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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

FLORES

  As flores do jardim conventual são contempladas diariamente, pois elas elevam a alma. Na minha opinião quem não planta flores não sabe viver com plenitude. Me identifico mais com aquelas flores que florescem para além da primavera. A coragem de floresce é o grande diferencial, caminho para a superação. Sim, existe uma coragem que não se confunde com euforia nem com ausência de dor. É aquela que permanece mesmo quando tudo parece estéril, quando o solo ainda guarda marcas de invernos prolongados. Algumas vidas aprendem cedo que esperar condições ideais é um luxo raro e, por isso, escolhem florescer com o que têm, onde estão, do jeito possível. Essa coragem não ignora a aspereza do caminho, mas também não se deixa definir por ela. Há almas que compreenderam, no silêncio das próprias lutas, que a estação mais importante não acontece fora, mas dentro. Quando o coração decide não se fechar, mesmo ferido, algo começa a se renovar sem alarde. A primavera interior não elimina as noites frias, mas garante que elas não sejam o fim da história. Deus age assim, discretamente, sustentando a seiva invisível que continua circulando quando tudo parece parado. O mundo vê apenas resistência, mas por dentro acontece um trabalho delicado de reconstrução, de reconciliação com a própria fragilidade. Flores corajosas não são as que nunca enfrentaram o gelo, são as que não permitiram que ele endurecesse a raiz. Elas aprendem a transformar espera em profundidade, queda em aprendizado, silêncio em escuta. Não se apressam em provar nada, apenas seguem fiéis ao impulso de viver que as habita. Há uma beleza madura nesse florescer que não depende de aplausos nem de condições favoráveis. Ele nasce da confiança de que a vida, mesmo atravessada por contrastes, continua merecendo entrega. Assim, pouco a pouco, o coração encontra sua própria estação de luz, não porque tudo ao redor mudou, mas porque algo dentro decidiu permanecer aberto. E onde há abertura, a vida sempre encontra um jeito de florescer. 

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