A espiritualidade alcança brilho à vida. Somos corpo e alma, matéria e espírito. Cuidar do corpo é algo prático, culturalmente aceitável. O cuidado para com a alma é o diferencial. Para sermos plenamente humanos devemos exercitar o cuidado integral, isto é, corpo e alma. Acontece que existem travessias que não suportam plateia, não porque sejam frágeis, mas porque são sagradas. O que amadurece por dentro costuma crescer devagar, como semente que rompe a terra sem alarde, obedecendo a um ritmo que não aceita pressa nem curiosidade externa. O silêncio não é ausência de som, é presença de profundidade. Nele, a alma deixa de se defender e começa a escutar aquilo que as palavras não alcançam. Há dores que só se organizam quando ninguém pergunta, há alegrias ainda tímidas que precisam permanecer guardadas até aprenderem a respirar. Deus conhece esse tempo íntimo, conhece o compasso exato do coração humano, sabe quando falar e quando apenas permanecer ao lado, sustentando sem interferir. Na vida espiritual, muito do que transforma não nasce de respostas prontas, mas de permanências silenciosas, de noites interiores onde nada parece claro e, mesmo assim, algo vai sendo alinhado com delicadeza. O barulho costuma exigir decisões rápidas, o silêncio ensina a esperar até que o sentido apareça. Nem tudo precisa ser compartilhado para ser verdadeiro, nem todo caminho precisa ser explicado para ser legítimo. Há processos que pedem recolhimento para não serem feridos pela pressa do mundo, para não serem reduzidos a opinião ou julgamento. Quando se aceita essa reserva, o coração aprende a confiar mais no agir discreto de Deus do que na própria ansiedade por controle. E pouco a pouco, sem anúncio, sem espetáculo, algo se pacifica por dentro, como água que encontra o leito certo para seguir seu curso. O silêncio, então, deixa de ser vazio e se torna morada, lugar onde a vida se refaz com mansidão e fidelidade. Nesse espaço escondido, a alma encontra repouso e segue adiante mais inteira, mais reconciliada com o que é e com o que ainda está por vir.
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