“Os olhos do Senhor estão em todo lugar, contemplando os maus e os bons” (Pv 15:3 )
Aquilo de mais valioso na vida cristã se chama "crédito". Esse termo está intimamente ligado ao ato de "crer". Crédito se dá a quem se acredita, à pessoa em quem confiamos. Não é possível testemunhar sobre Jesus, ter uma vida cristã respeitada, sem crédito. É por isso que uma das estratégias mais usadas pelo Maligno, o diabo, seus anjos, bem como, os ímpios que os seguem, é desacreditar os servos de Deus. Se a pessoa for questionada quanto à sua legitimidade e credibilidade, logo aquilo que ela afirma cai em suspeição e descrédito.
Foi isso que os judaizantes tentaram fazer com Paulo nas igrejas da Galácia. Acusaram-no de ser um falso apóstolo, pregador de um evangelho deturpado. Com Cristo não foi diferente. Os judeus procuraram constantemente desacreditá-lo. Diziam que ele era falso profeta, que expulsava demônios por Belzebu. Sabiam que José não era pai de Jesus. Para eles, Jesus era um filho ilegítimo. Daí produzirem um dos maiores xingamentos com o qual se pode desonrar alguém, quando à vista do povo disseram a Jesus: “Nós não somos bastardos; temos um pai, que é Deus” (Jo 8:41). Ao dizerem isso, afirmavam nas entrelinhas que Jesus não sabia quem era seu pai.
Todo fiel deve esperar como certa, em algum momento de sua vida, uma campanha de difamação, quando comentários maldosos a seu respeito serão espalhados, suas palavras desacreditadas, seu trabalho questionado. É certo que todos, mesmo o fiel, continua um pecador e terá seus erros, mas nenhum será de tal intensidade a comprometer sua vida e testemunho.
Do ponto de vista bíblico, existe sim diferença na intensidade da maldade nos pecados cometidos. Houve no Brasil época quando era comum se ouvir nas igrejas que “não há pecadinho e pecadão”. Quando se afirmava isso, foi em um contexto em que se defendia a heresia de “crentes carnais”, isto é, salvos que viviam intencionalmente em pecado. Dizia-se que, dependendo da gravidade do pecado, sua prática continuada não acarretaria prejuízo à vida cristã. Em um ambiente como esse, foi combatido ferozmente esse entendimento equivocado. Passou-se a afirmar que o crente deveria fugir de todo e qualquer pecado, mesmo aqueles considerados de pequenas proporções.
Nas Escrituras, vemos Jesus condenando a incredulidade de Betsaida, Carazim e Cafarnaum por não o terem reconhecido como Cristo, apesar do grande número de sinais que realizou naquelas cidades. Chega mesmo a afirmar que no dia do juízo haverá menos rigor para Sodoma, Tiro e Sidom, cidades conhecidas por sua exacerbada imoralidade, do que para aquelas cidades (Mt 11.21-24). O maior de todos os pecados, aquele que não é perdoado, é a incredulidade, a resistência à obra do Espírito Santo que testemunha Cristo no coração do homem. É a blasfêmia contra a Terceira Pessoa da Trindade. Ao mencionar maior e menor rigor consequentemente afirma maior pecado e menor pecado.
Dante Alighieri, ao produzir sua mais famosa obra: A Divina Comédia, apresenta o inferno como um mundo inferior de dores e tristezas, cujo acesso significa: “Vós que entrais abandonai toda esperança” (Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate). Dante imaginou o inferno com nove níveis de sofrimentos, diferindo cada um deles segundo a gravidade dos pecados cometidos. Embora não possamos dizer que há nove níveis de sofrimento no inferno, certamente concordamos que serão de acordo com a vida de cada um.
De igual forma, há também os galardões. É difícil compreender o que são eles. As Escrituras apenas os anunciam, sem dizer o que são. São geralmente tidos como “recompensas” resultantes da fidelidade de cada crente. Conquanto seja o termo comumente utilizado, sabe-se que é indevido. Pode receber recompensa aquele que não cumpre nem mesmo sua obrigação? Jesus afirma no Sermão do Monte: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5:48). Fomos criados em perfeição. Se não vivemos esse padrão, como pensar em ter direitos diante de Deus?
Geralmente ilustro “galardão” da seguinte forma. Imagine uma empresa que possui dez funcionários, contratados para trabalhar oito horas por dia. Oito trabalham apenas quatro horas e dois seis. Devido ao fato desta dupla trabalhar mais do que os outros, o dono da empresa decide premiá-los. A pergunta é: eles merecem? Há algum direito nisso? Certamente não! Assim também o galardão. É graça! Não merecemos, pois há inúmeros erros e pecados em nossa vida. Por isso, há teólogos, como Calvino, que acreditam que o galardão é a própria salvação, não qualquer glória adicional.
A lógica da grandeza nas Escrituras parece corroborar isso, por sua matemática “do avesso”: o maior é o menor, o grande é o pequeno, o primeiro é o último, maior é o que serve e não o que é servido. Distinções de grandeza conforme pensadas e concebidas por pecadores não parecem se ajustar a isso. A maior grandeza de Deus foi revelada quando ele próprio renunciou a sua glória para assumir uma natureza humana mortal e miserável como a nossa, seu amor sacrificial.
Aprendamos a realidade desta existência, na qual temos que enfrentar não apenas as vicissitudes e sofrimentos causados por doenças e acidentes, mas principalmente aqueles causados pela própria maldade humana. Saibamos guardar nossa vida em santidade e em obediência, pois nosso testemunho é nosso maior bem. É aquilo que nos credencia como cristãos no meio de uma sociedade de trevas, o que nos dá crédito. Entendamos que, exatamente por isso, é a primeira coisa que o Mal procurará combater em nossa vida. Desde a queda de Adão foi assim, e será assim até o retorno de Cristo.
No entanto, se guardarmos firme a fé e a santidade receberemos a coroa da justiça, aquela conquistada por Jesus e dada por graça a cada um dos que nele creem. Os olhos do Senhor nada deixam passar e retribuirá a cada um segundo a proporção da fé que cada um possui e as obras decorrentes. A justiça absoluta e final só ele realiza e é nele que devemos esperar. Tenha um abençoado dia na presença de Jesus
Nenhum comentário:
Postar um comentário