“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12:2).
Certamente, algo que mais angustia o coração humano é decidir. Há decisões que causam o que podemos chamar de "boa angústia", quando há propostas tão boas e abençoadoras que temos receio de não saber escolher a melhor.
No entanto, as terríveis angústias se dão quando se trata de decisões que acarretam perdas e sofrimentos, aquelas que, não importando qual seja a conclusão a que chegarmos, algum sofrimento, perda ou prejuízo, ocasionará. São atitudes que não implicam o certo ou o errado, porém escolher entre possibilidades lícitas que resultarão algum sofrimento ou perda.
Pode ser um exercício mental simplesmente imaginar as consequências, projetar os resultados, a fim de concluir o menos danoso. É importante decidir destacando um correto raciocínio, baseado na razão. Certamente, é acertado dizer que não se deve tomar decisões com o coração. Na verdade, isso é bíblico! Deus já disse através do profeta: "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? (Jr 17:9). Nossos sentimentos não são confiáveis, pois não são infalíveis, ou seja, podem se manifestar tendenciosos e parciais.
Agostinho, por exemplo, acreditava que antes da queda, todos os sentimentos e vontades estavam sujeitos à razão. Dizendo isso de outra forma, o homem perfeito decidia sentir, decidia querer alguma coisa, sempre como algo resultante da razão, de refletir e perceber o melhor resultado. Para aquele grande doutor, um dos Pais da Igreja, dentre as muitas mudanças que o pecado trouxe à essência do ser humano, uma das mais perniciosos e danosas foi fazer com que a razão não mais governasse os sentimentos e vontades. Agora, são os sentimentos e as vontades que interferem na razão a ponto de praticamente determinar os atos.
Conquanto isso seja inegável, tenho aprendido que os sentimentos têm papel importantíssimo nas decisões, a fim de "humanizá-las" um pouco. Quando digo isso, em hipótese alguma estou sugerindo qualquer afrouxamento da verdade ou parcialidade doutrinária. Apenas estou afirmando que, quando vamos tomar qualquer decisão, jamais devemos perder de vista o fato de que tratamos com pecadores.
Quando nosso Senhor ordena que tiremos a trave de nossos olhos para poder tirar o cisco do olho de nosso irmão, ou seja, que a soma de nossos pecados sempre se mostrará maior do que o pecado que vejo em meu irmão e tenho que ser consciente disso, não implica diminuir a intensidade da gravidade do pecado de qualquer forma ou em qualquer medida. Tão somente, para que a decisão seja acertada, tenho de lembrar que tanto ele quanto eu somos pecadores. Nesse sentido, "humanizar" uma decisão é lembrar que ninguém é perfeito, que há apegos e sentimentos, que nem sempre e nem todos estarão aptos a decisões meramente racionais.
É considerar as falhas, os apegou, os amores, os desejos de todos, que me habilita a agir com misericórdia e graça, sem ser meramente legalista e racional. Aqui percebemos como a decisão meramente racional sempre será hipócrita em alguma medida, pois passamos a exigir do próximo algo perfeito e matemático que nós mesmos não conseguimos cumprir e que por vezes já falhamos.
Com toda certeza, o padrão jamais pode estar no homem, nem ser relativo a cada um, líquido e flutuante segundo os interesses do indivíduo. O critério tem que ser o mesmo, baseado unicamente nas imutáveis Escrituras. Todavia, nem mesmo o Senhor, durante nossa peregrinação nesta terra, nos trata pela simples e fria letra da Lei. O salmista afirma: "Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniquidades" (Sl 103:10). O Senhor, sem negociar sua justiça, perfeição e santidade, jamais desconsidera a nossa realidade como pecadores, não apenas levando em conta nossas falhas, mas também nossas vontades, amores, carências, sentimentos etc.
Decisões difíceis a serem tomadas sempre afetará pessoas, a começar de nós mesmos. É certo que seguir a Cristo impõe o Calvário para todos nós, acompanhando-o em sua morte: “Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16:24). No entanto, isso está longe de dizer que não posso ter vontades e desejos pessoais, que tenho que ser uma pessoa nula, em branco, zumbis mortos de espírito vagando pela terra, pois é errado ter vontades. Ao contrário disso, devo viver para e com Jesus dedicando todos meus desejos e vontades a ele, esperando nele sua concretização ou não. É isso que diz o verso epigrafado: apresentar minha vida ao Senhor todos os dias, o que fará brotar em meu coração desejos piedosos que glorifiquem o nome de Cristo.
Aprendamos a tomar decisões buscando refletir a verdade bíblica sem a modelar segundo nossa vontade, mas percebendo a realidade do ser humano, que há sentimentos e vontades a serem consideradas. Como disse acima, não se trata de decidir entre o certo e o errado, pois, nesse caso, a decisão já está clara, mas questões que, mesmo procurando acertar, qualquer caminho a seguir imporá alguma dor ou sofrimento. Decidamos diante do Senhor e, uma vez tomada a decisão, a implementemos com paz no coração. Tenha um a abençoado dia na presença do Senhor
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