãos ou de seus reis aos lugares que “descobriam”. Dessa maneira, a América era um continente cristão, de certa forma.


No entanto, começando no Humanismo (c. séc. XV) e alcançando plenitude no Iluminismo da Revolução Francesa de 1789, a religião deixou de ocupar o lugar central no pensamento ocidental. No século XIX, com a Revolução Industrial foi a vez de se enfatizar o ganho e o lucro, quando os bens espirituais, as virtudes, foram secundados de vez pelo interesse no mundo físico e material. A necessidade de produção para se ter não apenas mais lucro, mas também, em menor tempo, impulsionou o desenvolvimento de tecnologia. Os Estados Unidos da América se desenvolveram acentuadamente devido à ética “tempo é dinheiro”, cunhada por Benjamin Franklin.


Com o tempo, a palavra “industrialização” passou a ser sinônimo de “mecanização”, substituindo o homem operário pela máquina. A religião do homem passou a ser escancaradamente a riqueza, o acúmulo de bens materiais, e a felicidade não mais foi vista como uma bem-aventurança eterna, mas os prazeres terrenais ligados especialmente ao dinheiro.


O ser humano foi desviando os olhos de Deus para fixá-los em si mesmo, em seus próprios desejos e realizações, a ponto de “felicidade” hoje poder ser definida na sociedade como a convergência da existência à vontade do indivíduo. A industrialização e sua consequente mecanização, enfatizaram a razão no desenvolvimento de tecnologias, quando o homem mostrou-se capaz de grandes coisas, dando-lhe a falsa impressão de que podia cuidar de si mesmo, talvez, constituir seu próprio paraíso terreno, sem Deus.


O sobrenatural, mesmo os subjetivismos do ser humano, foram questionados, desprezados, deixados de lado, por uma sociedade que passou a pensar que não precisava mais de Deus. Nietzsche chegou a proclamar a morte de Deus. Augusto Comte afirmava que a religião existiu apenas para dar ao homem a capacidade de conviver com aquilo que ele não podia explicar, porém as ciências o levariam ao seu pleno desenvolvimento, quando elas substituíram totalmente a religião. O lema da bandeira brasileira “Ordem e Progresso” é um lema positivista. O século XX se inicia no auge do modernismo, impulsionando os países ao “desenvolvimento”. Essa palavra sempre se aplica ao conhecimento que resulta riqueza financeira, como se o desenvolvimento humano fosse equivalente à capacidade de adquirir bens materiais.


Um dos exemplos mais terríveis do “desenvolvimento” é a produção de armas mais letais. O número de mortos da Primeira Grande Guerra é assustador, não exatamente devido ao número de combatentes, mas por causa da evolução das armas utilizadas. Nunca houve porcentagem de morte tão acentuada como naquele conflito, até então. A Segunda Guerra Mundial é o segundo estágio do conflito iniciado na Primeira. Historiadores atuais percebem as duas Grandes Guerras como dois momentos do mesmo conflito. Quando a Primeira Guerra se encerrou, todos já aguardavam a segunda, pois as questões políticas não tinham sido plenamente “resolvidas”.


Paradoxalmente, nada mostrou mais o desenvolvimento científico-tecnológico da modernidade do que as bombas “fat man” e “litle boy”, as bombas atômicas jogadas em Hiroshima e Nagazaki. Conhecer se tornou poder. O homem, portanto, se dedicou ao desenvolvimento científico, bem como, às agências de espionagem, estas não apenas para saber o que o outro estava desenvolvendo, mas também para roubar segredos industriais, especialmente voltados para aplicações militares. Essa era a modernidade, traduzida para o homem comum em carros, rádio, TV, telefone e viagens aéreas.


No entanto, a ênfase material não supria a alma, sendo necessária uma solução para isso: o pós-modernismo. Este surge como uma resposta à frieza do modernismo, proclamando a fluidez como uma necessidade humana. Zygmunt Bauman ficou famoso por seu conceito de “modernidade líquida”. Passou-se a afirmar que não há verdades absolutas, a pluralidade de ideias, baniu-se o essencialismo, afirmando-se a impossibilidade de definições imutáveis. Foram destacados os sentimentos e as emoções como legitimadores de atitudes e comportamentos, em detrimento da própria biologia.


Curiosamente, o que temos hoje é uma convivência pacífica entre o modernismo, que é a confissão de fé da ciência e tecnologia, presente especialmente nas indústrias e mercado financeiro, e o pós-modernismo, na imposição de ideologias e paganismos, que influenciam mais o dia a dia do ator social. O pós-modernismo, sem dúvida, estimula o subjetivo, o que poderia favorecer o cristianismo como religião.


No entanto, essa vertente religiosa é vista sempre com desconfiança pela sociedade, por já ter sido hegemônica e pela sede de libertinagem tão presente atualmente, que percebe o cristianismo como ultrapassado, retrógrado, medieval. Cada vez mais referências ao cristianismo são banidas do meio social. Mesmo a Bíblia tem sofrido censura em alguns países. Não é possível mais ocupar lugares públicos para atividades e trabalhos cristãos, algo que era tão comum em nossa sociedade brasileira. Recentemente, na Europa um pastor foi preso por pregar em praça pública. O cristianismo é ainda tolerado confinado aos templos. Foi banido da sociedade ocidental. Também no campo acadêmico, de forma geral estudos sobre qualquer religião são bem aceitos, menos aqueles que envolvam o cristianismo.


A pós-modernidade já fez sua escolha: o anticristianismo. Não se mudam práticas antes de mudar conceitos. Os poderosos perceberam que as verdadeiras mudanças não são aquelas resultantes de imposições violentas. Isso causa revolta e rejeição. Todavia, pela insistência perseverante de novos conceitos, a sociedade paulatinamente os assimilará e naturalmente se reformulará.


A igreja atual está exposta a uma sociedade em aguda transformação anticristã. Os crentes já foram modelados como capitalistas / materialistas. Acreditam que o objetivo de sua vida é acumular o máximo que puderem de bens materiais. Não pensam, jamais, em ter uma vida simples. O resultado é que empregam o maior e o melhor tempo de seus dias e de sua vida exatamente para isso, assim como fazem os ímpios. A vida cristã passou a ser a busca das mesmas coisas que são importantes para o ímpio, geralmente de forma honesta.


A perda de contato com Deus e com a Palavra, os poucos minutos de oração semanal, produziram uma geração de crentes descomprometida, fácil de ser modelada. Para boa parte dos crentes, as ideias das Escrituras: a queda, o diabo, os pecados, a necessidade de redenção, a necessidade do derramamento de sangue, começam a parecer estranhas. Quanto mais o conceito de Deus Pai que envia seu Filho morrer por pecadores! Quem mandaria seu próprio filho para uma missão suicida? O cristianismo é cada vez mais estranho não apenas para o mundo, mas para muitos que se dizem crentes. Sem contato diário, com tempo de qualidade com o Senhor, a apostasia é o único resultado se se vive em uma sociedade cujos conceitos são seculares e anticristãos. A realidade da ressurreição nem mesmo é falada mais nas igrejas.


O centro do evangelho está na ressurreição de Cristo que é garantia da nossa ressurreição. É a fé inabalável de que vou ressuscitar que me habilita a entregar minha vida à morte por causa de Cristo. Somente alguém que crê inabalavelmente na ressurreição morrerá por Cristo. Pensa-se na eternidade no céu, uma fé pagã, a eternização do estado de morte, na separação do corpo e da alma. Isso não é cristianismo! No texto epigrafado, Paulo fala de um tempo no qual a verdade incomodaria e não seria aceita, quando ela não faria mais sentido. E então, as verdades bíblicas continuam a fazer sentido para você? Tenha um excelente dia na presença do Senhor

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